sexta-feira, 16 de maio de 2008
Correlações I
(1931) Fernando Pessoa
Se estou só, quero não estar,
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.
(...)
(1982) António Variações
(...)
Porque até aqui eu só
Estou bem aonde não estou
Porque eu só quero ir
Aonde não vou
(...)
Se estou só, quero não estar,
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.
(...)
(1982) António Variações
(...)
Porque até aqui eu só
Estou bem aonde não estou
Porque eu só quero ir
Aonde não vou
(...)
Sou.
Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.
Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Porque não se cansar?
Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte
Oxalá que ela
Nunca me encontre.
Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.
Fernando Pessoa
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.
Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Porque não se cansar?
Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte
Oxalá que ela
Nunca me encontre.
Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.
Fernando Pessoa
quinta-feira, 15 de maio de 2008
os primeiros 1001
Bem, segundo o que me indica aqui o site do blogspot, no qual ainda confio até um certo ponto, esta entrada do blogue vai ser a 1001ª. Não é meu interesse estar a comemorar efemérides bacocas, ou construir altares a este ou àquele. Ainda assim, não posso deixar de me espantar com o facto de ter realmente conseguido escrever mais de mil textos, ou publicado imagens magníficas de sítios que me despertaram a atenção, ou até mesmo divulgando música que considero ser inspiradora. E o mais incrível não é isso, é o tê-lo feito quase que sem dar por isso em menos de um ano...
Na verdade, tudo isto são tretas sentimentalonas. O que quero com esta 1001ª entrada é agradecer a toda a gente que aqui veio e que ainda (ainda?) vem. Tive o cuidado de não publicitar este blogue ostensivamente - publicitar, que palavra mais horrível... - para poder mais facilmente garantir que quem aqui vinha fazia-o à sua própria conta e risco. Que aqueles que aqui vêm descobriram este recanto por mero acaso, porque alguém gostou de aqui estar e lhes falou nisso, porque resolveram ver quem era a pessoa que tinha escrito aquele comentário no seu blogue. Confesso que isso também se trata de um teste à própria capacidade da internet - e dos blogues, em particular - para reunir, para aproximar as pessoas. E depois, claro, as pessoas. Aquilo que faço aqui é simplesmente registar aquilo que me passa pela cabeça: trata-se este de um puro diário mental, tantas vezes omisso por imposições capitalistas que derivam do meu percurso profissional - umas quantas palavras caras para dizer que só não escrevo mais porque não tenho tempo! Mas a verdade é que me divirto imenso a escrever aquilo que me apetece. Se isso pode inspirar as pessoas, se isso pode ser uma alavanca, uma ajuda, uma sacudidela mental para que as pessoas possam ser - à conta do seu próprio esforço - melhores, se isso contribuir para a evolução da humanidade, tanto melhor. Reformulo: se isso contribuir para a evolução de cada um - que é a única coisa que na verdade existe -, então a minha tarefa, para além de ser incrivelmente deliciosa, é sublimemente grande e completa-se na própria vida que dá aos outros. Devo esclarecer melhor: escrever, faço-o porque não consigo impedir-me de escrever, é algo natural em mim, e a coisa mais natural que há no mundo é fazer aquilo que nos é natural; escrever coisas que permitem a evolução da humanidade é o meu principal objectivo, porque se não foi para isso que nós viemos ao mundo então para que foi?
Na verdade, tudo isto são tretas sentimentalonas. O que quero com esta 1001ª entrada é agradecer a toda a gente que aqui veio e que ainda (ainda?) vem. Tive o cuidado de não publicitar este blogue ostensivamente - publicitar, que palavra mais horrível... - para poder mais facilmente garantir que quem aqui vinha fazia-o à sua própria conta e risco. Que aqueles que aqui vêm descobriram este recanto por mero acaso, porque alguém gostou de aqui estar e lhes falou nisso, porque resolveram ver quem era a pessoa que tinha escrito aquele comentário no seu blogue. Confesso que isso também se trata de um teste à própria capacidade da internet - e dos blogues, em particular - para reunir, para aproximar as pessoas. E depois, claro, as pessoas. Aquilo que faço aqui é simplesmente registar aquilo que me passa pela cabeça: trata-se este de um puro diário mental, tantas vezes omisso por imposições capitalistas que derivam do meu percurso profissional - umas quantas palavras caras para dizer que só não escrevo mais porque não tenho tempo! Mas a verdade é que me divirto imenso a escrever aquilo que me apetece. Se isso pode inspirar as pessoas, se isso pode ser uma alavanca, uma ajuda, uma sacudidela mental para que as pessoas possam ser - à conta do seu próprio esforço - melhores, se isso contribuir para a evolução da humanidade, tanto melhor. Reformulo: se isso contribuir para a evolução de cada um - que é a única coisa que na verdade existe -, então a minha tarefa, para além de ser incrivelmente deliciosa, é sublimemente grande e completa-se na própria vida que dá aos outros. Devo esclarecer melhor: escrever, faço-o porque não consigo impedir-me de escrever, é algo natural em mim, e a coisa mais natural que há no mundo é fazer aquilo que nos é natural; escrever coisas que permitem a evolução da humanidade é o meu principal objectivo, porque se não foi para isso que nós viemos ao mundo então para que foi?
