APOLOGIA AO SEBASTIANISMO
Mas qual é o papel importante do mito sebastianista neste aspecto? Primeiro que tudo é necessário distinguir as duas vertentes do mito: a vertente exotérica e a vertente esotérica. Entendido de forma exotérica, este mito não passa de mais um mito messiânico, de uma crença estática na vinda de alguma personalidade ou pessoa que, há muito desaparecida do panorama português, possa, de novo, levantar a sua chama. A crença no aparecimento de um cavaleiro armado que cavalga um dorso branco numa manhã de nevoeiro não é só irrisória, mas também profundamente ignorante e, devemos dizê-lo com toda a clareza, completamente estúpida pela ausência de inteligência que apresenta. Uma crença deste tipo só poderá ser comparável à crença daquilo que se chama "o príncipe encantado", que é aquele ser perfeito que irá salvar das garras de uma madrasta odiosa alguma princesa bem formosa. O problema nesta consideração do mito é exactamente o facto daquilo que existe de eterno no mito ser completamente trucidado. É, na verdade, uma ausência de análise que faz, neste campo e mas também noutros, fazer descer o mito à categoria de acontecimento físico. Viver pensando que um dia irá aparecer um homem com uma armadura montado num cavalo branco numa noite de nevoeiro é troçar da sua própria inteligência. Assim, para mostrar aos cientistas do nosso tempo que o que interessa no Mito, no verdadeiro Mito, é o seu carácter eterno ou arquetípico, simbólico, é preciso, e nunca será demais, notar que entender que o significado de um mito, seja este ou qualquer outro, seja exactamente aquele que a maior parte das pessoas atribui ao significado de cada uma das palavras que os homens utilizam para expressar esse mito não passa de uma análise descuidada, redutora e que corrompe pervertidamente o verdadeiro significado - o significado simbólico - do Mito.
A ausência de discernimento que leva a elaborar tão fantasiosas e estúpidas acepções ao significado do Mito só se pode justificar com uma total ausência de inteligência por parte de quem elabora tais análises. Primeiro que tudo, o mito sebastianista tem a sua origem em tempos remotos, e não no nosso tempo, e portanto só será desvirtuoso atribuir significados correntes a mitos ou situações que só fazem sentido (isto é, que só estão perfeitamente contextualizadas) nos seus próprios tempo e espaço. O primeiro procedimento será, então, pensar como alguém que viveu na época em que esse Mito terá surgido sob a sua face sebastianista. E o que significa pensar como alguém dessa época? Significa sobretudo estudar esse contexto histórico e tentar descobrir quais as redes de associação de ideias que poderiam existir na mente de uma pessoa que vivesse nesse mesmo contexto. Aqui, essas redes de associação de ideias referem-se tanto aos objectos físicos, do quotidiano, como aos termos empregues para os designar; e mais importante que isso, referem-se sobretudo às associações mentais signo-significado que eram atribuídas. No caso de um mito que é discorrido em textos e registos escritos, utilizando a linguagem escrita, ou seja, as palavras, é então necessário fazer o levantamento conceptual dos termos empregues na descrição do mito: identificar as palavras utilizadas e tentar encontrar quais os sentidos ou significados que eram atribuídos a cada uma dessas palavras. Mas a exegese de um texto, seja ele qual for, não se pode basear somente em palavras, visto que estas se encontram organizadas em frases, e estas em corpos de texto mais ou menos complexos, de ordem superior. É, portanto, necessário ainda tentar encontrar qual o sentido ou significado de cada uma das frases do texto escrito, e de cada um dos parágrafos, até que se chegue ao sentido ou significado de todo o texto. É preciso clarificar também outro aspecto: é que esta interpretação não parte da soma de significados consoante os termos empregues. Esta interpretação parte, isso sim, da procura da emergência de novos sentidos ou significados pela colocação de determinados conjuntos de palavras em proximidade ou à distância uns dos outros. Aplicando o conceito da Ecologia de princípio emergente, é necessário reconhecer se existem (e a investigação neste campo da Semiótica parece mostrar-nos que a máxima gestaltista de que o todo é muito mais do que a mera soma das partes se verifica, veja-se o exemplo de textos como os de Umberto Eco) significados diferentes dos normalmente associados a cada uma das palavras utilizadas de forma isolada. O conjunto desses princípios emergentes, a que podemos chamar efeitos de sentido (são os princípios que se subentendem a partir de um texto e que têm como objectivo criar uma nova constelação de significados que se eleve para além da mais habitual ou corriqueira acepção), é que são o verdadeiro objecto de estudo para o historiador do Mito ou da Religião. Há, portanto, que primeiro saber compreender (saber ler) a linguagem que é utilizada para escrever cada palavra do texto. Depois, é necessário saber qual o significado que a cada palavra, naquele contexto histórico, se lhe atribuía. Em seguida, é preciso procurar os princípios que emergem do posicionamento de determinadas palavras ao redor de outras. Depois, os princípio que emergem da localização de determinados conjuntos de palavras, e de frases inteiras, em consonância com outras. Finalmente, é preciso encontrar qual o sentido emergente do texto, qual o seu objectivo, qual o seu papel, qual a sua importância global. O verdadeiro significado do mito sebastianista só se pode compreender quando elevamos a nossa interpretação até aos níveis mais cimeiros da rede de associações conceptuais que é criada pelo texto.
