Parece-me bastante ridículo esse termo que por aí certas personagens andam apregoando para tentar caracterizar este nosso tempo de globalização promíscua centrada na ditadura económica. Se chamam a isto pós-moderno é certamente porque não têm a imaginação criadora que permite fazer sair sempre novos coelhos da cartola. Pós-moderno é aquilo que vem depois do Modernismo. E isso, o que é?
A incapacidade que existe em nomear algo novo, algo que surja para levar a cultura da humanidade a dar um passo em frente, deve-se também à diversidade, por vezes excessiva, de ideias que andam por aí soltas.
Depois do final do Império Grego, é a tecnologia, e não a reflexão filosófica, que comanda o avanço da cultura do Império Romano. Assim, a maior parte dos criadores que habitam este neo-império romano atem-se aos desenvolvimentos tecnológicos e cria, a partir dos novos objectos físicos que vão surgindo, e das teorias científicas que vão sendo construídas para explicar novos resultados nunca antes suspeitados, uma extensa análise reflexiva, aplicada sobretudo à vertente ética do seu uso, numa perspectiva mais aplicada, mais costumeira, mais prática.
Existem, porém, alguns rasgos de génio que teimam em marcar a diferença, primando sempre pela sacudidela mental que faz desempoeirar a consciência, e instá-la a evoluir tão depressa como os estímulos da sensibilidade que nela rapidamente se sucedem.
O Modernismo português surge como bofetada revigorante; mas ainda como resposta ao desenvolvimento tecnológico e industrial: o conceito de força, ideal estético, passa a ocupar o lugar do conceito de harmonia. O artificial sucede-se ao natural.
Porém, vemos já em Álvaro de Campos os sinais de que este ideal estético não se pode efectivar como ideal supremo para o avanço da humanidade. A dessacralização que propõe, a aniquilação da natureza, exterior e interior, de que nós próprios fazemos parte, a imposição da industriosa produtividade em oposição à serenidade contemplativa e estóica; cada um desses aspectos tende inevitavelmente para a auto-destruição. A estética modernista não é, portanto, solução para os males do mundo. A resposta tem de estar noutro lado.
Parece plausível supor que, tendo em conta a época histórica em que vivemos - ainda a de um império romano modificado ou, por outras palavras, levado ao extremo - , a solução não vá surgir de outro local que não a tecnologia ou o conhecimento científico. E, neste ponto, surge algo extremamente curioso: é que a área científica que mais irá avançar no século XXI será, sem sombra de dúvida, a Biologia; e esta área do conhecimento científico é aquela que estuda mais de perto a natureza em todo o seu esplendor orgânico, isto é, considerando os organismos como totalidades organizadas, em toda a sua complexidade. Estas considerações abrem caminho para a superação do conflito com a natureza instaurada pelos modernistas, voltando, de novo, a instaurar como ideal estético superior a harmonia natural; agora porém surge ela compreendida como resultado de uma miríade de factores que, em conjunto, permitem o funcionamento de uma entidade complexa. Esta ideia vai ser muito importante para todo a futura reflexão sobre os sistemas biológicos e sobre a consideração do conceito de vida.
São certamente os desenvolvimentos da Biologia, e sobretudo da Ecologia e da Evolução, que vão trazer o tema da integração simbiótica dos seres vivos na biosfera, no mundo, e, talvez valendo mais para o lado da física e até da metafísica, no universo.
Aqui se propõe que o novo movimento cultural, histórico, e também científico, se chame o Simbiontismo.
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quarta-feira, 20 de agosto de 2008
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Causas da decadência dos povos penínsulares nos últimos três séculos
por Antero de Quental
Meus Senhores:
A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força gloriosa e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo. Como peninsular, sinto profundamente ter de afirmar, numa assembleia de peninsulares, esta desalentadora evidência. Mas, se não reconhecermos e confessarmos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva? O pecador humilha-se diante do seu Deus, num sentido acto de contrição, e só assim é perdoado. Façamos nós também, diante do espírito de verdade, o acto de contrição pelos nossos pecados históricos, porque só assim nos poderemos emendar e regenerar.
(...) As ideias, porém, não são felizmente o único laço com que se ligam entre si os espíritos dos homens. Independente delas, se não acima delas, existe para todas as consciências rectas, sinceras, leais, no meio da maior divergência de opiniões, uma fraternidade moral, fundada na mútua tolerância e no mútuo respeito, que une todos os espíritos numa mesma comunhão - o amor e a procura desinteressada da verdade. (...) É para essa comunhão moral que eu apelo. E apelo para ela confiadamente, porque, sentindo-me dominado por esse sentimento de respeito e caridade universal, não posso crer que haja aqui alguém que duvide da minha boa-fé, e se recuse a acompanhar-me neste caminho de lealdade e tolerância.
(...) não pretendemos impor as nossas opiniões, mas simplesmente expô-las: não pedimos a adesão das pessoas que nos escutam; pedimos só a discussão: essa discussão, longe de nos assustar, é o que mais desejamos, porque; ainda que dela resultasse a condenação das nossas ideias, contanto que essa condenação fosse justa e inteligente, ficaríamos contentes, tendo contribuído, posto que indirectamente, para a publicação de algumas verdades.