Quando falamos de produção literária só se podem fazer duas coisas originais: ou se critica aquilo que já existe - e atenção, porque isso pressupõe que se conheça previamente o objecto da crítica - , ou se inventa alguma coisa que ainda não exista. Coitadas das aulas de sociobiologia do senhor Richard Dawkins! Reduzir a cultura humana a umas meras unidades meméticas é esquecer que existe uma variabilidade - que pelo menos por enquanto nos parece aleatória - no aparecimento de novos elementos inesgotável e que perpetua o carácter excepcional de cada ser humano. A atitude mais reles que podemos encontrar num humano é a da cópia indiscriminada sobre o que quer que se encontre no mundo, especialmente naquilo que faz parte da publicidade.
A crítica, porém, não atinge a grandeza da invenção. A invenção, a ideia original, nasce de lugares que permanecem até hoje desconhecidos para nós. A crítica debruça-se sobre algo que já existe, apenas realçando mais determinados aspectos que ao crítico parecem mais importantes, em detrimento de outros. Mas a actividade do crítico torna-se verdadeiramente uma arte, um monumento à humanidade, quando ele consegue transformar o mais abjecto pedaço de coisa em algo que pode servir de inspiração a essa humanidade.
Por outro lado, também podemos discutir [neste ponto é favor consultar a etimologia da palavra] a tarefa do inventor, e se a natureza da sua tarefa faz com que ela seja assim tão grande. Se aceitarmos que o nosso entendimento, ou a nossa mente humana, é uma tabula rasa, então falamos de invenções menores. Estas invenções só existem por combinação de elementos pré-existentes, e portanto não-originais. Mas em defesa desta tarefa, que também nos parece nobre, temos que referir os já falados princípios emergentes. À medida que pomos e dispomos as palavras para construir textos, o todo é sempre muito maior do que a soma das partes. Isto acontece com as letras que reunimos em conjuntos para formar palavras e acontece também com as palavras que reunimos em conjuntos para formar frases, e assim sucessivamente segundo diferentes níveis de organização da complexidade. Consoante as combinações de palavras que fazemos, assim diferentes propriedades, contidas numa forma embrionária, latente ou bloqueada, são libertadas. Estas propriedades não podem ser previstas teoricamente apenas pela análise das partes isoladas desse todo que consideramos. As leis derivadas da Ecologia são perfeitamente transponíveis, num nível apropriado, para a estrutura da Linguística.
A crítica, porém, não atinge a grandeza da invenção. A invenção, a ideia original, nasce de lugares que permanecem até hoje desconhecidos para nós. A crítica debruça-se sobre algo que já existe, apenas realçando mais determinados aspectos que ao crítico parecem mais importantes, em detrimento de outros. Mas a actividade do crítico torna-se verdadeiramente uma arte, um monumento à humanidade, quando ele consegue transformar o mais abjecto pedaço de coisa em algo que pode servir de inspiração a essa humanidade.
Por outro lado, também podemos discutir [neste ponto é favor consultar a etimologia da palavra] a tarefa do inventor, e se a natureza da sua tarefa faz com que ela seja assim tão grande. Se aceitarmos que o nosso entendimento, ou a nossa mente humana, é uma tabula rasa, então falamos de invenções menores. Estas invenções só existem por combinação de elementos pré-existentes, e portanto não-originais. Mas em defesa desta tarefa, que também nos parece nobre, temos que referir os já falados princípios emergentes. À medida que pomos e dispomos as palavras para construir textos, o todo é sempre muito maior do que a soma das partes. Isto acontece com as letras que reunimos em conjuntos para formar palavras e acontece também com as palavras que reunimos em conjuntos para formar frases, e assim sucessivamente segundo diferentes níveis de organização da complexidade. Consoante as combinações de palavras que fazemos, assim diferentes propriedades, contidas numa forma embrionária, latente ou bloqueada, são libertadas. Estas propriedades não podem ser previstas teoricamente apenas pela análise das partes isoladas desse todo que consideramos. As leis derivadas da Ecologia são perfeitamente transponíveis, num nível apropriado, para a estrutura da Linguística.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
History never ceases to amaze me. I am overtly delighted and increasingly impressed with all the backs and turns that have forged the lives of so many, the serendipitous coincidences that fortune have put them in contact of, and specially all the complex and integrated chains of influences which have truly been the major force driving such uniqueness of character in every special person who dared to enter this world.
