domingo, 9 de dezembro de 2007

por vezes chego a ser tão claro que ninguém me entende.
os meus jornais são os blogues que vão escrevendo. Se a insenção jornalística é coisa que não existe, então prefiro ler notícias que se assumem à partida como completamente deturpadas pela centelha da imprevisibilidade que é o núcleo do ser.

sábado, 8 de dezembro de 2007

minh'alma é um barco vazio
vogando à vontade
rompendo o desafio

minh'alma é um barqueiro descontente
remando com o pensamento
num silêncio dormente

minh'alma é o claro lago mudo
que desfila pela frente
de água o meu sobretudo
cadente

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

a desgraça órfã é a eterna cruz. quando sabemos que outro alguém também sofre com aquilo que nos faz sofrer é como se o nosso sofrimento deixasse de doer tanto, a nossa mágoa já não pesasse como pesava. o sofrimento que é comum a vários partilha-se, a sua importância desvanece-se porque não é propriedade única e exclusiva de uma só pessoa, mas é como se esse grande sofrimento ficasse repartido por muitas cabeças, e o quociente fosse menos pesado que o dividendo. Mas ai daqueles que sofrem com a sua única, própria e exclusiva cruz. Esses, não podem partilhar o seu sofrimento com ninguém, visto que ninguém os compreende. E ninguém os compreende porque ninguém sofre da mesma maneira que eles. E porque não sofrem dessa mesma maneira, para eles é como se esse sofrimento não existisse. E se não é real para eles, então poucos ou nenhuns prestam atenção ao que ele verdadeiramente significa, para a pessoa que o tem, ou ao que ele poderia significar, se ele fosse também deles. É por isso que pesa mais a cruz que se carrega ao pescoço, a única que não pode ser partilhada.

mas há também algo de tesouro nessa cruz, é o facto de ser única. Como é única, e não encontra par, é rara e preciosa, e aquilo que ela significa tem um valor incalculável para nós. A nossa eterna pena é termos a visão tão turvada que não o conseguimos ver. A quem pede aos deuses uma vida alegre e despreocupada, os deuses dão uma vida cheia de prazeres, com que se contentem alegre e despreocupadamente. A quem procura tornar-se um deus vivo, dão os deuses provas e tormentos terríveis, ideias e visões tenebrosas, obstáculos duros e quase intransponíveis, para separar aqueles que são deuses tornando-se daqueles que querem ser deuses por direito próprio. Ninguém é deus pelo simples facto de respirar o mesmo ar que os deuses respiram. Quem quer ser deus, supere os obstáculos intransponíveis, supere-se a si mesmo, dê o salto para fora de dentro de si. Quando todos os obstáculos estiverem ultrapassados então chegaremos à conclusão de que todas essas provas não foram mais que correcções da nossa consciência para que pudesse melhor ver a grandeza que há nela, que sempre houve e que sempre haverá...
querem um projecto existencialista, tomem lá este:

Ser tudo de todas as maneiras
AO MESMO TEMPO E EM TODOS OS MOMENTOS.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007



needing a Twist of fate?

hoje não me apetece nada.

a vida é um monumento ao prazer

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

enquanto se matavam à espadeirada
fui semeando
e colhendo com a enxada
o meu lema é

Morra o Dantas, Pim!
quem fala mal de tudo só pode ter uma grande dor de corno na alma.
o maior prazer do mundo é o sentir um corpo colado ao nosso, extensão do pedaço de carne e sangue que somos, até que a matéria se faça luz.
a inveja, a acérrima inveja, e o egoísmo que dela nasce são aquilo que faz andar o mundo. É pela inveja que temos daquilo que os outros têm e que nós não temos que nos esforçamos a alcançar os nossos ideais somente com o desejo de ultrapassar os outros. O altruísmo é uma forma de egoísmo mais elevado, apenas assenta no maior prazer que podemos sentir por ajudar alguém. É outro vício da consciência, hedonista como qualquer outro, e tão banal enquanto comum a todos os que sentem, e a todos quanto sentes. Todos os seres buscam o prazer, é essa a prioridade máxima em qualquer caso, nem que seja na dor do sacrifício que fazem para alcançar um prazer maior.

