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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A Nova Universidade

Desde a Montessori de 1959 terá alguma coisa mudado nestes quase 50 anos que nos separam? O que há a fazer em relação a toda esta situação? É simples: a velha universidade tem que ser completamente destruída, para que se possa construir a Nova Universidade.

Essa Nova Universidade será, antes de mais, uma Universidade Livre: livre primeiramente em termos de currículos e obrigações, para que cada um possa escolher livremente aquilo que quer aprender da maneira como melhor lhe convier; e futuramente uma universidade que seja gratuita para toda a gente, uma universidade em que o peso do económico deixe de existir e onde qualquer um possa entrar lá e de lá sair de acordo com o seu caminho, no pleno exercício de toda a sua liberdade. Esse é o “espírito da universidade”. Mas isso só também não chega. É preciso pular para além das inacessíveis cátedras disto ou daquilo e destruir todas as paredes que prenderem o conhecimento dos investigadores científicos aos seus pequenos e limitados laboratórios. A Universidade do futuro será aquela que construirá tantas pontes quantas as pessoas que dela quiserem beber o seu conhecimento. É preciso divulgar o que se faz nos laboratórios, e é preciso ainda divulgar aquilo que já se fez.

Dar a conhecer a ciência a todos é essencialmente duas coisas diferentes: primeiro, é querer ensinar, é querer transmitir aquilo que já se sabe a quem queira ouvir; depois, é ensinar da melhor maneira, é ter uma atitude pedagógica que permita com que o ouvinte ou os ouvintes consigam entender aquilo que lhes é dito da maneira mais clara possível. E que não signifique isto, em nenhum momento, um afrouxamento ou simplificação daquilo que se ensina: clarificar é tornar límpido, não alterar a natureza, seja ela simples ou complexa, daquilo que se quer transmitir. Este é um grande exercício, e um grande desafio para os homens do nosso tempo. É necessário não só ter um conhecimento específico acerca da ciência e da sua área particular de investigação, mas também da melhor maneira de transmitir esse conhecimento, de tornar compreensível, de desmistificar, de tornar claro como qualquer geometria aquilo que se faz: é esta, na verdade, uma questão de adaptação do orador ao auditório: é o único modo possível de ensinar. É por isso que as escolas, ou as universidades, se lhes quiserem chamar assim, do futuro, irão regressar ao giz e à ardósia. Só um meio de comunicação que é essencialmente plástico, que permite que o orador se adapte ao auditório pela modificação rápida do modo como ensina ou como representa os conceitos que quer transmitir poderá realmente tornar possível essa grande missão que é ensinar. Toda essa aparelhagem informática de diapositivos electrónicos suportados por programas de multinacionais terá de desaparecer para que as aulas sejam interactivas, para que uma aula seja um momento único e singular de aprendizagem, de contacto, de encontro. Na verdade, trata-se apenas de humanizar o ensino: para que ele deixe de ser ensino e passe a se chamar instrução.

Correlações IV

Maria Montessori (1959)

Os estudantes universitários continuam a assistir a lições, a escutar os professores, a efectuar exames, dos quais depende o êxito da sua carreira...
Na universidade, os homens vivem como crianças, apesar de já serem homens. É aí que deveriam tomar consciência das suas responsabilidades (...). Em vez disso, dão provas, em geral, de falta de consciência; têm uma ideia falsa da vida. Não se pode esperar que tais homens contribuam para melhorar a sociedade...

Nos nossos dias, a civilização e a cultura transmitem-se por meios cada vez mais vastos e mais fáceis. A cultura é divulgada pela imprensa e por meios de comunicação rápidos que estabelecem uma espécie de nivelamento universal.
Assim, as universidades tornaram-se a pouco e pouco simples escolas profissionais, em que só o grau de cultura é superior ao das outras escolas. Mas perderam o sentido da sua dignidade e da sua grandeza que fazia delas (na Idade Média) um instrumento central para o progresso e a civilização.

Os estudantes universitários cujo objectivo é apenas obter um obscuro emprego pessoal já não podem ter consciência desta missão que criava outrora o «espírito da universidade». O simples desejo de trabalhar o menos possível, de passar custe o que custar nos exames e de obter o diploma que servirá o interesse pessoal de cada um tornou-se o móbile essencial, comum aos estudantes. De tal modo que ao progresso da cultura que transformou a existência correspondeu a decadência das instituições universitárias. Os verdadeiros centros de progresso estabeleceram-se nos laboratórios dos investigadores científicos, que são lugares fechados, estranhos à cultura comum.




Agostinho da Silva (actualidade)

Todas as universidades deviam empurrar o sujeito a ser autodidacta. Deviam ter um ambiente tal que aquele que não se instruísse por ele próprio estava mal. Mas o que acontece é que os sujeitos vão para ouvir o professor, decorar o mais possível, portar-se bem na aula, fazer uma tese, se for caso disso, e pronto, está o caso arrumado…