O que aqui se defende, neste aspecto, é que quanto mais nos aproximamos dessa rede de associações conceptuais, mais deixamos de focar a nossa atenção no objecto físico que constitui o suporte para a palavra (ou seja, aquilo que a palavra nomeia) e mais focamos a nossa atenção no objecto conceptual que está ou que foi pretendido estar por quem elaborou um determinado texto. Com uma exegese deste tipo é possível chegar, caso ele exista, ao significado atemporal (que escapa completamente ao domínio do tempo) e aespacial (que escapa completamente ao domínio do espaço) do texto, a Ideia Pura, ou o Conceito Puro. E é aí que tudo se revela (se houver alguma coisa para se revelar, bem entendido. Se um texto não possui essa dimensão supra-temporal e supra-espacial, diremos um significado simbólico ou arquetípico, esta análise não faz sentido algum. Da mesma maneira, a exegese só poderá ir até onde o autor, consciente ou inconscientemente, levou o texto, e caso ele não tenha chegado até este nível de riqueza conceptual, então qualquer análise de ordem igual ou superior é irrisória.).
Portanto, sendo o Mito verdadeiro e autêntico da ordem do puramente conceptual, ou sabendo que a sua existência só é possível pela existência de um plano de interpretação simbólica (em que os objectos físicos ou palavras são apenas suporte para associar a cada um deles um conceito puro, uma ideia puramente conceptual), essa é a única forma verdadeiramente válida de interpretar o verdadeiro significado (não é mais que chegar até esse significado) pela exegese do texto. É aqui que reside toda a importância do Mito, e neste caso particular do Mito Sebastianista.
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Mitologia da Saudade I
APOLOGIA À SAUDADE
Qual é a verdadeira importância e significado da saudade que é tão nossa, que é tão portuguesa? Há que distinguir os significados exotérico e esotérico. A saudade, que é entendida como o fado, para a maior parte dos portugueses, é a definição exotérica. A saudade enquanto sofrimento, enquanto destino inevitável, enquanto saga sofrida e de sofrimento. A perpetuação do sofrimento pela perda de algo mais, seja pela morte, seja pelo esquecimento, seja pelas vicissitudes da vida. A saudade no seu aspecto mais negativo, o do sofrimento perpétuo. Este é o pólo exactamente oposto daquilo que realmente significa a saudade. Entendida esotericamente, a saudade é o sentimento indefinível mas inteligível para nós, para os do nosso mundo, de que houve um tempo de abundância e de plena paz, houve um tempo do Ser e do Espírito, houve em tempos que não existem e em espaços que não o ocupam um tempo do Sopro que fazia com que a Potência e o Acto fossem Um e a mesma coisa. A verdadeira saudade é essa memória ancestral, arquetípica, uma autêntica memória do Céu das Ideias de onde tudo proveio, como diria Platão. Mas a saudade não é só isso. Para além do carácter estático de memória, aquilo que já foi, e para além do carácter dinâmico de sofrimento presente (pela inexistência da plenitude que em tempos idos houve), e que é hoje tão presente, há ainda um pequeno núcleo, um embrião frágil de esperança, da esperança que nos leva a pensar, a falar, e sobretudo a sentir, um mundo melhor, um futuro em que esse sofrimento tenha o seu derradeiro fim, e onde possamos novamente casar a Matéria com a Ideia, para sempre. E como se essa ideia de saudade, da verdadeira saudade, não fosse suficiente para manter a chama do Mito viva, e para que possamos andar para a frente, sempre para a frente e para cima, houve por força que gravar na pedra da história de Portugal