terça-feira, 6 de fevereiro de 2007
se pudesse arranjar uma palavra para descrever, analisar e sintetizar o que é o pensamento, diria que a palavra imprevisível serviria muito bem para o caso.
nós não somos donos do nosso pensamento (lá está o despontar da terceira ferida narcísica do homem), o pensamento é que é dono de nós. Quer queiramos, quer não, temos de submetermo-nos à sua vontade, como se fôssemos seus escravos e dele dependesse toda a nossa existência, ou pelo menos toda a nossa consciência, ou se por uma questão de terminologia preferirem, sanidade mental. Os verdadeiros loucos são aqueles que não se submetem ao seu único senhor, que é o pensamento. Mesmo que ele diga para aqueles não pensarem. Mesmo que ele próprio diga e afirme, a pés juntos, que não existe, e que é apenas mais um reflexo de lua na superfície calma de um lago, e não a própria lua.
nós não somos donos do nosso pensamento (lá está o despontar da terceira ferida narcísica do homem), o pensamento é que é dono de nós. Quer queiramos, quer não, temos de submetermo-nos à sua vontade, como se fôssemos seus escravos e dele dependesse toda a nossa existência, ou pelo menos toda a nossa consciência, ou se por uma questão de terminologia preferirem, sanidade mental. Os verdadeiros loucos são aqueles que não se submetem ao seu único senhor, que é o pensamento. Mesmo que ele diga para aqueles não pensarem. Mesmo que ele próprio diga e afirme, a pés juntos, que não existe, e que é apenas mais um reflexo de lua na superfície calma de um lago, e não a própria lua.
na televisão encontra-se de tudo. Como aqueles programas em que uns certos especialistas em moda, decerto Doutores nessa área, tal é a sua sabedoria, se propõem a mudar o visual de uma pessoa qualquer, dita ordinária, ai esta linguagem, vamos lá a não ferir susceptibilidades nenhumas, querendo mudar o visual de alguém para que se pareça uma executiva, ou um executivo, do século XX, diriam alguns do século passado, posto que estamos no XXI, então querem eles dar-lhes a cara de umas reminescências de cultura pop, do sentido do descartável e da noção do efémero. E as pessoas, as visadas, ainda deixam. Eliminando qualquer vestígio de individualidade corporal, e por vezes também psicológica, à espiritual é que não chegam, mas quanto ao psicológico ainda conseguem lavar uns quantos cérebros mais abertos à mudança, então vão eles por ali fora, menosprezando esses atributos, particulares, e únicos, e tentam mudar tudo quanto podem, segundo os seus próprios gostos pessoais. Não pode este ser um desejo imensamente narcísico, quiçá alguma ferida, do ego, que os faz mover-se assim?
perante este quadro tão próprio na sua cultura, que é a ocidental, capitalista e descartável, que, à semelhança das donas de casa dos anos 50 do pós segunda grande guerra, quer incutir, ou programar, nas mentes jovem e frescas o sentido de obediência à sociedade (coisa que gostava de saber o que é, nunca ninguém ainda ma soube explicar), à cultura do desperdício, à casa, e ainda a esse desejo tão nobre e tão elevado espiritualmente que é arranjar um parceiro sexual, e não importa qual, o que interessa é que tenha bons genes, e ter sua ninhada de filhos, como se de uma besta, outra vez esta linguagem, e pensar que besta no tempo do Eça significava um animal de carga ou de transporte de veículos, isto é, como se de uma besta se tratasse, e se ela chateasse muito a gente, davam-se uma chibatadas e resolvia-se a questão. Eu até compreendo a situação, o nosso mundo, nosso é como quem diz, o mundo em que nós vivemos, vá lá, e já ficam as contas mais certas, esse mundo, está votado ao esquecimento, e tudo por culpa das políticas antinatalistas, por um lado, e por outro da emancipação da mulher, sem ofensa às feministas.
mas de repente dei por mim a pensar o que seria se uma tribo da papua nova guiné, ou se os próprios maori, ou se os nómadas que percorrem o deserto do Saara, ou ainda se os índios ameríndios, os que ainda existem, claro, ou se os chineses lá na suas aldeias remotas, ou então os monges budistas, ou taoístas, ou os esquimós, ou até os habitantes da tribo masai, resolvessem fazer eles um programa semelhante. Decerto se iriam rir muito dos vestidos e das roupas que trazemos, das nossas aparências, dos nossos narizes, das nossas tristes e alegres figuras (às vezes já nem se sabe bem qual é qual), e aí é que havia de ser bonito: os ocidentais rapavam o cabelo todo, e punham aquelas vestes púrpuras e laranjas dos budistas, ou então aqueles grossos casacos de lã dos esquimós, e as botifarras, ou então vinham antes para a moda do tudo ao léu como Deus o deitou ao mundo, salvo a tanguinha respectiva, para melhor acomodação dos seus pertences, que é como quem diz, numa linguagem ocidental, das suas gónadas e dos seus gâmetas, das suas jóias da coroa ou então do seu património genético pessoal e transmissível.
uma coisa é certa: cada um é o que é, ou pelo menos devia ser, mas sobretudo cada um vê o que é, e acaba sendo o que vê.
perante este quadro tão próprio na sua cultura, que é a ocidental, capitalista e descartável, que, à semelhança das donas de casa dos anos 50 do pós segunda grande guerra, quer incutir, ou programar, nas mentes jovem e frescas o sentido de obediência à sociedade (coisa que gostava de saber o que é, nunca ninguém ainda ma soube explicar), à cultura do desperdício, à casa, e ainda a esse desejo tão nobre e tão elevado espiritualmente que é arranjar um parceiro sexual, e não importa qual, o que interessa é que tenha bons genes, e ter sua ninhada de filhos, como se de uma besta, outra vez esta linguagem, e pensar que besta no tempo do Eça significava um animal de carga ou de transporte de veículos, isto é, como se de uma besta se tratasse, e se ela chateasse muito a gente, davam-se uma chibatadas e resolvia-se a questão. Eu até compreendo a situação, o nosso mundo, nosso é como quem diz, o mundo em que nós vivemos, vá lá, e já ficam as contas mais certas, esse mundo, está votado ao esquecimento, e tudo por culpa das políticas antinatalistas, por um lado, e por outro da emancipação da mulher, sem ofensa às feministas.
mas de repente dei por mim a pensar o que seria se uma tribo da papua nova guiné, ou se os próprios maori, ou se os nómadas que percorrem o deserto do Saara, ou ainda se os índios ameríndios, os que ainda existem, claro, ou se os chineses lá na suas aldeias remotas, ou então os monges budistas, ou taoístas, ou os esquimós, ou até os habitantes da tribo masai, resolvessem fazer eles um programa semelhante. Decerto se iriam rir muito dos vestidos e das roupas que trazemos, das nossas aparências, dos nossos narizes, das nossas tristes e alegres figuras (às vezes já nem se sabe bem qual é qual), e aí é que havia de ser bonito: os ocidentais rapavam o cabelo todo, e punham aquelas vestes púrpuras e laranjas dos budistas, ou então aqueles grossos casacos de lã dos esquimós, e as botifarras, ou então vinham antes para a moda do tudo ao léu como Deus o deitou ao mundo, salvo a tanguinha respectiva, para melhor acomodação dos seus pertences, que é como quem diz, numa linguagem ocidental, das suas gónadas e dos seus gâmetas, das suas jóias da coroa ou então do seu património genético pessoal e transmissível.