domingo, 2 de dezembro de 2007

quem não sabe que o neo-realismo é o surrealismo do realismo enquanto super-realismo que não deixa de ser realista não faz nada que não tenha já sido feito até hoje.
amo objectivamente o subjectivo e, portanto, subjectivizo-me objectivamente em tantos sem sair do mesmo para que permaneça sempre o mesmo objectivo e sempre diferentemente subjectivo. Este caminho vai mais além do que o de Pessoa porque Pessoa subjectivizava-se objectivamente saindo de si e transportando-se para outros. Ora, nos tempos que correm, o que é necessário não é separar, visto que tanto há já separado, e que tanto se procura separar. Portanto, o único caminho verdadeiramente válido a seguir é o caminho da união, da reunião ou do casamento. Subjectivizar sem sair do mesmo sítio, já não físico ou psicológico, mas sem sair de si, sem procurar nomear em outros aquilo que se é. De uma vez por todas entenda-se: Pessoa nunca deixou de ser Pessoa quando era Reis, Caeiro, ou outros tantos. Pessoa foi sempre o mesmo Pessoa, apenas levava ao extremo a contemplação subjectivamente analítica que tinha de si mesmo. Mas isso obrigava, por processos que são inerentes a si próprio, a esquartejar conceptualmente aquilo que era, ou aquilo que sentia. O que falta entender, acima de tudo, é que hoje como ontem Pessoa nunca deixou de ser Pessoa, e cada Poeta que poetava era uma porção diferente do todo indissociável que Pessoa era. Pessoa era isso tudo ao mesmo tempo, apenas se partia na dimensão temporal e se paria na dimensão espacial para que melhor se pudesse entender, para que melhor pudesse ser entendido. Mas hoje isso já não chega. O que é preciso fazer, hoje, é juntar o espaço com o tempo, o um com o outro, o ser com o existir, a certeza com a incerteza. Disso, o que resultará, não se sabe. Nem pode ser nomeado, se é que se poderá nomear tal coisa. Se se pudesse, talvez se dissesse que era a coisa sendo, ela própria, e não sendo, ao mesmo tempo, e sobre todos os aspectos. E essa coisa é a vida, é o próprio universo, são os saltos quânticos entre lagoas de infinito. O que é preciso é transpôr-se essa lagoa nunca deixando, nem por um momento, de a ser, ela mesma, profunda e grande, grande e profunda. O que é preciso é deixar-se ir sendo, à vontade como quem vai boiando ao sabor da maré, arrastado pela corrente do momento. É abrir as comportas do pensamento e as portadas da chaminé. Deixar o fumo entrar e depois sair com ele, permanecendo sempre onde se está, em todo o lado e em parte nenhuma. Viver o paradoxo não como o paradoxo, em si, que se é, mas paradoxo sendo e não sendo ao mesmo tempo, ora presente ora ausente, sem noção de liberdade ou de dia futuro, sem noção de noite ou dia, de humanidade ou de bestialidade, sem qualquer noção desarticulada sobre o que quer que seja, apenas sendo e não sendo, fazendo e apagando, e estando sempre superior a tudo isso e no cerne da vida. Matar para viver, matar-se para deixar viver, viver para se ir matando e vivificando a realidade no sonho, ou sonhando com a realidade, deixando o sonho entregue a si mesmo. Sem horas, relógios, horários ou conceitos, e fazendo crer que cada um deles é importante quando o não é. Usar os instrumentos sendo os próprios instrumentos, tocar-se e soprar-se, percutir-se, e estando sempre a observar-se de fora, a observar-se como uma plateia gigantesca de ideias fervilhando cada uma para seu lado, todas juntas e todas diferentes, todas iguais e todas unas. Uma orquestra que se toca e se assiste a si própria ao mesmo tempo, falando em silêncio e em silêncio permanecendo. Com um pé no palco e outro na cadeira, e sem os dois pés no chão, com a cabeça sem ar a ser atravessada, sentindo e pensando, revolvendo o olhar em qualquer direcção. Desarmando os bandidos para usar as suas armas contra eles, para usar as suas armas contra nós e contra todos nós, para dar as armas aos outros para que os outros nos possam desarmar, para deixar-nos armados e desarmados, conscientes e inconscientes, a falar e a desconversar, sempre aos pares de cada conjunto ímpar. Nesta época em que cada coisa cada vez é mais incipiente, usar cada coisa para mostrar a sapiência, trocar as voltas ao mestre e ao mestrando, ensinar os professores a aprenderem para que os alunos aprendam consigo mesmo, e até que consiguem ensinar os professores sem deixarem de ser alunos. A maior virtude da vida é ser-se aquilo que se é sem saber, sem saber que se é, mas sabendo-o, ou melhor, sentindo-o como quem não sabe o que é sentir, mas que sente apenas sem precisar de sentir aquilo que vai percorrendo. Saber-se e desconhecer-se, liberdade de vendaval gritante pelas encostas do vento escorregando. Despersonalizar-se personalizando a sua imagem de síntese autoritária e permissiva a tudo. Desprender-se e prender-se a si, soltar as amarras da sua consciência para vigiar o inconsciente