esse mito sebastianista, que não é mais que uma projecção nas brumas da memória do futuro, o futuro que reencontra o passado, e que se cumpre no presente. Diremos, e sem sombra de dúvida, que Portugal está fundado sobre o Mito, e que Portugal é o próprio Mito, e que de outra maneira não poderia ser, porque Portugal nasceu no preciso momento em que essa saudade foi sentida de outra maneira, não da maneira exotérica, nem somente da maneira esotérica, mas sim quando uma foi casada com outra, e quando, por diversos agentes, neste ou naquele campo, Portugal foi cumprido. A Ideia foi certamente anterior à sua consubstanciação, mas essa mesma consubstanciação é que tornou possível a realidade do Sonho. E é por isso que nunca nós, portugueses, nos cansamos de sonhar - é que se o Sonho que já foi sonhado já se cumpriu porque não se poderão cumprir os outros Sonhos Futuros?
Qual é a verdadeira importância e significado da saudade que é tão nossa, que é tão portuguesa? Há que distinguir os significados exotérico e esotérico. A saudade, que é entendida como o fado, para a maior parte dos portugueses, é a definição exotérica. A saudade enquanto sofrimento, enquanto destino inevitável, enquanto saga sofrida e de sofrimento. A perpetuação do sofrimento pela perda de algo mais, seja pela morte, seja pelo esquecimento, seja pelas vicissitudes da vida. A saudade no seu aspecto mais negativo, o do sofrimento perpétuo. Este é o pólo exactamente oposto daquilo que realmente significa a saudade. Entendida esotericamente, a saudade é o sentimento indefinível mas inteligível para nós, para os do nosso mundo, de que houve um tempo de abundância e de plena paz, houve um tempo do Ser e do Espírito, houve em tempos que não existem e em espaços que não o ocupam um tempo do Sopro que fazia com que a Potência e o Acto fossem Um e a mesma coisa. A verdadeira saudade é essa memória ancestral, arquetípica, uma autêntica memória do Céu das Ideias de onde tudo proveio, como diria Platão. Mas a saudade não é só isso. Para além do carácter estático de memória, aquilo que já foi, e para além do carácter dinâmico de sofrimento presente (pela inexistência da plenitude que em tempos idos houve), e que é hoje tão presente, há ainda um pequeno núcleo, um embrião frágil de esperança, da esperança que nos leva a pensar, a falar, e sobretudo a sentir, um mundo melhor, um futuro em que esse sofrimento tenha o seu derradeiro fim, e onde possamos novamente casar a Matéria com a Ideia, para sempre. E como se essa ideia de saudade, da verdadeira saudade, não fosse suficiente para manter a chama do Mito viva, e para que possamos andar para a frente, sempre para a frente e para cima, houve por força que gravar na pedra da história de Portugal esse mito sebastianista, que não é mais que uma projecção nas brumas da memória do futuro, o futuro que reencontra o passado, e que se cumpre no presente. Diremos, e sem sombra de dúvida, que Portugal está fundado sobre o Mito, e que Portugal é o próprio Mito, e que de outra maneira não poderia ser, porque Portugal nasceu no preciso momento em que essa saudade foi sentida de outra maneira, não da maneira exotérica, nem somente da maneira esotérica, mas sim quando uma foi casada com outra, e quando, por diversos agentes, neste ou naquele campo, Portugal foi cumprido. A Ideia foi certamente anterior à sua consubstanciação, mas essa mesma consubstanciação é que tornou possível a realidade do Sonho. E é por isso que nunca nós, portugueses, nos cansamos de sonhar - é que se o Sonho que já foi sonhado já se cumpriu porque não se poderão cumprir os outros Sonhos Futuros?