uma coisa é certa: cada um é o que é, ou pelo menos devia ser, mas sobretudo cada um vê o que é, e acaba sendo o que vê.
uma das coisas que mais me surpreenderam até hoje foi o ficar a conhecer que a evolução da ecologia e a evolução da economia não são mais que dois aspectos da mesma moeda. E até a própria origem da palavra, oikos, diz tudo. A ecologia estuda a organização inteligível, intelectualizável e racionalizada das relações que se estabelecem na casa dos seres vivos, entre aquela e estes, e entre eles próprios. As relações que se estabelecem entre os diferentes domínios da casa. A economia estuda a gestão da casa, do espaço, no tempo. Realmente, quando as pessoas falam destas duas, parece que estão a falar da água e do fogo, do céu e da terra, do bom e do mau, incluindo a noção de que são ambas mutuamente exclusivas da outra. Não pode haver ideia mais errada. Uma ideia engraçada e, ao mesmo tempo, interessante, é aquela que funde as duas, e que se pode apresentar da maneira que já têm vindo a descrevê-la:
A Economia da Natureza
porque, de facto, a Natureza é económica, em si, e sabe gerir muito bem as suas contas, os seus balanços positivos e negativos, e de tal modo que nunca a balança fique em deficit ou em superavit, ao contrário de tantas bolsas de tantos países que por aí há. Devíamos aprender esta lição com a Natureza: que tudo o que se dá, é aproveitado pela vida, para que ela se possa desenvolver, e florescer, e mostrar todo o seu esplendor numa selva caótica de uma ordem gerida parcimoniosamente, e que tudo o que se tira tende a ser reposto, para que o caos não se perca, isto é, para que reine a diversidade ainda, mas também, e importante, para que a ordem de encadeamento das relações entre os seres não se altere, porque, também, se formos a olhar direito para o assunto, vemos que não há outra possível: é aquela que sempre existiu.
A Economia da Natureza
porque, de facto, a Natureza é económica, em si, e sabe gerir muito bem as suas contas, os seus balanços positivos e negativos, e de tal modo que nunca a balança fique em deficit ou em superavit, ao contrário de tantas bolsas de tantos países que por aí há. Devíamos aprender esta lição com a Natureza: que tudo o que se dá, é aproveitado pela vida, para que ela se possa desenvolver, e florescer, e mostrar todo o seu esplendor numa selva caótica de uma ordem gerida parcimoniosamente, e que tudo o que se tira tende a ser reposto, para que o caos não se perca, isto é, para que reine a diversidade ainda, mas também, e importante, para que a ordem de encadeamento das relações entre os seres não se altere, porque, também, se formos a olhar direito para o assunto, vemos que não há outra possível: é aquela que sempre existiu.
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
nunca gostei de economia. Mesmo desde o tempo do secundário. Só o Agostinho da Silva é que me fez gostar de economia - é que no mundo em que nós vivemos hoje, se queremos fazer alguma coisa por ele, temos que conhecer-lhe as manhas, e isso passa por conhecer o paradigma económico, capitalista, em que estamos mergulhados até à espinha.
realmente, e como Caeiro diz, e bem, ver uma coisa e pensá-la é muito diferente. Pensá-la é deturpá-la, porque metemos sempre de nós na nossa interpretação. Deve ser um princípio metafísico, este de só falarmos biografia por todos os nossos poros. Não vale a pena. Só dizemos aquilo que somos. E aí está. Como se quiséssemos dizer ao mundo todo aquilo que nós somos - nós, que somos parte do mundo, ou que o somos também por inteiro, porquanto não existe nada que diga que somos distintos dele e ele de nós.
se quisermos fazer a análise lógica do assunto, podemos dizer que, ao pensar, isto é, ao interpretar um fenómeno, que nos chega aos olhos, estamos a transformar esse fenómeno (o que observámos com os olhos) em um pensamento (o que pensámos com a cabeça). Parece-me ser essa toda a noção da Autopsicografia.
Esse processo transformante deve consistir numa alteração do fenómeno, um rearranjo das partes que compõem o todo, à nossa maneira, porque somos nós que o vemos, excepto se estamos a resolver uma equação matemática, que aí só valem as regras da lógica aristotélica. Bem, mas mesmo essa lógica foi o Aristóteles que a inventou, e portanto também era mais um pensamento, fruto da cabeça dele. Não tem nada de natural, de facto, já que a realidade não se rege por números precisos como o um, o dois, o três... a realidade rege-se apenas por números que se desconhecem, apenas estimáveis dada a precaridade dos nossos meios de medição. Até o que chamamos área do círculo é directamente proporcional à proporção pi, que é um número não exacto. Talvez seja isto uma das muitas ironias do destino, ou um sentido de humor divino, já que mesmo na figura geométrica mais simétrica e perfeita de todas, no plano, no espaço já será a esfera, não conseguimos lhe tirar as medidas de forma precisa, mas apenas decorrentes da imprecisão numérica que acompanha esta matemática toda que inventámos.
E a coisa curiosa é que essas equações conseguem bater sempre certas.
se quisermos fazer a análise lógica do assunto, podemos dizer que, ao pensar, isto é, ao interpretar um fenómeno, que nos chega aos olhos, estamos a transformar esse fenómeno (o que observámos com os olhos) em um pensamento (o que pensámos com a cabeça). Parece-me ser essa toda a noção da Autopsicografia.
Esse processo transformante deve consistir numa alteração do fenómeno, um rearranjo das partes que compõem o todo, à nossa maneira, porque somos nós que o vemos, excepto se estamos a resolver uma equação matemática, que aí só valem as regras da lógica aristotélica. Bem, mas mesmo essa lógica foi o Aristóteles que a inventou, e portanto também era mais um pensamento, fruto da cabeça dele. Não tem nada de natural, de facto, já que a realidade não se rege por números precisos como o um, o dois, o três... a realidade rege-se apenas por números que se desconhecem, apenas estimáveis dada a precaridade dos nossos meios de medição. Até o que chamamos área do círculo é directamente proporcional à proporção pi, que é um número não exacto. Talvez seja isto uma das muitas ironias do destino, ou um sentido de humor divino, já que mesmo na figura geométrica mais simétrica e perfeita de todas, no plano, no espaço já será a esfera, não conseguimos lhe tirar as medidas de forma precisa, mas apenas decorrentes da imprecisão numérica que acompanha esta matemática toda que inventámos.
