quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
Ver aquilo que esconde a superfície ou apenas o que fica sobre ela? Qual o caminho a seguir? Se é certo que o que sustenta a casa é aquilo que verdadeiramente a mantém de pé, também é certo que o que vemos primeiramente, e aquilo com que lidamos diariamente, é a casa, e não o alicerce. Assim, vale mais conhecer o visível para depois podermos procurar o invisível, informar-nos acerca do que se fala para depois podermos descer ao que se sente, mergulhar na apatia para que possamos descobrir a voz da revolução. E, mais a mais, se não conseguimos lidar com o óbvio, então como é que havemos de querer aspirar a conhecer o não óbvio?
Todas as noites o senhor Palomar e a senhora Palomar acabam por afastar os cadeirões da televisão, colocando-os ao pé do escaparate; sentados no interior da sala, ficam a contemplar a silhueta esbranquiçada do réptil sobre o fundo escuro. A opção entre a televisão e a osga nem sempre é feita sem incertezas; cada um dos espectáculos fornece informações que o outro não dá: a televisão move-se pelos continentes, recolhendo impulsos luminosos que descrevem a face visível das coisas; a osga, por sua vez, representa a concentração imóvel e os aspectos escondidos, o outro lado daquilo que aparece à vista.
Italo Calvino, em Palomar
Italo Calvino, em Palomar
domingo, 25 de fevereiro de 2007
o físico é a expressão mais exacta do psíquico. Já repararam no homem de cabelo desgrenhado que caminha pela rua? Um despenteamento capilar é a prova física da existência de uma desordem interior. Também existem aqueles casos dos que se penteiam muito bem, cabelo cortado à escovinha, sempre direito e recto. Tiveram uma educação militar, com certeza, ou então pensam que o mundo é algo estático. O cabelo é aquele que mais fala neste casos. Depois dos olhos, claro - mas esses são mais que físicos, não se pode ter em conta algo que não é verdadeiramente físico.
sábado, 24 de fevereiro de 2007
diz a mãe tão indiferente
efémero dia sem desgosto
diz o pai trabalhar é gente
do nascer ao sol posto
mil morrem nestas ruas
outros mil já o estão
dos mil que a doença traga
outros mil se seguirão
passa o dia e passa bem
passa mal quando calha
ninguém sabe o que é sem
ter tempo para a tralha
mas o sol sempre brilha
e o estertor ainda é vida
os outros que façam fita
que não conheço despedida
tempo voa contra nós
aquele que relógio conta
fabricado é ele por vós
ninguém sabe como' monta
mas em vez de televisão
e mais longo que entrudo
é olhar para o presente
com olhos de futuro
efémero dia sem desgosto
diz o pai trabalhar é gente
do nascer ao sol posto
mil morrem nestas ruas
outros mil já o estão
dos mil que a doença traga
outros mil se seguirão
passa o dia e passa bem
passa mal quando calha
ninguém sabe o que é sem
ter tempo para a tralha
mas o sol sempre brilha
e o estertor ainda é vida
os outros que façam fita
que não conheço despedida
tempo voa contra nós
aquele que relógio conta
fabricado é ele por vós
ninguém sabe como' monta
mas em vez de televisão
e mais longo que entrudo
é olhar para o presente
com olhos de futuro
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
«Olá menino. Que grande!
Tão alto, é quase homem
Parece que ontem era só colo
Os anos aos anos se somem
E quando cresceres mais
e ficares da minha altura
queres buscar que usura
grande só como os tais?»
«Quando for grande quero ser
nada como convém
olhar o vazio com desdém
e seguir só o prazer
Mas se quero ser só e nada
é porque não tenho que querer
a valer, a valer, só o ser
que ao tudo dá entrada
na vida já somos tudo
correr? só se luz nos traça
e quanto a si, minha senhora
não sei mesmo que lhe faça!»
Tão alto, é quase homem
Parece que ontem era só colo
Os anos aos anos se somem
E quando cresceres mais
e ficares da minha altura
queres buscar que usura
grande só como os tais?»