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Pelo menos metade dos problemas no processo de aprendizagem académico seria resolvida se os docentes partissem não do seu ponto de vista, mas do ponto de vista dos seus alunos. Partir do ponto de vista do docente significa explicar um determinado conteúdo como se se já soubesse o que lá vai dentro. Partir do ponto de vista do aluno significa explicar um determinado conteúdo como se se não soubesse o que vai lá dentro. E isto faz toda a diferença. Primeiro, partir do ponto de vista do aluno requer um discurso bem fundamentado, articulado, coerente e lógico. É preciso referir e explicar cada passo, encadeando logicamente os assuntos tratados, de modo a que seja possível ao aluno compreender, por si próprio, qual a relação e a ligação entre os temas. Ensinar é como construir uma ponte entre aquilo que se sabe e aquilo que não se sabe. Sempre que se falha alguma tábua de madeira há sempre o risco crescente de se cair no abismo da ignorância. Só quando todas as tábuas estiverem bem pregadas tanto à estrutura da ponte como umas às outras se poderá chegar ao outro lado sem pôr em perigo a vida.
Meu destino é ser pintor de retratos
Mas mais que isso, é pintar com a mão
Nos pincéis molhados
Com aquilo que vai ao coração
Mas quando tento pintá-lo
Nessa parede de cartão
Do coração jorra um halo
Que se estende até à razão
Procurá-lo? Não procurá-lo?
Entretendo na teia infinita
Que faz desta dita maldita
Senti-lo ou enxergá-lo?
Quanto mais foco esse halo
Mais se difunde fé inaudita
Pensá-lo? Amá-lo.
Mas mais que isso, é pintar com a mão
Nos pincéis molhados
Com aquilo que vai ao coração
Mas quando tento pintá-lo
Nessa parede de cartão
Do coração jorra um halo
Que se estende até à razão
Procurá-lo? Não procurá-lo?
Entretendo na teia infinita
Que faz desta dita maldita
Senti-lo ou enxergá-lo?
Quanto mais foco esse halo
Mais se difunde fé inaudita
Pensá-lo? Amá-lo.
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
domingo, 26 de agosto de 2007
a vida é demasiado curta para que possamos aprender e fazer tudo aquilo que queremos. Não é nenhuma constatação derrotista: é simplesmente um facto corroborado por um grande número de observações. De nada nos serve tentar fazer ou aprender tudo, primeiro porque nem tudo foi descoberto, e depois porque já muita coisa foi feita. A única fórmula para a vida, se é que possa haver uma, ou se é que se possa chamar a isso fórmula, é aprender com aquilo que nos acontece, e fazer aquilo que temos que fazer. Se não vamos conseguir ler todos os livros que já foram escritos no mundo, para quê tentar lê-los? Mais, há muitos livros maus, péssimos mesmo, que não adiantam absolutamente nada ao nosso processo de aprendizagem. Portanto, a única resposta possível é seleccionar. Escolher. O mais conscientemente ou inconscientemente possível. Suficientemente consciente para que saibamos que estamos a fazer uma escolha, e que essa escolha vai ter um conjunto de consequências que vão influenciar a nossa vida para sempre, e sabendo que essa escolha faz com que todas as outras escolhas possíveis deixem de ter significado real para nós. Suficientemente inconsciente para que não saibamos quais vão ser essas consequências, para que estejamos suficientemente abertos à novidade para que possamos escolher entre o maior leque possível de escolhas, para que possamos seleccionar não o que achamos ser melhor para nós mas o que vem ao nosso encontro. No fundo é muito simples: é seguir em frente sem olhar para trás.
sábado, 25 de agosto de 2007
Gnosioepistemologia das relações sociais
a partir da análise conceptual primeiramente divisada pela Professora Madalena Dionísio
Como conhecemos uma pessoa? Para abordar este complexo tema, vamos partir de um ponto de vista científico. Como tal, vamos chamar à pessoa o nosso "sistema", o objecto de estudo. À partida, o nosso sistema em estudo é-nos totalmente desconhecido se dele não tivermos tido sensação, mesmo que o sistema tenha produzido estímulos que tenham chegado até nós. Como tal, identificamos o nível de conhecimento que extraímos do nosso sistema, que foi zero, como o estado black-box, ou o estado caixa-negra. Sem nenhuma informação acerca da constituição do nosso sistema, ele é como que uma caixa-negra perante nós (usaremos esta metáfora ao longo da nossa análise).