O culto ao estrangeiro, sobretudo à América capitalista e fabricadora de ilusões hollywoodescas, continua: os Golden Globes - já não faz sentido chamá-los pelo nome português, na verdade isso seria contrário à sua verdadeira natureza - passaram hoje pela SIC, que é o sítio apropriado para passar a escumalha da televisão. Uma Bárbara Guimarães que fala tão bem inglês como o cheiro nauseabundo de uma lixeira a céu aberto, mais um viva para a sociedade do espectáculo, disseminação e mediatismo de valores ilusórios, prémio-fachada para porcarias de primeira apanha. O próprio Francisco Pinto Balsemão mete medo, é uma autêntica múmia saída de um frasco com formol. E quem já o viu ao vivo e a cores sabe o que é o verdadeiro terror. Está aqui um óptimo filão para ser explorado pelo John Carpenter.
premonições

Sociedade do espectáculo, Guy Debord
1. A aceleração da economia capitalista em que vivemos levou a que nunca fizessem tanto sentido as palavras de Guy Debord, e sobretudo aquilo que elas representam.
2. Aviso a todos os não-acéfalos que há no mundo: vamos ensinar a Sarkozy o que é realmente o espírito do Maio'68? O coitado deve ter vivido num buraco durante muito tempo para dizer tanta barbaridade junta.
3. É nosso direito e sublime dever ridicularizar tudo aquilo que for ridículo para que nem os próprios nem os outros tenham ilusões acerca da grandeza que não têm.
domingo, 11 de maio de 2008
educação sexual ou não
Uma das questões que gostaríamos de ver resolvidas de uma vez por todas é essa de se decidir se se dão aulas sobre educação sexual ou não. Na verdade, surge por vezes a discussão caricata sobre o tema, completamente desprovida - como aliás conseguimos ver todos os dias - de algum sentido de lógica ou de estruturação e planeamento. Dizer que são necessárias aulas de educação sexual nas escolas portuguesas é escamotear as questões verdadeiramente importantes. Antes de mais, fala-se em educação sexual sem se definir em que é que a dita consiste, e geram-se inúmeros equívocos à sua volta que apenas contribuem com mais tijolos para as paredes da ignorância. Quando falamos em educação sexual estamos a falar do quê? Se estamos a falar de educação sexual, estamos a dizer que deve existir alguma deficiência no nosso sistema de ensino, na educação que damos aos nossos filhos, em relação ao tema da sexualidade. Se existe falta de educação; corrigimos: se existe falta de informação especializada e clara acerca do que é a sexualidade, então é certo que esta informação tem forçosamente que ser dada a todos - não estamos a falar só de currículos escolares que são avaliados melhor ou pior com exames ou provas de aferição, estamos a falar de informação fundamental para toda a gente, e que diz respeito a essa vertente tão nossa e pessoal que é a nossa sexualidade. Identificado o problema, e tendo posto muito claramente a tónica na deficiência que se vive no nosso sistema de ensino - e sublinhe-se que esta deficiência está longe de se restringir faltas de informação a este nível - , é preciso agora definir muito clara e objectivamente o que é que se entende por educação sexual. Informação é precisa, é certo. Mas sobre o quê? Em que aspectos? Quando falamos em sexualidade estamos a falar em quê? Se formos à Psicologia, podemos dizer que estamos falando de processos mentais, emoções, sentimentos, afectos, o amor; mas também de comportamentos: de identidade sexual, de relações sexuais, da própria fisiologia do nosso organismo. E também podemos concordar com o facto de que estas questões, embora extremamente complexas e só plenamente compreendidas à luz de uma psicologia global e integrada da pessoa por inteiro, radicam exactamente na biologia do corpo de cada um. Como estas questões radicam na biologia do corpo, então elas são parte integrante da Biologia, a disciplina científica que estuda a vida. Como tal, o primeiro passo a dar para erradicar qualquer falta de informação ou desinformação que exista, é simplesmente garantir que toda a gente tem uma noção das características do seu próprio sistema reprodutor. Essa é a base a partir da qual se podem construir as aprendizagens de temáticas mais complexas que estão agrupadas na Psicologia. Assim, o segundo passo será conseguir incluir nos currículos escolares não só informação acerca do sistema reprodutor humano como também informação acerca daquilo que envolve a nossa própria sexualidade, e que é muito mais vasta que o nosso sistema reprodutor. É imprescindível analisar tão claramente quanto possível a natureza, ou as características, do impulso sexual - e para isso temos as teorias da motivação de Maslow, as teorias do desenvolvimento psicossexual de Freud, as análises estatísticas de Kinsey, as teorias do desenvolvimento psicossocial de Erikson, para não falar dos estudos sobre a vinculação, adolescência e personalidade. Todos estes temas devem ser parte integrante da instrução de um adolescente. Todos estes temas precisam de ser bem explorados e analisados porque são completamente imprescindíveis para a compreensão de si próprio e do mundo.