«Quando for grande quero ser
nada como convém
olhar o vazio com desdém
e seguir só o prazer
Mas se quero ser só e nada
é porque não tenho que querer
a valer, a valer, só o ser
que ao tudo dá entrada
na vida já somos tudo
correr? só se luz nos traça
e quanto a si, minha senhora
não sei mesmo que lhe faça!»
amo-te, flor
amo-te flor, por seres quem és
e não por ser eu quem sou
mas como posso eu fazer isso
se és para mim uma sensação obscura
que não conheço e vou sentindo?
amo-te rio, por correres sempre
e não por estares parado
mas só estando parado se nota a corrente
que corre sempre, sempre, sempre
correndo para lado diferente
amo-te assim sem saber porquê
o mundo é apenas mistério aos olhos
desflorando só se nossos folhos
os folhos que vou criando
em mim, com amor
mas se a página amarela ao lado
se a bainha saltar no fio apertado
como posso conhecer ou amar-te
posso apenas achar que vou achar-te
mais que isso é o nada fechado
e não por ser eu quem sou
mas como posso eu fazer isso
se és para mim uma sensação obscura
que não conheço e vou sentindo?
amo-te rio, por correres sempre
e não por estares parado
mas só estando parado se nota a corrente
que corre sempre, sempre, sempre
correndo para lado diferente
amo-te assim sem saber porquê
o mundo é apenas mistério aos olhos
desflorando só se nossos folhos
os folhos que vou criando
em mim, com amor
mas se a página amarela ao lado
se a bainha saltar no fio apertado
como posso conhecer ou amar-te
posso apenas achar que vou achar-te
mais que isso é o nada fechado
só sabe quem se sonha, só sabe quem se entrega, o que é sentir sem sossego, o peso da refrega, o gosto do sem ter medo, só sabe quem não sossega, só sabe quem se mata, e se vive e se sente e se entrega, se faz em mil só para ser a outra metade, quem sabe o que sente e que sente o que esconde, quem mostra o que não pretende, quem vive o que pretender não esconde, é o culto sôfrego e ancião, a mistura da vertigem em fulgor, ante o espaço a imensidão em vertigem, o horror, o coração, a mágoa, o riso incontrolado e a expressão amarga, no céu, no inferno, em todo o lado, quando o sentir peso esmaga fica só o ser, e sua canção dolente na tarde calma faz aquecer e fervilhar o coração que se derrama e se desprende como água de canção ardente, arde no corpo e envolve a alma, faz descer o espírito que vem e não acalma, desprende, destroça, desfaz fazendo tudo, ante o mar e sobre o muro, sobe o monte e sob a capa, jaz nela o conteúdo, o peso que sentir esmaga, jaz do fundo até ao fundo, jaz sempre e nunca arrancada a semente que no véu tira a estrada do caminho que não há quem siga, com o vento, e abanando espiga, e trigo, mosto fervente e gelo quebrado, nem esmalte nem dente nem frio apertado, nem ouro, nem prata nem a mais pura platina pode quebrar o ser que ao ser se adivinha, nem a esfinge, nem o pathos, nem a ferida da tormenta resvala a barca dos assaltos, do planeta até aos Altos, só o fim que nunca chega, insanto e possesso, colérico e desfeito, grita alto ao ouvido do peito para se fazer gente presente, pessoa amada, amor ausente, prova dada e amigo que sente, o que esconde revela não atada a luz que imerge na mente, sentir é isto, sentir é nada, é tudo, o que há de diferente, sentir é sentir, sentir é basta, é isso nosso mundo, em que dele somos crente, contra maré e redemoinho, contra papagaio gritante, fica o silêncio, baixinho, soando como toada distante, estorninho ou rouxinol, mas sempre sorrindo ao longe, à nuvem que passa, a correr, ao ar que prende, e que quer agarrar, ao demente e ao normal, ao louco não insano, o ventre baixa e nele nos prende, desce à terra de repente sendo gigante de antanho, e é isso o ser, é essa a cura, o elixir para a doença obscura que ilude alma e crente, sol e lua, é a mais pura partida de diamante, nele e nela caem amante e amada, e dador e dada, mas a verdade é calada, a verdade é errante, não se prende num instante, dói e não dói nada, sente e é viva por instante, passa, não falada, explica não dizendo, foge do que é e do que vai sendo, fica só o presente, o futuro do irreal passado em que crente cria dizendo que mora já ao lado, foge o dente, foge a espada, por todos os vales erguida, sobe cortina, sobre véu, a balaustrada, o pódio, o louro de toga erguida não ensaiada, ferida e sempre curada, a fonte de toda a idade, o amor da vida com o sentimento da verdade não esquecida do início até ao final do tempo que não há nem tem lento nem rápido nem mau nem mais nem perigo nem poder, nem quem sirva nem quem mande, a vida desfila imponente e nunca jamais estanque, fica quieto, fica aqui, fica aquilo que há que ser, fica o que sempre esteve aqui e nunca deixa de viver, por isso canto, e rio, e choro como um perdido, correndo a lágrima como um fio de contas, colar de pérolas de abóbadas douradas e de fiel guardante, guardo o céu e as estradas, os tudos e os nadas, guardo-te a ti neste instante - o mundo é aquilo que sempre fora, a imagem da perfeição que soa, é tudo isto que apregoa, guardo o nada e liberto o restante.
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