As primeiras sensações que podemos ter do nosso sistema, da nossa caixa-negra, são as sensações que resultam da emissão permanente de estímulos pela nossa caixa-negra. Partimos do princípio que mesmo a mais negra das caixas (passemos a expressão) emite, pelo menos, um pequeno conjunto de estímulos que podem chegar até nós. Se a caixa-negra não emitir qualquer estímulo, então dever-se-á saltar esta parte da análise e seguir para a próxima.
Se, de facto, existe uma emissão permanente de algum tipo de estímulo, é por aí que devemos começar. Mas primeiro é necessário certificarmo-nos de que o estímulo é emitido sempre, isto é, mesmo na nossa ausência e de forma constante no espaço e no tempo. Utiliza-se a diversa tecnologia de sensores que já foi desenvolvida para registar estes estímulos.
Há que salvaguardar ainda a hipótese de que não tenhamos aparelhos suficientemente avançados que permitam registar todos os estímulos emitidos, tanto pela sua profusão (em quantidade) como pela sua natureza (em qualidade). Se tal é o caso (coisa que apenas podemos supor), então devemos eliminar da equação este tipo de considerações. Toda a análise realizada é apenas uma análise relativa, e nunca absoluta.
Para além disso, devemos ter em mente que se o sensor a utilizar é biológico, isto é, se somos nós próprios o sensor a utilizar, poderemos não captar os estímulos que escapam à nossa percepção sensorial. Assim, Poder-nos-ão escapar algum tipo de estímulos, ou então alguma ordem de estímulos pode não ter uma acção suficientemente estimuladora dos nossos sensores para que possamos sentir algo. Também estes casos devem ser eliminados da equação, pois baseiam-se em suposições que não podem ser quantificadas até ao momento em que forem operacionalizáveis.
Suponhamos que os primeiros estímulos que chegam até nós e nos provocam sensações são os estímulos visuais. Podemos aqui obter algum tipo de informação, informação quantitativa e qualitativa. Esta descrição é suficiente para que possamos classificar a nossa caixa-negra, mas não é ainda suficiente para que lhe possamos atribuir propriedades. Assim, os estímulos visuais podem apenas fornecer-nos informação acerca das qualidades que são permanentemente expressas pelo nosso sistema, e não sobre todas as propriedades do sistema. Aqui, teremos de passar à próxima etapa.
Até aqui a nossa análise baseou-se nas características permanentemente expressas pelo nosso sistema e que podemos captar. Se estas análises forem feitas durante um curto intervalo de tempo, poderemos considerar que o nosso sistema está praticamente inalterado ao longo de todo esse período de tempo. Atribuímos à nossa caixa-negra, assim, um estado de quasi-equilíbrio. A realização de medições durante um curto intervalo de tempo (curto o suficiente para que o sistema não altere nenhuma das suas propriedades visíveis) é importantíssima no passo que se segue.
Visto que a informação que podemos extrair da nossa caixa-negra numa situação de quasi-equilíbrio é extremamente limitada, somos forçados a efectuar estudos numa situação de não-equilíbrio. Uma situação de não-equilíbrio consiste na aplicação de um estímulo à nossa caixa-negra e medição posterior do efeito ou da resposta que o nosso sistema desenvolve nos instantes de tempo posteriores. Assume-se que qualquer alteração registada no nosso sistema em estudo se deve à aplicação do estímulo por nós imposto, seguindo uma lógica de causa-efeito.
Quanto maior for a quantidade e qualidade de estímulos aplicada à nossa caixa-negra maior será a quantidade de informação que dela podemos retirar, via a análise das suas respostas. Após a reunião de uma grande quantidade de respostas face a diferentes estímulos, poder-se-ão procurar padrões de simetria e correlações entre variáveis. Quando os padrões se verificam em uma grande extensão de resultados, e a correlação entre as variáveis é boa, então é possível construir leis que permitam explicar o funcionamento da nossa black-box. Só aí é possível compreender o mecanismo que leva ao desenvolvimento e formação da resposta e, consequentemente, atribuir propriedades que expliquem a constituição deste sistema.