Ter como desejo mais elevado a publicação de um best-seller só pode ser um desejo capitalista abstruso, uma mutilação da verdadeira cultura, um hino à ignorância pop. A história mostra-nos que as grandes obras, as verdadeiras mais brilhantes e geniais obras, foram as menos populares, as mais reprimidas, as severamente motejadas. Passarão ainda muitos anos até que as pessoas compreendam a grandeza do recolhimento de Pessoa, a audácia no discurso do Agostinho da Silva, a genialidade de um Umberto Eco, a poesia de um Italo Calvino.
sábado, 10 de maio de 2008
quarta-feira, 7 de maio de 2008
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Como cultivar a Ciência em Portugal?
1. Identificar quais os locais onde presentemente se faz Ciência e os cientistas que lá desenvolvem o seu trabalho. Qualquer medida que se tente implementar sem uma plena consciência da realidade científica de um país é uma medida sem fundamento. Uma vez conhecidas as condições que já existem, tomar medidas para fomentar essa que deve ser uma base de partida inicial: fundos para a manutenção das instituições que já existem, bolsas de investigação para cientistas já estabelecidos, instrução pós-graduada de cientistas.
2. Uma vez assegurado um pano de fundo de investigação científica que se consiga desenrolar segundo a sua própria dinâmica, é preciso avaliar qual a proporção de cientistas que sai duma universidade e não tem emprego onde desenvolver as suas actividades. O passo seguinte será então assegurar que a continuidade que foi assegurada dentro de apenas uma geração de cientistas pode transbordar para as próximas gerações de cientistas. Assim, o que é preciso é dar bolsas de investigação para que os novos cientistas possam começar, criar parcerias entre as universidades e as instituições, estabelecer programas para desenvolver teses de mestrado e doutoramento que sejam facilmente articuláveis entre essas diferentes instâncias. Por outro lado, a nível das instituições, é preciso pensar seriamente na reestruturação: primeiro começar pela reorganização do espaço que já existe, depois pela ampliação que for possível dos espaços que já existem; e havendo, assim, lugares disponíveis para serem ocupados, avançar com esses programas de intercâmbio universidade-instituição. A última hipótese a considerar será certamente a de se construirem laboratórios novos, e essa só é levada a cabo se a oferta não conseguir de forma alguma suportar a procura.
3. Finalmente, garantindo uma conservação do que já existe, é tempo de pensar em dar a informação necessária, e que seja relevante e construtiva, às novas gerações. O objectivo aqui não será atrair quem quer que seja para a investigação científica; o que se pretende é dar a conhecer o que existe, e as suas características, da forma mais livre e espontânea que nos for possível, para que todos aqueles que queiram - e aqui está o cerne de todo o sistema de ensino: a motivação em aprender - seguir uma carreira científica a possam seguir. Trata-se de instrução e não - e nunca! - educação.