E a coisa curiosa é que essas equações conseguem bater sempre certas.
depois do encontro sobre história da ciência fiquei a saber que realmente a história é mesmo bafienta. A sala até estava composta, mas mesmo assim devia ser a pessoa mais jovem que ali estava, coisa que me deixava um pouco constrangido. Em boa verdade me passou pela cabeça a ideia: e então o que acontecerá quando todas estas pessoas morrerem? Será que irá haver continuidade nesta área? Enfim, é como tudo o resto, um espelho de Portugal. Poucas pessoas fazem realmente alguma coisa, e esses poucos são na sua maioria velhos.
confesso que as ideias que se vão tendo da evolução da história, e da evolução da ciência, em suma, da evolução do pensamento humano, são interessantes, e muito. Mas não posso deixar de sentir que existem paradigmas de pensamento, ou barreiras mentais, que impedem que se vá mais além. E isso neste caso significa fazer. Vivemos neste momento mais uma crise (será que alguma vez saímos dela?), mas ela também é fruto das imposições mentais que as pessoas colocam sobre si mesmas, sobre o mundo. É verdade que se faz boa investigação, e que ela é necessária. Mas se calhar não é só preciso andar à procura de máquinas e pedras e colecções antigas, é certo que também é preciso conservar as que existem, é certo que é preciso restaurar o que se pode, é certo que é preciso inventariar o que se conseguir encontrar, mas é preciso também ter olhos de presente voltados para o futuro. E o que é realmente preciso agora, nesta época de grandes avanços na área da comunicação e da cultura, é organizar esses dois domínios. É preciso trazer escritores e pintores e todos os demais artistas aos museus, a falar, a conferências, às escolas, às universidades. E é preciso levar as universidades às escolas, às secundárias e aos restantes estabelecimentos. É preciso criar cafés de cultura, e salas de musas, para não deixar morrer os museus.
os museus são algo que me aparece na mente como parado no tempo. Não evoluem. E isso é algo extremamente estúpido, parece-me, limitado, porque neste mundo tudo muda. E se os museus não mudam também, então passam a fazer parte somente do passado, e claro que ninguém lhes vai ligar nenhuma, se eles não mantiverem a sua ligação com o presente. É, por isso, preciso levar as pessoas aos museus, e levar os museus às pessoas. Talvez a primeira seja a mais fácil de implementar, pelo menos numa primeira fase. Criar espaços nos museus onde se possa tomar café, conversar, ou simplesmente criar. Não seria um ambiente muito mais rico para todos? Caramba, uma, duas salas, não seria suficiente para criar espaços onde as pessoas pudessem ir, não falo de Lisboa ou do Porto, falo de cada Município, de cada terreola que tem um museu. Porque não? Porque é que é necessário ir a centros comerciais de modelos importados do estrangeiro para se tomar um café? Um museu serve perfeitamente, é ainda por cima é mais interessante porque alberga coisas que podem ser visitadas, conhecidas, apreciadas. O museu tem que voltar a ser uma casa das musas, algo onde as pessoas podem ir para colher inspiração, ou para se poderem dedicar à análise e à intelectualização, ou então onde as pessoas podem ir simplesmente para conversar, ou para trabalhar, isto é, para fazer projectos, espectáculos multimédia, e é bom usar estes neologismos, que só áudio e vídeo já passou à história.
Vamos insuflar de vida os museus! Vamos empurrar as pessoas para lá, para que os fiquem a conhecer, para que não tenham a noção de que só poucos podem ser artistas, para que achem que não têm em si arte nenhuma, para que se possam inspirar e ter uma relação física, próxima, com os quadros e com as esculturas. Caramba, se for preciso, que se deixe as pessoas tocar nas obras, senti-las perto da pele, para ver se as sentem também perto do espírito, e deixe-se que elas possam conversar com quem elas faz, para ficarem a conhecer mais, mas num ambiente informal, descontraído, onde as pessoas possam falar do que acham, onde possam trocar ideias e experiências e criação, e mesmo sensações. Uma sala com mesas e cadeiras, uma máquina de café, papel, lápis e canetas, será isso tão difícil de arranjar?
confesso que as ideias que se vão tendo da evolução da história, e da evolução da ciência, em suma, da evolução do pensamento humano, são interessantes, e muito. Mas não posso deixar de sentir que existem paradigmas de pensamento, ou barreiras mentais, que impedem que se vá mais além. E isso neste caso significa fazer. Vivemos neste momento mais uma crise (será que alguma vez saímos dela?), mas ela também é fruto das imposições mentais que as pessoas colocam sobre si mesmas, sobre o mundo. É verdade que se faz boa investigação, e que ela é necessária. Mas se calhar não é só preciso andar à procura de máquinas e pedras e colecções antigas, é certo que também é preciso conservar as que existem, é certo que é preciso restaurar o que se pode, é certo que é preciso inventariar o que se conseguir encontrar, mas é preciso também ter olhos de presente voltados para o futuro. E o que é realmente preciso agora, nesta época de grandes avanços na área da comunicação e da cultura, é organizar esses dois domínios. É preciso trazer escritores e pintores e todos os demais artistas aos museus, a falar, a conferências, às escolas, às universidades. E é preciso levar as universidades às escolas, às secundárias e aos restantes estabelecimentos. É preciso criar cafés de cultura, e salas de musas, para não deixar morrer os museus.
os museus são algo que me aparece na mente como parado no tempo. Não evoluem. E isso é algo extremamente estúpido, parece-me, limitado, porque neste mundo tudo muda. E se os museus não mudam também, então passam a fazer parte somente do passado, e claro que ninguém lhes vai ligar nenhuma, se eles não mantiverem a sua ligação com o presente. É, por isso, preciso levar as pessoas aos museus, e levar os museus às pessoas. Talvez a primeira seja a mais fácil de implementar, pelo menos numa primeira fase. Criar espaços nos museus onde se possa tomar café, conversar, ou simplesmente criar. Não seria um ambiente muito mais rico para todos? Caramba, uma, duas salas, não seria suficiente para criar espaços onde as pessoas pudessem ir, não falo de Lisboa ou do Porto, falo de cada Município, de cada terreola que tem um museu. Porque não? Porque é que é necessário ir a centros comerciais de modelos importados do estrangeiro para se tomar um café? Um museu serve perfeitamente, é ainda por cima é mais interessante porque alberga coisas que podem ser visitadas, conhecidas, apreciadas. O museu tem que voltar a ser uma casa das musas, algo onde as pessoas podem ir para colher inspiração, ou para se poderem dedicar à análise e à intelectualização, ou então onde as pessoas podem ir simplesmente para conversar, ou para trabalhar, isto é, para fazer projectos, espectáculos multimédia, e é bom usar estes neologismos, que só áudio e vídeo já passou à história.