Ora, isto é que é um homem. É como herdeiros desta tradição de consciências atentas e mentes brilhantes que batalhamos nesta nossa luta, a luta contra a ignorância. E disse dela Agostinho que era uma luta contra a carência, podendo nós facilmente concordar com tal alternativa sabendo que toda a ignorância, da mais profunda à mais ligeira, representa ela mesma uma carência de visão; mas nunca, e jamais, de inteligência. É por isso que o plano terá forçosamente de começar pela instrução. A instrução permitirá aos homens agilizar-lhes a visão, fazê-los descobrir, de entre as suas profundezas, a sua própria inteligência criadora. A reforma terá naturalmente que começar pelas universidades. É necessário que os professores das futuras gerações tenham consciências bem abertas para aquilo que significa o ensino, e para a pedagogia que é necessária para que os alunos descubram e relacionem os vários aspectos da cultura, e sobretudo da sua, sempre com um pensamento agudo e crítico. O objectivo será encerrar para sempre os exames nacionais em que é exigido aos alunos que decorem pormenores de somenos importância e os debitem a contra-relógio. Essas provas podem ser adequadas à maratona; não o serão certamente numa perspectiva instrutiva e criadora. Uma vez realizado um novo ensino universitário para os futuros professores das futuras gerações, é preciso reformar os conteúdos que esses mesmos professores vão transmitir aos alunos. O objectivo é, agora, de dar conteúdo verdadeiro, e não apenas forma, àquilo que se ensina; e o papel da história vai ser aí absolutamente fundamental. Todas as disciplinas, da mais artística à mais científica, vão ser unificadas por aquilo que todas têm em comum, que é a história. Esta situação prefigura a abolição das disciplinas do secundário que acontecerá no futuro (esperemos não distante), posto que tudo existe interligado e nada se pode separar. A interdisciplinaridade, a transdisciplinaridade, só vai ser possível quando todas as disciplinas secundárias seguirem o curso da história, tomando a perspectiva diacrónica, que constitui, de todas, a mais adequada para compreender a evolução da cultura e do pensamento humanos. A instrução será cultural, e falar-se-á, em cada um dos três anos do ensino secundário, numa determinada porção da cultura portuguesa e mundial das Ciências às Artes. Nada estará separado. As interligações serão tantas, incontáveis as conexões entre saberes e experiências, que será impossível decorar seja o que for. Cultivando a instrução e a comparação de diferentes perspectivas na evolução da cultura, seja ela artística ou científica, os testes serão provas temporárias da união cultural emergente. Será impossível copiar o que não se entendeu, e será dado o espaço para que cada aluno possa fazer a sua própria análise daquilo que ouviu e aprendeu, tudo no sentido de construir um melhor amanhã.
Tratado da Instrução Futura
Meus Senhores:
A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força gloriosa e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo. Como peninsular, sinto profundamente ter de afirmar, numa assembleia de peninsulares, esta desalentadora evidência. Mas, se não reconhecermos e confessarmos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva? O pecador humilha-se diante do seu Deus, num sentido acto de contrição, e só assim é perdoado. Façamos nós também, diante do espírito de verdade, o acto de contrição pelos nossos pecados históricos, porque só assim nos poderemos emendar e regenerar.
(...) As ideias, porém, não são felizmente o único laço com que se ligam entre si os espíritos dos homens. Independente delas, se não acima delas, existe para todas as consciências rectas, sinceras, leais, no meio da maior divergência de opiniões, uma fraternidade moral, fundada na mútua tolerância e no mútuo respeito, que une todos os espíritos numa mesma comunhão - o amor e a procura desinteressada da verdade. (...) É para essa comunhão moral que eu apelo. E apelo para ela confiadamente, porque, sentindo-me dominado por esse sentimento de respeito e caridade universal, não posso crer que haja aqui alguém que duvide da minha boa-fé, e se recuse a acompanhar-me neste caminho de lealdade e tolerância.
(...) não pretendemos impor as nossas opiniões, mas simplesmente expô-las: não pedimos a adesão das pessoas que nos escutam; pedimos só a discussão: essa discussão, longe de nos assustar, é o que mais desejamos, porque; ainda que dela resultasse a condenação das nossas ideias, contanto que essa condenação fosse justa e inteligente, ficaríamos contentes, tendo contribuído, posto que indirectamente, para a publicação de algumas verdades.