Longos e aturados estudos científicos mostraram que a informação que podemos recolher a partir da imposição de estímulos e posterior verificação de respostas, ou seja, a partir de estudos numa situação de não-equilíbrio, é muito maior e mais rica que a informação que podemos recolher a partir de situações de quasi-equilíbrio. Eis aqui a prova lógica para que, em contexto social, primemos pela estimulação em extensas quantidade e qualidade de todas as nossas black-boxes.
Como conhecemos uma pessoa? Para abordar este complexo tema, vamos partir de um ponto de vista científico. Como tal, vamos chamar à pessoa o nosso "sistema", o objecto de estudo. À partida, o nosso sistema em estudo é-nos totalmente desconhecido se dele não tivermos tido sensação, mesmo que o sistema tenha produzido estímulos que tenham chegado até nós. Como tal, identificamos o nível de conhecimento que extraímos do nosso sistema, que foi zero, como o estado black-box, ou o estado caixa-negra. Sem nenhuma informação acerca da constituição do nosso sistema, ele é como que uma caixa-negra perante nós (usaremos esta metáfora ao longo da nossa análise).
As primeiras sensações que podemos ter do nosso sistema, da nossa caixa-negra, são as sensações que resultam da emissão permanente de estímulos pela nossa caixa-negra. Partimos do princípio que mesmo a mais negra das caixas (passemos a expressão) emite, pelo menos, um pequeno conjunto de estímulos que podem chegar até nós. Se a caixa-negra não emitir qualquer estímulo, então dever-se-á saltar esta parte da análise e seguir para a próxima.
Se, de facto, existe uma emissão permanente de algum tipo de estímulo, é por aí que devemos começar. Mas primeiro é necessário certificarmo-nos de que o estímulo é emitido sempre, isto é, mesmo na nossa ausência e de forma constante no espaço e no tempo. Utiliza-se a diversa tecnologia de sensores que já foi desenvolvida para registar estes estímulos.
Há que salvaguardar ainda a hipótese de que não tenhamos aparelhos suficientemente avançados que permitam registar todos os estímulos emitidos, tanto pela sua profusão (em quantidade) como pela sua natureza (em qualidade). Se tal é o caso (coisa que apenas podemos supor), então devemos eliminar da equação este tipo de considerações. Toda a análise realizada é apenas uma análise relativa, e nunca absoluta.
Para além disso, devemos ter em mente que se o sensor a utilizar é biológico, isto é, se somos nós próprios o sensor a utilizar, poderemos não captar os estímulos que escapam à nossa percepção sensorial. Assim, Poder-nos-ão escapar algum tipo de estímulos, ou então alguma ordem de estímulos pode não ter uma acção suficientemente estimuladora dos nossos sensores para que possamos sentir algo. Também estes casos devem ser eliminados da equação, pois baseiam-se em suposições que não podem ser quantificadas até ao momento em que forem operacionalizáveis.
Suponhamos que os primeiros estímulos que chegam até nós e nos provocam sensações são os estímulos visuais. Podemos aqui obter algum tipo de informação, informação quantitativa e qualitativa. Esta descrição é suficiente para que possamos classificar a nossa caixa-negra, mas não é ainda suficiente para que lhe possamos atribuir propriedades. Assim, os estímulos visuais podem apenas fornecer-nos informação acerca das qualidades que são permanentemente expressas pelo nosso sistema, e não sobre todas as propriedades do sistema. Aqui, teremos de passar à próxima etapa.
Até aqui a nossa análise baseou-se nas características permanentemente expressas pelo nosso sistema e que podemos captar. Se estas análises forem feitas durante um curto intervalo de tempo, poderemos considerar que o nosso sistema está praticamente inalterado ao longo de todo esse período de tempo. Atribuímos à nossa caixa-negra, assim, um estado de quasi-equilíbrio. A realização de medições durante um curto intervalo de tempo (curto o suficiente para que o sistema não altere nenhuma das suas propriedades visíveis) é importantíssima no passo que se segue.