Vamos insuflar de vida os museus! Vamos empurrar as pessoas para lá, para que os fiquem a conhecer, para que não tenham a noção de que só poucos podem ser artistas, para que achem que não têm em si arte nenhuma, para que se possam inspirar e ter uma relação física, próxima, com os quadros e com as esculturas. Caramba, se for preciso, que se deixe as pessoas tocar nas obras, senti-las perto da pele, para ver se as sentem também perto do espírito, e deixe-se que elas possam conversar com quem elas faz, para ficarem a conhecer mais, mas num ambiente informal, descontraído, onde as pessoas possam falar do que acham, onde possam trocar ideias e experiências e criação, e mesmo sensações. Uma sala com mesas e cadeiras, uma máquina de café, papel, lápis e canetas, será isso tão difícil de arranjar?
não deve existir coisa mais irritante do que ouvir um orador que expõe ideias, mais ou menos interessantes, pela leitura de um papel. Para já, demonstra incapacidade de síntese das suas ideias. Não proporciona qualquer adaptação ao seu auditório, independentemente deste se tratar de um conjunto de pessoas que estudaram a área ou que não têm conhecimentos quase nenhuns sobre ela. Retira a atenção da métrica e da rima daquilo que se vai dizendo e passa-la para a pontuação. E, pior que tudo isso, dá um curso estático ao discurso. Em suma, retira mais apoios do que acrescenta muletas. Quer-me parecer que o padre António Vieira, ou o próprio Santo António, não precisavam de papéis para que as palavras das suas prédicas andassem - ou voassem. E, mais a mais, ler toda a gente sabe...
domingo, 4 de fevereiro de 2007
não faço a mínima ideia do que é essa nuvem que rodeia as consciências das pessoas e que lhes diz que ciência é matemática. Nada disso! Se a ciência fosse feita por robôs, por autómatos e computadores, por máquinas que se regem por equações e por algarismos decimais e absolutos, por sucessões e limites, aí, e só aí, é que a ciência seria matemática. Mas esse não é o caso. E tanto não é que a ciência nunca evoluiu por causa da matemática. A matemática, como outro ramo do conhecimento humano, foi evoluindo por si, mas a causa de toda essa evolução não é numérica ou científica: é pessoal. A ciência é feita por pessoas, e portanto a ciência evolui consoante as pessoas que a fazem. Foi o facto de certas pessoas terem visto este ou aquele determinado fenómeno à luz deste ou daquele paradigma que fez com que surgisse esta ou aquela interpretação. Portanto, a ciência é apenas interpretação de fenómenos observáveis, directa ou indirectamente, mas não deixa de ser observação. E no que toca à observação, cada um vê o mundo do modo que melhor lhe serve, e consoante a sua própria disposição de ser. E é por isso que a ciência não é matemática, a ciência é, sim, pensamento. Pensamento humano, e digamos assim humano porque não sabemos se a formiga e o macaco possuem alguma forma de pensamento científico, lá por não rabiscarem umas coisas numa superfície e falarem por línguas como as nossas podem ainda ter as suas próprias línguas, que os levam a falar desta ou daquela maneira, seja por frequências de vibração das suas cordas vocais ou então por códigos de cores, ou padrões de comportamento.
Pensamento humano e evolução. É essa a base da ciência. E como o pensamento humano evolui (no sentido darwiniano do termo, isto é, no sentido em que muda consoante o contexto) no tempo mas também no espaço, o que acontece é que a história, por estudar a forma como se deram essas mudanças, adquire aqui um papel essencial. E é tão essencial ele que sem história não há ciência nenhuma, só há a matemática: uns números e umas equações que não fazem sentido nenhum, a não ser à luz dos seus próprios paradigmas matemáticos. Assim, o que é necessário fazer é perceber como é que a história evolui ao longo do tempo, ou melhor, como é que o pensamento evolui ao longo do tempo, como é que todos estes factores se relacionam entre si para concorrer (no sentido matemático do termo, isto é, para se aproximar) exactamente no sentido da construção daquilo a que chamamos conhecimento humano.
Qual a tarefa então? Talvez meter todos os cientistas, profissionais de uma área, a estudar história. Mas isso só também não basta. Porque a história também deve muito à ciência, e os desenvolvimentos científicos e tecnológicos em muito contribuíram para a modelação ou a paradigmatização do pensamento humano. E se exemplos são precisos, podemos ir aos clássicos dos modelos geocêntricos e geoestáticos e depois a passagem para os modelos heliocêntricos e heliostáticos. Podemos ver a sua influência pelas obras de Darwin, especialmente a teoria da selecção natural. Podem ver ainda, já mais próximo de nós, a influência que teve, depois da máquina a vapor na revolução industrial, o desenvolvimento da computação, que desde as calculadoras até aos modernos portáteis tem conhecido um desenvolvimento notável, que é daquele tipo de coisas que nem podemos prever até onde vão chegar, essa automatização, e é bom que chegue dentro em breve, e decerto irá chegar, para ver se temos todos mais tempo para a poesia que há dentro de nós, sem termos de lavar a loiça, a roupa, ou secá-las, esperar tanto tempo em transportes ou trabalhar, isto é, fazer coisas de que não gostemos, tarefas chatas e monótonas.
Mas tanta conversa fiada é muito bonita, o problema é depois ir para a prática fazer as coisas. E a melhor maneira, segundo me parece, para lidar com este problema de como vamos meter o mundo a funcionar realmente, isto é, como vamos conseguir dar cultura a toda a gente e permitir que todos possam ter livre acesso a ela, e se deixar inspirar por ela, e fazer coisas belas para que outros se possam inspirar também, isso tudo passa, a meu ver, pela educação. Não vale a pena estar aqui a falar na situação da educação em Portugal, que é má. Mas também tenhamos em mente isto: é que não é só má cá, é má em tanto outro sítio, que as nossas misérias até nem parecem tão grandes como poderiam parecer à primeira vista. E porque é que é má, qual é a razão para tanto descontentamento? É que o modelo pedagógico em que se baseia a nossa educação foi importado da inglaterra capitalista, e do modelo capitalista que, servirá, sim senhor, muito bem à economia, mas quanto à educação não serve para quase nada. Nesta ânsia que têm todos de viver tudo tão depressa e sem ter tempo para nada, nem sequer para respirar, às vezes, o que acontece é que o momento não é saboreado pela simples razão de que temos que produzir, que nem máquinas numa fábrica, numa linha de montagem, de produção em série, resultados e mais resultados. Os cientistas têm que descobrir novos medicamentos e novas invenções, os professores têm que formar mais alunos, os investigadores têm que publicar muito (para encher o olho das pessoas que se dizem especialistas na matéria e conseguirem, assim, arranjar trabalho e financiamento), os operários das fábricas, se têm que fazer 100 peças por dia, precisam de fazer 200, e por aí fora, numa espiral estonteante, ao toque do relógio, parecendo que não temos vida própria nenhuma, só cabeça para pensar, corpo para trabalhar e boca para comer, que não é mais que investir para que se possa trabalhar mais e mais, até à loucura. Contentes com isto, decerto, ficarão os psicólogos, se não estivessem todos ou quase no desemprego, já que a psicologia, como nos querem fazer querer, não faz sentido e não serve para nada porque não produz peças, não refina ouro ou não faz automóveis. E com isto a filosofia, e a psicologia, e a própria história, e tantos outros exemplos que só nos podem por a nós maldispostos, e com vergonha, pois claro. Portugal não tem que ser mais uma fábrica inglesa ou francesa ou alemã, Portugal, ao contrário do que o nosso ministro tanto apregoa lá pela China, não tem que ter mão-de-obra barata, como a que existe na China (e só sabem eles a que custo, coagidos como se encontram numa ditadura neonapoleónica), Portugal tem que ser simplesmente aquilo que é, que é aquilo que sempre foi. Nada mais, nada menos. Dirão vocês que todos os países têm os seus quês, é verdade, e Portugal, digo-o eu, também os tem, evidentemente, e parecem-me estes quês de Portugal tão importantes no mundo em que hoje vivemos que me parece que o caminho está em deixar que todos eles se expressem da melhor maneira. Isto é, Portugal tem um sentido descobridor por natureza, e os nossos descobrimentos são prova disso mesmo. Qualquer povo quinhentista que sonhasse porventura em ir por esses mares fora até àquele país longínquo, que ninguém sabia muito bem onde ficava, traçar uma rota comercial, fazer um daqueles, digamos assim, negócios da China, diriam os outros povos, certamente, que esse povo não podia estar bom da cabeça – que é coisa que me parece que ainda se diz, mas noutros contextos, os que hoje são mais actuais. Bem, podíamos ser loucos sim senhor, e muito, mas a verdade é que conseguimos não só dar novos mundos ao mundo, para lembrar o nosso poeta, também demos novas terras à terra, que passou a ser povoada de repente por seres e por criaturas, incluindo as humanas, tão diferentes e tão iguais a nós que causavam espanto e admiração de toda a gente. De facto, tal empresa como esta não pode ser menos que admirável, e até no nosso tempo causa espanto, respeito e admiração, e não é para menos.
