por Antero de Quental
Meus Senhores:
A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força gloriosa e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo. Como peninsular, sinto profundamente ter de afirmar, numa assembleia de peninsulares, esta desalentadora evidência. Mas, se não reconhecermos e confessarmos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva? O pecador humilha-se diante do seu Deus, num sentido acto de contrição, e só assim é perdoado. Façamos nós também, diante do espírito de verdade, o acto de contrição pelos nossos pecados históricos, porque só assim nos poderemos emendar e regenerar.
(...) As ideias, porém, não são felizmente o único laço com que se ligam entre si os espíritos dos homens. Independente delas, se não acima delas, existe para todas as consciências rectas, sinceras, leais, no meio da maior divergência de opiniões, uma fraternidade moral, fundada na mútua tolerância e no mútuo respeito, que une todos os espíritos numa mesma comunhão - o amor e a procura desinteressada da verdade. (...) É para essa comunhão moral que eu apelo. E apelo para ela confiadamente, porque, sentindo-me dominado por esse sentimento de respeito e caridade universal, não posso crer que haja aqui alguém que duvide da minha boa-fé, e se recuse a acompanhar-me neste caminho de lealdade e tolerância.
(...) não pretendemos impor as nossas opiniões, mas simplesmente expô-las: não pedimos a adesão das pessoas que nos escutam; pedimos só a discussão: essa discussão, longe de nos assustar, é o que mais desejamos, porque; ainda que dela resultasse a condenação das nossas ideias, contanto que essa condenação fosse justa e inteligente, ficaríamos contentes, tendo contribuído, posto que indirectamente, para a publicação de algumas verdades.
Ora, isto é que é um homem. É como herdeiros desta tradição de consciências atentas e mentes brilhantes que batalhamos nesta nossa luta, a luta contra a ignorância. E disse dela Agostinho que era uma luta contra a carência, podendo nós facilmente concordar com tal alternativa sabendo que toda a ignorância, da mais profunda à mais ligeira, representa ela mesma uma carência de visão; mas nunca, e jamais, de inteligência. É por isso que o plano terá forçosamente de começar pela instrução. A instrução permitirá aos homens agilizar-lhes a visão, fazê-los descobrir, de entre as suas profundezas, a sua própria inteligência criadora. A reforma terá naturalmente que começar pelas universidades. É necessário que os professores das futuras gerações tenham consciências bem abertas para aquilo que significa o ensino, e para a pedagogia que é necessária para que os alunos descubram e relacionem os vários aspectos da cultura, e sobretudo da sua, sempre com um pensamento agudo e crítico. O objectivo será encerrar para sempre os exames nacionais em que é exigido aos alunos que decorem pormenores de somenos importância e os debitem a contra-relógio. Essas provas podem ser adequadas à maratona; não o serão certamente numa perspectiva instrutiva e criadora. Uma vez realizado um novo ensino universitário para os futuros professores das futuras gerações, é preciso reformar os conteúdos que esses mesmos professores vão transmitir aos alunos. O objectivo é, agora, de dar conteúdo verdadeiro, e não apenas forma, àquilo que se ensina; e o papel da história vai ser aí absolutamente fundamental. Todas as disciplinas, da mais artística à mais científica, vão ser unificadas por aquilo que todas têm em comum, que é a história. Esta situação prefigura a abolição das disciplinas do secundário que acontecerá no futuro (esperemos não distante), posto que tudo existe interligado e nada se pode separar. A interdisciplinaridade, a transdisciplinaridade, só vai ser possível quando todas as disciplinas secundárias seguirem o curso da história, tomando a perspectiva diacrónica, que constitui, de todas, a mais adequada para compreender a evolução da cultura e do pensamento humanos. A instrução será cultural, e falar-se-á, em cada um dos três anos do ensino secundário, numa determinada porção da cultura portuguesa e mundial das Ciências às Artes. Nada estará separado. As interligações serão tantas, incontáveis as conexões entre saberes e experiências, que será impossível decorar seja o que for. Cultivando a instrução e a comparação de diferentes perspectivas na evolução da cultura, seja ela artística ou científica, os testes serão provas temporárias da união cultural emergente. Será impossível copiar o que não se entendeu, e será dado o espaço para que cada aluno possa fazer a sua própria análise daquilo que ouviu e aprendeu, tudo no sentido de construir um melhor amanhã.
Tratado da Instrução Futura
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terça-feira, 12 de agosto de 2008
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
O melhor da televisão portuguesa

Conta-me Como Foi é provavelmente a melhor série portuguesa feita nos últimos tempos. Com um humor extremamente inteligente, cativante pela sua complexa simplicidade, consegue mostrar-nos um retrato daquilo que foi viver em Portugal no final da ditadura salazarista; perdão, salazarenta. O título tem uma cadência musical tão característica da nossa língua portuguesa que pode mesmo servir como a síntese do seu brilhantismo. Como outros já o escreveram, esta série não mostra mais carne que a das mamas da República, não mostra mais coxa do que aquela que a mini-saia permite ver. Mostra-nos, isso sim, a imaginação da criança, em toda a sua originalidade e imprevisibilidade. Mostra-nos os dizeres portugueses mais corriqueiros e esquecidos da história, e que afinal fazem tanta diferença na boca e na mente das personagens. E mostra-nos sobretudo aquela que é, sem sombra de dúvida, uma das maiores actrizes portuguesas da actualidade: Rita Blanco. Os outros não se saem mal, especialmente o Miguel Guilherme, mas não há pessoa mais autêntica que a Rita Blanco.
A grandiosidade desta série está na ironia da aproximação entre os diálogos das personagens de '68 e os diálogos que se podem ouvir hoje em qualquer rua do país. Afinal, o que terá mudado? E o que não mudou? Extremamente fiel à realidade histórica, esta série é uma janela aberta para a compreensão do Portugal que temos hoje, para a realidade quotidiana de cada um. E depois temos aqueles pormenores deliciosos, como o facto da Maria Isabel ter ido assistir à representação do musical Hair enquanto esteve em Londres e ter trazido um cartaz que até meteu no quarto, e que surge no plano mais banal e natural de uma cena.
A RTP1 fez-nos um grande favor em repôr a série nestas férias. Sobretudo a mim, que não a consegui apanhar quando passou pela primeira vez e que agora posso ver um episódio por dia. Um luxo.
E o mais incrível é que existe uma petição para que a RTP1 lance os episódios em DVD. Uma excelente ideia. Não que a petição seja imprescindível, ou que leve mesmo à comercialização da série; mas sobretudo para mostrar um sinal de apreço em relação àqueles que batalham incansavelmente em prol da cultura portuguesa.
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