Visto que a informação que podemos extrair da nossa caixa-negra numa situação de quasi-equilíbrio é extremamente limitada, somos forçados a efectuar estudos numa situação de não-equilíbrio. Uma situação de não-equilíbrio consiste na aplicação de um estímulo à nossa caixa-negra e medição posterior do efeito ou da resposta que o nosso sistema desenvolve nos instantes de tempo posteriores. Assume-se que qualquer alteração registada no nosso sistema em estudo se deve à aplicação do estímulo por nós imposto, seguindo uma lógica de causa-efeito.
Quanto maior for a quantidade e qualidade de estímulos aplicada à nossa caixa-negra maior será a quantidade de informação que dela podemos retirar, via a análise das suas respostas. Após a reunião de uma grande quantidade de respostas face a diferentes estímulos, poder-se-ão procurar padrões de simetria e correlações entre variáveis. Quando os padrões se verificam em uma grande extensão de resultados, e a correlação entre as variáveis é boa, então é possível construir leis que permitam explicar o funcionamento da nossa black-box. Só aí é possível compreender o mecanismo que leva ao desenvolvimento e formação da resposta e, consequentemente, atribuir propriedades que expliquem a constituição deste sistema.
Longos e aturados estudos científicos mostraram que a informação que podemos recolher a partir da imposição de estímulos e posterior verificação de respostas, ou seja, a partir de estudos numa situação de não-equilíbrio, é muito maior e mais rica que a informação que podemos recolher a partir de situações de quasi-equilíbrio. Eis aqui a prova lógica para que, em contexto social, primemos pela estimulação em extensas quantidade e qualidade de todas as nossas black-boxes.
Aqueles gracejos já não eram novos para ele e agora lisonjeavam a sua tranquila e orgulhosa soberania. Agora, mais do que nunca, o seu estranho nome parecia-lhe uma profecia. O ar tépido e cinzento parecia-lhe tão intemporal, a sua própria disposição tão fluida e impessoal, que todas as épocas lhe pareciam uma só. Um momento antes, o fantasmo do antigo reino dos Viquingues tinha espreitado por entre a roupagem da cidade envolta em névoa. Agora, diante do nome do fabuloso criador, parecia-lhe escutar o rumor de vagas ondas e ver uma forma alada voar sobre as ondas e elevar-se lentamente nos ares. Que significaria aquilo? Seria uma bizarra iluminura a abrir uma página de um livro medieval de profecias e símbolos, um homem-falcão a voar sobre o mar em direcção ao sol, uma profecia do destino que nascera para cumprir e tinha vindo a seguir através das névoas da infância e da adolescência, um símbolo do artista a forjar de novo, na sua oficina, com o barro inerte da terra, um novo ser sublime, impalpável e imperecível?
O seu coração estremeceu; a sua respiração acelerou-se e um sopro audaz perpassou pelos seus membros, como se já estivesse a voar em direcção ao sol. O seu coração fremiu num êxtase de medo e a sua alma levantou voo. A sua alma pairava nos ares por lá do mundo e sabia que o seu corpo estava purificado por um sopro e liberto da incerteza, radioso e diluído no elemento do espírito. Um êxtase de voo deu brilho aos seus olhos e agitou a sua respiração e tornou trémulos, audazes e radiosos os seus membros arrebatados pelo vento.
Onde estava agora a sua adolescência? Onde estava a alma que se tinha mantido afastada do seu destino, para lamber sozinha a vergonha das suas feridas, e se refugiara na sua casa de miséria e subterfúgio, para se revestir de sudários desbotados e coroas de flores que murchavam mal lhes tocavam? E onde estava ele?
Estava sozinho. Estava livre, feliz e próximo do cerne selvagem da vida. Estava sozinho e jovem e predisposto e rebelde de coração, só, no meio do ar selvagem e das águas salobras, da colheita marinha de conchas e algas e da velada luz cinzenta e de figuras de crianças e raparigas envergando trajos alegres e de cores claras, e de vozes infantis e juvenis que se erguiam no ar.