Pensamento humano e evolução. É essa a base da ciência. E como o pensamento humano evolui (no sentido darwiniano do termo, isto é, no sentido em que muda consoante o contexto) no tempo mas também no espaço, o que acontece é que a história, por estudar a forma como se deram essas mudanças, adquire aqui um papel essencial. E é tão essencial ele que sem história não há ciência nenhuma, só há a matemática: uns números e umas equações que não fazem sentido nenhum, a não ser à luz dos seus próprios paradigmas matemáticos. Assim, o que é necessário fazer é perceber como é que a história evolui ao longo do tempo, ou melhor, como é que o pensamento evolui ao longo do tempo, como é que todos estes factores se relacionam entre si para concorrer (no sentido matemático do termo, isto é, para se aproximar) exactamente no sentido da construção daquilo a que chamamos conhecimento humano.
Qual a tarefa então? Talvez meter todos os cientistas, profissionais de uma área, a estudar história. Mas isso só também não basta. Porque a história também deve muito à ciência, e os desenvolvimentos científicos e tecnológicos em muito contribuíram para a modelação ou a paradigmatização do pensamento humano. E se exemplos são precisos, podemos ir aos clássicos dos modelos geocêntricos e geoestáticos e depois a passagem para os modelos heliocêntricos e heliostáticos. Podemos ver a sua influência pelas obras de Darwin, especialmente a teoria da selecção natural. Podem ver ainda, já mais próximo de nós, a influência que teve, depois da máquina a vapor na revolução industrial, o desenvolvimento da computação, que desde as calculadoras até aos modernos portáteis tem conhecido um desenvolvimento notável, que é daquele tipo de coisas que nem podemos prever até onde vão chegar, essa automatização, e é bom que chegue dentro em breve, e decerto irá chegar, para ver se temos todos mais tempo para a poesia que há dentro de nós, sem termos de lavar a loiça, a roupa, ou secá-las, esperar tanto tempo em transportes ou trabalhar, isto é, fazer coisas de que não gostemos, tarefas chatas e monótonas.
Mas tanta conversa fiada é muito bonita, o problema é depois ir para a prática fazer as coisas. E a melhor maneira, segundo me parece, para lidar com este problema de como vamos meter o mundo a funcionar realmente, isto é, como vamos conseguir dar cultura a toda a gente e permitir que todos possam ter livre acesso a ela, e se deixar inspirar por ela, e fazer coisas belas para que outros se possam inspirar também, isso tudo passa, a meu ver, pela educação. Não vale a pena estar aqui a falar na situação da educação em Portugal, que é má. Mas também tenhamos em mente isto: é que não é só má cá, é má em tanto outro sítio, que as nossas misérias até nem parecem tão grandes como poderiam parecer à primeira vista. E porque é que é má, qual é a razão para tanto descontentamento? É que o modelo pedagógico em que se baseia a nossa educação foi importado da inglaterra capitalista, e do modelo capitalista que, servirá, sim senhor, muito bem à economia, mas quanto à educação não serve para quase nada. Nesta ânsia que têm todos de viver tudo tão depressa e sem ter tempo para nada, nem sequer para respirar, às vezes, o que acontece é que o momento não é saboreado pela simples razão de que temos que produzir, que nem máquinas numa fábrica, numa linha de montagem, de produção em série, resultados e mais resultados. Os cientistas têm que descobrir novos medicamentos e novas invenções, os professores têm que formar mais alunos, os investigadores têm que publicar muito (para encher o olho das pessoas que se dizem especialistas na matéria e conseguirem, assim, arranjar trabalho e financiamento), os operários das fábricas, se têm que fazer 100 peças por dia, precisam de fazer 200, e por aí fora, numa espiral estonteante, ao toque do relógio, parecendo que não temos vida própria nenhuma, só cabeça para pensar, corpo para trabalhar e boca para comer, que não é mais que investir para que se possa trabalhar mais e mais, até à loucura. Contentes com isto, decerto, ficarão os psicólogos, se não estivessem todos ou quase no desemprego, já que a psicologia, como nos querem fazer querer, não faz sentido e não serve para nada porque não produz peças, não refina ouro ou não faz automóveis. E com isto a filosofia, e a psicologia, e a própria história, e tantos outros exemplos que só nos podem por a nós maldispostos, e com vergonha, pois claro. Portugal não tem que ser mais uma fábrica inglesa ou francesa ou alemã, Portugal, ao contrário do que o nosso ministro tanto apregoa lá pela China, não tem que ter mão-de-obra barata, como a que existe na China (e só sabem eles a que custo, coagidos como se encontram numa ditadura neonapoleónica), Portugal tem que ser simplesmente aquilo que é, que é aquilo que sempre foi. Nada mais, nada menos. Dirão vocês que todos os países têm os seus quês, é verdade, e Portugal, digo-o eu, também os tem, evidentemente, e parecem-me estes quês de Portugal tão importantes no mundo em que hoje vivemos que me parece que o caminho está em deixar que todos eles se expressem da melhor maneira. Isto é, Portugal tem um sentido descobridor por natureza, e os nossos descobrimentos são prova disso mesmo. Qualquer povo quinhentista que sonhasse porventura em ir por esses mares fora até àquele país longínquo, que ninguém sabia muito bem onde ficava, traçar uma rota comercial, fazer um daqueles, digamos assim, negócios da China, diriam os outros povos, certamente, que esse povo não podia estar bom da cabeça – que é coisa que me parece que ainda se diz, mas noutros contextos, os que hoje são mais actuais. Bem, podíamos ser loucos sim senhor, e muito, mas a verdade é que conseguimos não só dar novos mundos ao mundo, para lembrar o nosso poeta, também demos novas terras à terra, que passou a ser povoada de repente por seres e por criaturas, incluindo as humanas, tão diferentes e tão iguais a nós que causavam espanto e admiração de toda a gente. De facto, tal empresa como esta não pode ser menos que admirável, e até no nosso tempo causa espanto, respeito e admiração, e não é para menos.