Assim, porquê pôr tanta importância em modificar o actual sistema de ensino se as medidas que visam as gerações mais recentes não são a prioridade com que nos devemos ocupar em primeiro lugar? Há uma razão bastante simples e clara para isso: é que o sistema de educação não pára! Mesmo enquanto aqui falamos, centenas e centenas de jovens estão na escola a levar com a educação que prepararam para eles. Isto é, enquanto tentamos implementar essas primeiras medidas, de acordo com o que expusémos, os alunos vão continuar a ser educados à maneira antiga, com programas de qualidade duvidosa, e sendo obrigados a decorar dúzias de factos sem relação entre si. Portanto, porque não tentar pôr a motivação de cada um a seguir o seu próprio destino logo desde o início? Quem sabe se essas medidas não nos permitem chegar mais depressa à meta... Mas também nos deparamos com outro problema, que é o de saber por onde começar. Ainda assim, podemos também aqui seguir pelo caminho mais simples, que é por onde se deve realmente começar antes de tentar realizar os grandes ideais: uma medida muito simples que poderia pôr rapidamente o mundo a funcionar melhor pelas escolas era exactamente a elaboração de manuais escolares, com uma orientação pedagógica bem definida, em que os assuntos fossem apresentados o mais objectivamente possível numa perspectiva diacrónica, ou evolutiva - se se preferir assim chamar. Isto é, o que é preciso é dar relevo às situações e aos aspectos que foram realmente importantes ao longo da história ou da evolução do conhecimento de uma determinada área do saber. Esta medida terá certamente ainda de ser complementada com uma nova visão da aprendizagem que terá de ser transmitida aos futuros professores das novas gerações. Mas essa será a parte mais difícil do processo...
2. Uma vez assegurado um pano de fundo de investigação científica que se consiga desenrolar segundo a sua própria dinâmica, é preciso avaliar qual a proporção de cientistas que sai duma universidade e não tem emprego onde desenvolver as suas actividades. O passo seguinte será então assegurar que a continuidade que foi assegurada dentro de apenas uma geração de cientistas pode transbordar para as próximas gerações de cientistas. Assim, o que é preciso é dar bolsas de investigação para que os novos cientistas possam começar, criar parcerias entre as universidades e as instituições, estabelecer programas para desenvolver teses de mestrado e doutoramento que sejam facilmente articuláveis entre essas diferentes instâncias. Por outro lado, a nível das instituições, é preciso pensar seriamente na reestruturação: primeiro começar pela reorganização do espaço que já existe, depois pela ampliação que for possível dos espaços que já existem; e havendo, assim, lugares disponíveis para serem ocupados, avançar com esses programas de intercâmbio universidade-instituição. A última hipótese a considerar será certamente a de se construirem laboratórios novos, e essa só é levada a cabo se a oferta não conseguir de forma alguma suportar a procura.
3. Finalmente, garantindo uma conservação do que já existe, é tempo de pensar em dar a informação necessária, e que seja relevante e construtiva, às novas gerações. O objectivo aqui não será atrair quem quer que seja para a investigação científica; o que se pretende é dar a conhecer o que existe, e as suas características, da forma mais livre e espontânea que nos for possível, para que todos aqueles que queiram - e aqui está o cerne de todo o sistema de ensino: a motivação em aprender - seguir uma carreira científica a possam seguir. Trata-se de instrução e não - e nunca! - educação.
Assim, porquê pôr tanta importância em modificar o actual sistema de ensino se as medidas que visam as gerações mais recentes não são a prioridade com que nos devemos ocupar em primeiro lugar? Há uma razão bastante simples e clara para isso: é que o sistema de educação não pára! Mesmo enquanto aqui falamos, centenas e centenas de jovens estão na escola a levar com a educação que prepararam para eles. Isto é, enquanto tentamos implementar essas primeiras medidas, de acordo com o que expusémos, os alunos vão continuar a ser educados à maneira antiga, com programas de qualidade duvidosa, e sendo obrigados a decorar dúzias de factos sem relação entre si. Portanto, porque não tentar pôr a motivação de cada um a seguir o seu próprio destino logo desde o início? Quem sabe se essas medidas não nos permitem chegar mais depressa à meta... Mas também nos deparamos com outro problema, que é o de saber por onde começar. Ainda assim, podemos também aqui seguir pelo caminho mais simples, que é por onde se deve realmente começar antes de tentar realizar os grandes ideais: uma medida muito simples que poderia pôr rapidamente o mundo a funcionar melhor pelas escolas era exactamente a elaboração de manuais escolares, com uma orientação pedagógica bem definida, em que os assuntos fossem apresentados o mais objectivamente possível numa perspectiva diacrónica, ou evolutiva - se se preferir assim chamar. Isto é, o que é preciso é dar relevo às situações e aos aspectos que foram realmente importantes ao longo da história ou da evolução do conhecimento de uma determinada área do saber. Esta medida terá certamente ainda de ser complementada com uma nova visão da aprendizagem que terá de ser transmitida aos futuros professores das novas gerações. Mas essa será a parte mais difícil do processo...
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