A sua alma penetrava num mundo novo, fantástico, confuso, indistinto como um mundo submarino, atravessado por formas e seres nebulosos. Um mundo, um clarão ou uma flor? Bruxuleando e tremulando, tremulando e desdobrando-se, uma luz que irrompia, uma flor que nascia, estendia-se numa infindável sucessão de si própria, irrompendo, totalmente rubra, e desdobrando-se e desmaiando até ao mais pálido tom rosado, pétala a pétala, onda de luz a onda de luz, inundando os céus com os seus clarões suaves, cada um mais profundo que o anterior.
Ergueu-se lentamente e, recordando o êxtase do seu sonho, suspirou de alegria.
(um pequeno Retrato do Artista Quando Jovem por James Joyce)
O seu coração estremeceu; a sua respiração acelerou-se e um sopro audaz perpassou pelos seus membros, como se já estivesse a voar em direcção ao sol. O seu coração fremiu num êxtase de medo e a sua alma levantou voo. A sua alma pairava nos ares por lá do mundo e sabia que o seu corpo estava purificado por um sopro e liberto da incerteza, radioso e diluído no elemento do espírito. Um êxtase de voo deu brilho aos seus olhos e agitou a sua respiração e tornou trémulos, audazes e radiosos os seus membros arrebatados pelo vento.
Onde estava agora a sua adolescência? Onde estava a alma que se tinha mantido afastada do seu destino, para lamber sozinha a vergonha das suas feridas, e se refugiara na sua casa de miséria e subterfúgio, para se revestir de sudários desbotados e coroas de flores que murchavam mal lhes tocavam? E onde estava ele?
Estava sozinho. Estava livre, feliz e próximo do cerne selvagem da vida. Estava sozinho e jovem e predisposto e rebelde de coração, só, no meio do ar selvagem e das águas salobras, da colheita marinha de conchas e algas e da velada luz cinzenta e de figuras de crianças e raparigas envergando trajos alegres e de cores claras, e de vozes infantis e juvenis que se erguiam no ar.
A sua alma penetrava num mundo novo, fantástico, confuso, indistinto como um mundo submarino, atravessado por formas e seres nebulosos. Um mundo, um clarão ou uma flor? Bruxuleando e tremulando, tremulando e desdobrando-se, uma luz que irrompia, uma flor que nascia, estendia-se numa infindável sucessão de si própria, irrompendo, totalmente rubra, e desdobrando-se e desmaiando até ao mais pálido tom rosado, pétala a pétala, onda de luz a onda de luz, inundando os céus com os seus clarões suaves, cada um mais profundo que o anterior.
Ergueu-se lentamente e, recordando o êxtase do seu sonho, suspirou de alegria.
(um pequeno Retrato do Artista Quando Jovem por James Joyce)
simplesmente antónio

Teu nome António
Só aqui é bem chamado
Lá fora nunca foste António
Lá fora és sempre deturpado
Teu nome António
Só aqui é verdadeiro
Porque ficas cá António
Lá fora és sempre estrangeiro
Falar de mim é só pretexto
P'ra me ouvires a cantar
Falar de mim é só pretexto
P'ra me ouvires a cantar
Sempre tive esse defeito
De nunca me lamentar
Quando o mal já está feito
Porque havemos de lembrar
Teu nome António
Teu nome António
Não peças histórias como a tua
Não te quero repetir
Não peças histórias como a tua
Não te quero repetir
Sou como uma criança nua
Que ainda sabe sorrir
E a verdade nua e crua
Não é a mim que a vais ouvir
Teu nome António
Só aqui é bem chamado
Lá fora nunca foste António
Lá fora és sempre deturpado
Teu nome António
Só aqui é verdadeiro
Porque não ficas cá António
Lá fora és sempre estrangeiro
Talvez a voz com que me ouves
Me esteja a atraiçoar
Talvez a voz com que me ouves
Me esteja a atraiçoar
Não penses que me comoves
Porque eu quero é cantar
Não penses que me comoves
Porque eu quero é cantar
Teu nome António
Teu nome António
Teu nome António
Teu nome António
Ver o passado com os meus olhos
É filme que gosto de ver
É um desfilar de sonhos
Que me fazem esquecer
É um desfilar de sonhos
Que me fazem esquecer
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
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