às vezes penso e dá-me vontade de mudar o mundo de repente, num instante. Depois, penso melhor e vejo que isso é tarefa grande demais para um homem só. Se nem o próprio Cristo conseguiu, e ele bem o tentou, então como é que eu haveria de conseguir coisa igual?
mas se pensar no mundo, e tentar dizer para mim o que o mundo é, fico no ponto em que o mundo é a ideia que nós temos na nossa cabeça do que é interior e exterior a nós. Bem, então se o mundo é isso, mudar o mundo é mudar essa ideia que temos na cabeça, e aí já Cristo mudou o mundo, porque viu o mundo com outros olhos, e todos nós também o mudamos, não é dizer que nós também o podemos mudar, embora isso também seja verdade, é o dizer que nós também já o mudamos, só que uns têm consciência disso, e outros não. O problema está na consciência que se tem das coisas, e não no mundo, o mundo é só um dos frutos dessa consciência.
mas se pensar no mundo, e tentar dizer para mim o que o mundo é, fico no ponto em que o mundo é a ideia que nós temos na nossa cabeça do que é interior e exterior a nós. Bem, então se o mundo é isso, mudar o mundo é mudar essa ideia que temos na cabeça, e aí já Cristo mudou o mundo, porque viu o mundo com outros olhos, e todos nós também o mudamos, não é dizer que nós também o podemos mudar, embora isso também seja verdade, é o dizer que nós também já o mudamos, só que uns têm consciência disso, e outros não. O problema está na consciência que se tem das coisas, e não no mundo, o mundo é só um dos frutos dessa consciência.
se há coisa que não percebo neste mundo é o espanto das pessoas que, ao perguntar-nos o que fazemos quando nada temos para fazer, levam a resposta de que não fazemos nada. Em boa verdade, qual é o sentido de fazer tudo sofregamente, como se o mundo fosse acabar no instante seguinte? Em todos os instantes ele acaba, e em todos os instantes ele recomeça, então porquê tanto espanto numa coisa que é tão simples? Correr muito não faz sair do sítio. E estar sentado é ir mais longe que ir correndo. Porque a alma, quando o corpo está parado, pode correr muito, e mais à vontade, e especialmente se estiver sozinha, e não na companhia de tantas outras almas, que exercem sobre ela cada uma sua influência. Portanto não vejo qual o mal em estar-se sozinho, talvez o medo seja dessas pessoas deixarem correr a alma e de ela as levar para os sítios que elas não querem ir, ou de lhes mostrar aquilo de que têm receio, e assim as pessoas se banham nos afazeres, nos deveres, nos teres e nos não teres. Conheci uma vez uma pessoa que fazia isso mesmo. Pobre louco, corria como um maratonista, mas nunca saía do seu sítio. Talvez esteja no exacto ponto em que estava, quando me separei dele, ou talvez tenha andado, muito pouco decerto, ou talvez tenha ganho juízo na consciência e tenha parado. Ou talvez tenha ficado só na berma do caminho, perdido e sem sentido, pensando no sentido e no sem-sentido que faz a vida, em vez de vivê-la e de conhecer o que ela lhe tem para mostrar. Quem pensa anda, mas quem não pensa voa.
já por vezes tem discorrido minha mente sobre uma questão que me parece interessante mas que, tanto quanto sei, nunca a vi tratada em sítio nenhum, embora seja possível que alguém já nela tenha pensado, tantos são os homens que habitam na terra, e tão diversos os seus pensamentos. Fernando Pessoa foi muitas personagens sendo apenas ele, Pessoa, um só, via-se de forma fragmentada para melhor se analisar, e para melhor ter consciência da sua análise, tarefa digna de um cientista, já que analítica, e talvez, digo eu, para que depois melhor pudesse colar esses pedacinhos uns aos outros, com tento e paciência, e, restaurando a sua imagem, pudesse ter a visão completa daquilo que era ele próprio, Fernando Pessoa, em suma, para se conhecer. Ou talvez isso fosse apenas um desejo insconsciente dele, e tudo o que o seu consciente fizesse fosse escrever, escrever simplesmente aquilo que lhe vinha à cabeça, pelo puro prazer de se escrever, de fazer, de obrar para a eternidade - e isto é coisa que o próprio refere como sendo o seu destino, contribuir para a evolução da humanidade.
mas o facto curioso é que, embora tendo sido Barão de Teive, Chevalier de Pas, Alexander Search, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e todas as outras personagens que para si e em si inventou, ou como talvez dissesse ele, fingiu, parece-me que todas têm nascimento e morte, e datas específicas, para não falar dos atributos físicos e psicológicos, já que ele os via por inteiro, como qualquer pessoa de Lisboa ou do Porto, mas, no meio de todas estas datas e desta precisão tão cirúrgica em que se embrenhou Pessoa, não encontro, ou pelo menos ainda não encontrei, a data da morte de Ricardo Reis. Engraçado acaso, que fez até nascer na mente de Saramago um livro inteiro, que contasse a história dessa personagem, desse monárquico, que vem para Portugal depois de uma estadia no exílio, enfim, um belo livro que ainda não li, mas que já faz as honras da casa, desta casa, porque é com a primeira frase desse livro que se inaugura este espaço.
E esse facto marcante, que, a ser verdade, digo eu na minha ignorância, não me parece ter despertado atenção por parte dos analistas, é importante, mais a mais porque tudo na vida de Pessoa teve uma importância, a importância significante que ele lhe dava, e é aí que me escorreu a ideia, vinda de não sei onde, que talvez tenha Pessoa morrido, ele próprio, para nós, claro, porque não sabemos se, da sua perspectiva, ele morreu realmente, como sendo Ricardo Reis. Até me parece fazer sentido, pois é Ricardo que tanto se ocupa da morte, e que, de um jeito budista, dá solução a esse dilema tão grande da humanidade, cantado, celebrado e chorado por tanto poeta e prosista. Posto isto, parece-me que Fernando Pessoa teve uma morte calma, serena como uma confiança estóica, e parece-me bem, já que talvez seja essa a melhor maneira de morrer, entregar-se ao desconhecido, que é a morte, como a qualquer outra coisa que temos ou que se nos vem em vida, já que, da mesma forma que a morte, o futuro ninguém sabe, e só a deus pertence, lá se dizia, ou se diz ainda, nalguns casos, e portanto não há grande diferença entre uma coisa e outra.
mas o facto curioso é que, embora tendo sido Barão de Teive, Chevalier de Pas, Alexander Search, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e todas as outras personagens que para si e em si inventou, ou como talvez dissesse ele, fingiu, parece-me que todas têm nascimento e morte, e datas específicas, para não falar dos atributos físicos e psicológicos, já que ele os via por inteiro, como qualquer pessoa de Lisboa ou do Porto, mas, no meio de todas estas datas e desta precisão tão cirúrgica em que se embrenhou Pessoa, não encontro, ou pelo menos ainda não encontrei, a data da morte de Ricardo Reis. Engraçado acaso, que fez até nascer na mente de Saramago um livro inteiro, que contasse a história dessa personagem, desse monárquico, que vem para Portugal depois de uma estadia no exílio, enfim, um belo livro que ainda não li, mas que já faz as honras da casa, desta casa, porque é com a primeira frase desse livro que se inaugura este espaço.