de cada vez que se liberta, e rir de si próprio a plenos pulmões, para chorar de si mais à vontade, sentir, sentir, sentir e sentir, o gosto da chuva, o sabor do vento, a idade da morte, o saber ao certo e ao incerto, ao vento e ao monte, à lua e ao sol, a tudo o que nos existe, nos assiste, por dentro como por fora, por fora como por dentro, de todas as maneiras e de todos os modos, nunca deixando de ser aquilo que é cá dentro e nunca deixando a sua pele de fora, armadura esquelética e férrea do interior exposto, exterior de placas e de camadas gordurosas inertes internas. O que há a fazer é casar o Pessoa com o António Botto, a Virginia Woolf com o Henrique VIII, o Newton com a Maria Montessori, Da Vinci com o Cesariny e Júlio Dantas com o Giordano Bruno.
uma grande vantagem na vida é ter uma memória muito grande. Assim sabemos quem fala verdade e quem fala mentira, quem diz e quem faz e quem faz sem dizer, ou quem diz sem fazer, quem diz o que dissémos e faz o que não fizemos, quando dizemos o que fazemos e quando dizemos aquilo que outros nos disseram. Toda a consciência do que é a vida passa pela memória daquilo que não existe mas que foi, daquilo que já passou e não acontece, daquilo que é a causa do agora e que já não tem substância própria.
a minha vida é um altar à ambiguidade, um culto ao subjectivo.
Cesário Verde foi o maior poeta do seu tempo porque foi o único que não via somente aquilo que queria, mas sobretudo aquilo que realmente havia diante dos seus olhos, que via a realidade tal como ela era, objectivamente, enquanto deambulava pelas ruas.
a publicidade é o lixo mental do nosso século. Ela instala-se no nosso cérebro, bem pronta a atacar quando menos esperamos. Esta nova forma de condicionamento neopavloviano procura criar redes de associações mentais que emparelhem estímulos neutros com sentimentos bons e agradáveis em relação aos produtos que se procuram vender. Os hipermercados estão construídos de tal forma que deixam a mente num estado dormente: as suas grandes dimensões aglomeram muitas pessoas, o que cansa muito a mente porque ela mal consegue compreender uma pessoa de cada vez; a sua música de elevador, comercial, para grandes massas, segue os compassos da música popular, de modo a ficar no ouvido e a adormecer a nossa atenção instilando soporíferos; a nossa já degradada concentração percorre prateleiras e prateleiras infinitas do labiríntico capitalismo de modo a que não consigamos encontrar aquilo que pretendemos e de modo a que fiquemos presos naquela masmorra horrível; os locais onde se encontram os produtos mudam sucessiva e ciclicamente para que ainda nos percamos mais nesses labirintos e não saiamos dali sem encontrar, pelo menos, trezentos minotauros; as coisas que se querem vender estão mesmo ao nível dos olhos, à mão de semear, bem como as promoções de produtos que estão quase fora de prazo; toda esta dormência mental é necessária para que, quando a nossa memória passa em revista um produto, se lembre do anúncio mais assim ou mais assado ao qual associou sentimentos favoráveis e acabe por levá-lo, a favor ou contra a sua vontade, faça-lhe esse produto falta ou não, e sobretudo para que leve cada um de nós ao endividamento extremo, que é o penhor em punho. Por isso detesto a publicidade e detesto quem a publicita, detesto a imposição externa e a serenidade acrítica, detesto a imposição forçada e a obediência extrema, por isso detesto a televisão com os seus anúncios intermináveis, por isso detesto letreiros luminosos de néon, por isso detesto aqueles que querem que nós pensemos da maneira que eles pensam, por isso detesto frases e ideias já feitas, e por isso também não sigo, e me recuso terminantemente a seguir, qualquer caminho que já foi traçado, qualquer caminho que já foi percorrido, e qualquer caminho que já foi pensado. A publicidade é a inimiga do homem: é a corrupção da mente, a infantilidade do juízo. E não admira nada que a publicidade seja algo horrível e deturpador, nasceu de mentes nacionais-socialistas que eram a versão capitalista da ditadura.

Queimem todos os panfletos capitalistas!

Morte aos produtos do consumismo!

Bombas para os hipermercados e supermercados!

Curto-circuitos para as televisões!

Morte às embalagens de plástico!

Vómitos para cima das grandes empresas!

Não, não e não a tudo o que for embalado!

Não às sopas instantâneas!
Mijo para cima das comidas já preparadas!
Desconfiança para tudo o que cheirar a dinheiro, e sobretudo quando europeu!

Vivam os rissóis da vizinha de baixo!
E as frutas e os legumes da praça ao princípio do dia!
Vivam os queijos ilegais e as vacas malhadas!
E os canteiros e as hortas maninhos e daninhas!
Vivam os caracóis que comem as couves!
E as lagartas que são as mães das borboletas!
Vivam os pulgões e as joaninhas que os comem!
Vivam a Lua, o Sol, as estações do ano e os cometas!