E esse facto marcante, que, a ser verdade, digo eu na minha ignorância, não me parece ter despertado atenção por parte dos analistas, é importante, mais a mais porque tudo na vida de Pessoa teve uma importância, a importância significante que ele lhe dava, e é aí que me escorreu a ideia, vinda de não sei onde, que talvez tenha Pessoa morrido, ele próprio, para nós, claro, porque não sabemos se, da sua perspectiva, ele morreu realmente, como sendo Ricardo Reis. Até me parece fazer sentido, pois é Ricardo que tanto se ocupa da morte, e que, de um jeito budista, dá solução a esse dilema tão grande da humanidade, cantado, celebrado e chorado por tanto poeta e prosista. Posto isto, parece-me que Fernando Pessoa teve uma morte calma, serena como uma confiança estóica, e parece-me bem, já que talvez seja essa a melhor maneira de morrer, entregar-se ao desconhecido, que é a morte, como a qualquer outra coisa que temos ou que se nos vem em vida, já que, da mesma forma que a morte, o futuro ninguém sabe, e só a deus pertence, lá se dizia, ou se diz ainda, nalguns casos, e portanto não há grande diferença entre uma coisa e outra.
quando olho e vejo esses campos de letras feitos de palavras e leitura, papel e anos de dedicação de escribas, mais ou menos dotados, que fizeram a cultura que hoje temos, não posso deixar de sentir uma sensação profunda e estranha de que gostaria de ter tempo de os ler a todos, e não fazer mais nada neste mundo, de gozá-los e de saboreá-los, de estudá-los e encontrar entre eles o que os une, já que a tarefa que mais sobeja por aí é a de encontrar aquilo que os separa e, portanto, nesse campo, pode-se dizer que já foram feitos muitos progressos, em nome de causas justas e injustas, de guerras e da paz. Mas o importante é a união e não a separação, porque assim como uma sinfonia é composta de várias notas mas aquilo que captamos é a sua harmonia, a harmonia do conjunto, a realidade não é separada em momentos diferentes uns dos outros, mas todos contínuos, desfilando como quadros únicos, mas sem molduras, e misturando-se uns nos outros, de tal modo que não nos é possível dizer onde uns acabam e onde outros têm início.
por isso, deixo-me de lamúrias e passo a sentir uma esmagadora sensação de insatisfação que pesa na alma como correntes que nos prendem a um cárcere, é claro que também quereria saber de ciência, e arte, e conhecer sobretudo, porque é isso que me move, aprender e conhecer o que não conheço, mas a verdade é que existe tanto que desconhecemos, e que, já o notara Sócrates, vejam lá de onde isto já vem, quanto mais sabemos mais tomamos consciência de que o que fica para saber é tanto e tão imenso que mais valia matarmo-nos já a vivermos na efémera sabedoria que não existe.
então que fazer? bem, se não é possível fazer tudo, faça-se ao menos aquilo que se deve fazer, se não nos é possível pedir a eternidade, talvez porque ela seja impossível, ou talvez porque ela já aqui esteja diante de nós e não nos pode ser tirada, e nós é que a não vemos, então parece-me que se deve fazer aquilo que se achar melhor em cada momento, isto é, viver, sim, conforme correr o rio ou cantam os pássaros, para que a vida nos possa mostrar as coisas com as quais mais poderemos aprender num dado instante, mesmo que esteja ele votado à fugacidade do tempo.
por isso, e como Mestre Caeiro, devemos contemplar a vida, sentindo, e como Reis devemos contemplá-la não com desejo, porque satisfeito ele, acaba todo o prazer, e portanto é também ele efémero como o conhecimento, mas sim com uma entrega silenciosa, que em esse silêncio nos diga tudo aquilo que devemos fazer - até porque há coisas com as quais aprenderíamos muito pouco, e portanto com as quais não vale a pena brincar com Kronos.
por isso, deixo-me de lamúrias e passo a sentir uma esmagadora sensação de insatisfação que pesa na alma como correntes que nos prendem a um cárcere, é claro que também quereria saber de ciência, e arte, e conhecer sobretudo, porque é isso que me move, aprender e conhecer o que não conheço, mas a verdade é que existe tanto que desconhecemos, e que, já o notara Sócrates, vejam lá de onde isto já vem, quanto mais sabemos mais tomamos consciência de que o que fica para saber é tanto e tão imenso que mais valia matarmo-nos já a vivermos na efémera sabedoria que não existe.
então que fazer? bem, se não é possível fazer tudo, faça-se ao menos aquilo que se deve fazer, se não nos é possível pedir a eternidade, talvez porque ela seja impossível, ou talvez porque ela já aqui esteja diante de nós e não nos pode ser tirada, e nós é que a não vemos, então parece-me que se deve fazer aquilo que se achar melhor em cada momento, isto é, viver, sim, conforme correr o rio ou cantam os pássaros, para que a vida nos possa mostrar as coisas com as quais mais poderemos aprender num dado instante, mesmo que esteja ele votado à fugacidade do tempo.
por isso, e como Mestre Caeiro, devemos contemplar a vida, sentindo, e como Reis devemos contemplá-la não com desejo, porque satisfeito ele, acaba todo o prazer, e portanto é também ele efémero como o conhecimento, mas sim com uma entrega silenciosa, que em esse silêncio nos diga tudo aquilo que devemos fazer - até porque há coisas com as quais aprenderíamos muito pouco, e portanto com as quais não vale a pena brincar com Kronos.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
no nosso mundo não há religião, há medicina.
Os padres foram esquecidos por extinção,
como uns devassos que devem ser metidos
em prisão ou cadeira eléctrica. Nem o jovem Sebastião
de Carvalho e Melo os teria expulsado tão bem,
como com o valor que lhes foi dado, que é mau,
como convém. Aos médicos foi então dado tudo. As
pratas, os ouros, o altar, a casa do culto, as vestes
do papa, o veludo, o damasco, o carmesim, o baraço
e a cruz à volta do pescoço, e isto sem grande embaraço.
Trocou-se a Bíblia pela Anatomia do Corpo, esse poema
ilustrado que é servido em caldo grosso e fechado, acabado
e morto. O poder de criar foi a Deus tirado, e quem o ganhou
virou bisturi, espátula, pinça e escopro. E o poder de matar também,
que a cruz traz seu desgosto. Mas tudo bem, fez-se o que se pôde,
aguentou-se o que dizia a máquina, até que não fosse
a onda cerebral ficar intacta se poderia continuar, nesse sono
profundo e doce, como quando alguém recita qualquer gramática.
Antes era o Diabo, agora é a Doença, essa inimiga
do pecado do Corpo, dantes era da Alma, e assim
amada e amante trocam de disfarce e de bata, e
se mascaram de novo tratante e tratada, figurino
e figurante, neste palco que é a sala de operação errante,
de sedativo sedante, de espada desensaiada, de ser
de borco, costura descosida, de coisa mal-amanhada,
desfigurada, torcida e trucidada, que outrora fora pessoa
inteira e honrada, que vivia e respirava, que gritava e
clamava, ensaiava e até o dedo apontava à estrutura
e ao ditante da farsa, da comédia, da tragédia, do
amante e da amada, divorciados, os dois, por desculpa
de instante, por perigo de recuada, por véu infamante ou
saída descompassada. Afinal, eles os dois eram os mesmos,
eles os dois eram os nada que sempre foram e sempre serão,
unidos ou separados, cosidos ou descosidos, enfarpelados
ou sem velo, eram o ter e o sem tê-lo, o que é preciso
é que se unam um ao outro, sem sossego, num misto
de ciência e fé, que se enrole novelo, que se destrua
patranha e reine o desassossego, que espante o ditante,
o infame e o tratante e que entre no sê-lo de uma vez,
e por um instante, basta só um momento, tudo
ficaria num rompante não o de Nietzsche, como desculpa
de passado, mas só o real presente, lançado ao vento, arrancado
ao mundo, preso ao universo pela liberdade sem fundo,
no sentido de um verso que quer tudo, que
pretende nada e que sabe o inverso, o simétrico e o
ausente, ver o futuro no passado e o passado presente,
só assim se anda, só assim se navega, ter na mente
o instante e na alma o que não sossega, ser assim
pelo mundo, entregue ao prazer dado, ser cristão
e ser mouro, ser perdido e achado, ser tudo tudo
tudo como ninguém nunca vira, ser perfeito e
ser puro, ser como a voz da lira.
Os padres foram esquecidos por extinção,
como uns devassos que devem ser metidos
em prisão ou cadeira eléctrica. Nem o jovem Sebastião
de Carvalho e Melo os teria expulsado tão bem,
como com o valor que lhes foi dado, que é mau,
como convém. Aos médicos foi então dado tudo. As
pratas, os ouros, o altar, a casa do culto, as vestes
do papa, o veludo, o damasco, o carmesim, o baraço
e a cruz à volta do pescoço, e isto sem grande embaraço.
Trocou-se a Bíblia pela Anatomia do Corpo, esse poema
ilustrado que é servido em caldo grosso e fechado, acabado
e morto. O poder de criar foi a Deus tirado, e quem o ganhou
virou bisturi, espátula, pinça e escopro. E o poder de matar também,
que a cruz traz seu desgosto. Mas tudo bem, fez-se o que se pôde,
aguentou-se o que dizia a máquina, até que não fosse
a onda cerebral ficar intacta se poderia continuar, nesse sono
profundo e doce, como quando alguém recita qualquer gramática.
Antes era o Diabo, agora é a Doença, essa inimiga
do pecado do Corpo, dantes era da Alma, e assim
amada e amante trocam de disfarce e de bata, e
se mascaram de novo tratante e tratada, figurino
e figurante, neste palco que é a sala de operação errante,
de sedativo sedante, de espada desensaiada, de ser
de borco, costura descosida, de coisa mal-amanhada,
desfigurada, torcida e trucidada, que outrora fora pessoa
inteira e honrada, que vivia e respirava, que gritava e
clamava, ensaiava e até o dedo apontava à estrutura
e ao ditante da farsa, da comédia, da tragédia, do
amante e da amada, divorciados, os dois, por desculpa
de instante, por perigo de recuada, por véu infamante ou
saída descompassada. Afinal, eles os dois eram os mesmos,
eles os dois eram os nada que sempre foram e sempre serão,
unidos ou separados, cosidos ou descosidos, enfarpelados
ou sem velo, eram o ter e o sem tê-lo, o que é preciso
é que se unam um ao outro, sem sossego, num misto
de ciência e fé, que se enrole novelo, que se destrua
patranha e reine o desassossego, que espante o ditante,
o infame e o tratante e que entre no sê-lo de uma vez,
e por um instante, basta só um momento, tudo
ficaria num rompante não o de Nietzsche, como desculpa
de passado, mas só o real presente, lançado ao vento, arrancado
ao mundo, preso ao universo pela liberdade sem fundo,
no sentido de um verso que quer tudo, que
pretende nada e que sabe o inverso, o simétrico e o
ausente, ver o futuro no passado e o passado presente,
só assim se anda, só assim se navega, ter na mente
o instante e na alma o que não sossega, ser assim
pelo mundo, entregue ao prazer dado, ser cristão
e ser mouro, ser perdido e achado, ser tudo tudo
tudo como ninguém nunca vira, ser perfeito e
ser puro, ser como a voz da lira.
o modelo de sociedade que hoje temos, um conjunto ou massa de indivíduos que correm todos para o mesmo objectivo, é herdeiro directo da tradição existencialista que também impregna esses indivíduos. Para o existencialismo, o que interessa é existir: tudo o resto é poeira de passagem. Como a tacanhez de intelecto leva os homens a descartar as possibilidades de existência de algo anterior ao nascimento e posterior à morte, também esta uma herdeira directa, mas, desta feita, do positivismo comtiano, então a melhor solução é viver apenas do nascimento à morte, ou ter atenção ao real, aquela coisa que prefere ser falada a explicada. E assim há um descontrolo assoberbado de viver, de aproveitar a vida enquanto se vive, porque depois disso não há nada mais, de viver para o momento, e não no momento, subvertendo toda a lógica horaciana do carpe diem. O que se esquece, nesta era de ritmos vertiginosos e de velocidade estonteante de produção capitalista, que já está nos seus estertores, nesta altura de cultura light para digestões simplificadas de massas amorfas e sem vida, é que o que é real é aquilo que cada um vê como real. Novo argumento para ser usado, branqueado e refinado pela indústria de consumo para dizer que tudo é subjectivo, e logo não podemos concluir nada acerca de nada porque dá muito trabalho, requer muito tempo e dedicação e, logo, é impossível.
felizmente que algumas coisas começam a vir à luz das consciências mais esclarecidas, levemente desveladas pelos modelos fenomenológicos da psicologia, pelos novos modelos pedagógicos, pelos novos modelos económicos, pela consciência ambiental, pelo maior acesso à cultura.
mas é preciso mais.
felizmente que algumas coisas começam a vir à luz das consciências mais esclarecidas, levemente desveladas pelos modelos fenomenológicos da psicologia, pelos novos modelos pedagógicos, pelos novos modelos económicos, pela consciência ambiental, pelo maior acesso à cultura.
mas é preciso mais.
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
agora compreendo por inteiro porque é que o Fernando Pessoa nunca chegou a acabar o curso de Letras em que esteve matriculado. É que toda a aprendizagem para cadáveres, estática, que faz recurso apenas à porção mais ínfima da inteligência humana não interessa a quem vê tudo como um todo - mesmo que este, com Pessoa, estivesse fragmentado.
De facto, só mesmo uma pessoa forte de carácter, como o Agostinho da Silva, aguentou a Filologia lá pelos lados do Porto, e com boa classificação, 20 valores foram, e até teve que fazer o favor de ir à Sorbonne fazer o Doutoramento, já que toda a gente sabe que ninguém nos ouve, por maior que seja o nosso intelecto, a menos que tenhamos um canudo com uns rabiscos dourados ou prateados, fita a condizer e um semblante arrogante. E ele fez bem, pois segundo consta lá havia muito disso, com fartura.
De facto, só mesmo uma pessoa forte de carácter, como o Agostinho da Silva, aguentou a Filologia lá pelos lados do Porto, e com boa classificação, 20 valores foram, e até teve que fazer o favor de ir à Sorbonne fazer o Doutoramento, já que toda a gente sabe que ninguém nos ouve, por maior que seja o nosso intelecto, a menos que tenhamos um canudo com uns rabiscos dourados ou prateados, fita a condizer e um semblante arrogante. E ele fez bem, pois segundo consta lá havia muito disso, com fartura.
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