Ora, isto é que é um homem. É como herdeiros desta tradição de consciências atentas e mentes brilhantes que batalhamos nesta nossa luta, a luta contra a ignorância. E disse dela Agostinho que era uma luta contra a carência, podendo nós facilmente concordar com tal alternativa sabendo que toda a ignorância, da mais profunda à mais ligeira, representa ela mesma uma carência de visão; mas nunca, e jamais, de inteligência. É por isso que o plano terá forçosamente de começar pela instrução. A instrução permitirá aos homens agilizar-lhes a visão, fazê-los descobrir, de entre as suas profundezas, a sua própria inteligência criadora. A reforma terá naturalmente que começar pelas universidades. É necessário que os professores das futuras gerações tenham consciências bem abertas para aquilo que significa o ensino, e para a pedagogia que é necessária para que os alunos descubram e relacionem os vários aspectos da cultura, e sobretudo da sua, sempre com um pensamento agudo e crítico. O objectivo será encerrar para sempre os exames nacionais em que é exigido aos alunos que decorem pormenores de somenos importância e os debitem a contra-relógio. Essas provas podem ser adequadas à maratona; não o serão certamente numa perspectiva instrutiva e criadora. Uma vez realizado um novo ensino universitário para os futuros professores das futuras gerações, é preciso reformar os conteúdos que esses mesmos professores vão transmitir aos alunos. O objectivo é, agora, de dar conteúdo verdadeiro, e não apenas forma, àquilo que se ensina; e o papel da história vai ser aí absolutamente fundamental. Todas as disciplinas, da mais artística à mais científica, vão ser unificadas por aquilo que todas têm em comum, que é a história. Esta situação prefigura a abolição das disciplinas do secundário que acontecerá no futuro (esperemos não distante), posto que tudo existe interligado e nada se pode separar. A interdisciplinaridade, a transdisciplinaridade, só vai ser possível quando todas as disciplinas secundárias seguirem o curso da história, tomando a perspectiva diacrónica, que constitui, de todas, a mais adequada para compreender a evolução da cultura e do pensamento humanos. A instrução será cultural, e falar-se-á, em cada um dos três anos do ensino secundário, numa determinada porção da cultura portuguesa e mundial das Ciências às Artes. Nada estará separado. As interligações serão tantas, incontáveis as conexões entre saberes e experiências, que será impossível decorar seja o que for. Cultivando a instrução e a comparação de diferentes perspectivas na evolução da cultura, seja ela artística ou científica, os testes serão provas temporárias da união cultural emergente. Será impossível copiar o que não se entendeu, e será dado o espaço para que cada aluno possa fazer a sua própria análise daquilo que ouviu e aprendeu, tudo no sentido de construir um melhor amanhã.
Tratado da Instrução Futura
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quarta-feira, 6 de agosto de 2008
O melhor da televisão portuguesa

Conta-me Como Foi é provavelmente a melhor série portuguesa feita nos últimos tempos. Com um humor extremamente inteligente, cativante pela sua complexa simplicidade, consegue mostrar-nos um retrato daquilo que foi viver em Portugal no final da ditadura salazarista; perdão, salazarenta. O título tem uma cadência musical tão característica da nossa língua portuguesa que pode mesmo servir como a síntese do seu brilhantismo. Como outros já o escreveram, esta série não mostra mais carne que a das mamas da República, não mostra mais coxa do que aquela que a mini-saia permite ver. Mostra-nos, isso sim, a imaginação da criança, em toda a sua originalidade e imprevisibilidade. Mostra-nos os dizeres portugueses mais corriqueiros e esquecidos da história, e que afinal fazem tanta diferença na boca e na mente das personagens. E mostra-nos sobretudo aquela que é, sem sombra de dúvida, uma das maiores actrizes portuguesas da actualidade: Rita Blanco. Os outros não se saem mal, especialmente o Miguel Guilherme, mas não há pessoa mais autêntica que a Rita Blanco.
A grandiosidade desta série está na ironia da aproximação entre os diálogos das personagens de '68 e os diálogos que se podem ouvir hoje em qualquer rua do país. Afinal, o que terá mudado? E o que não mudou? Extremamente fiel à realidade histórica, esta série é uma janela aberta para a compreensão do Portugal que temos hoje, para a realidade quotidiana de cada um. E depois temos aqueles pormenores deliciosos, como o facto da Maria Isabel ter ido assistir à representação do musical Hair enquanto esteve em Londres e ter trazido um cartaz que até meteu no quarto, e que surge no plano mais banal e natural de uma cena.
A RTP1 fez-nos um grande favor em repôr a série nestas férias. Sobretudo a mim, que não a consegui apanhar quando passou pela primeira vez e que agora posso ver um episódio por dia. Um luxo.
E o mais incrível é que existe uma petição para que a RTP1 lance os episódios em DVD. Uma excelente ideia. Não que a petição seja imprescindível, ou que leve mesmo à comercialização da série; mas sobretudo para mostrar um sinal de apreço em relação àqueles que batalham incansavelmente em prol da cultura portuguesa.
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sábado, 19 de julho de 2008
Porque é que o programa de Português é hoje obsoleto?
Quando eu era aluno do secundário, uma das poucas coisas que me agradava era o modo como o programa de português estava construído. Do 10º ano ao 12º tudo fazia sentido: começava-se pelos inícios da literatura, ou do registo escrito, que está na tradição oral dos contos populares; caminhava-se então para o nascimento daquilo a que academicamente se pode chamar o registo escrito português ou galaico-português, que dança para os lados dos cancioneiros medievais com as suas cantigas para amigos, amores e escárnios; passava-se pela história da literatura como pelo contexto histórico na qual surgiu, e do qual depende, irredutivelmente, tal como a ciência e todas as outras formas de arte. Depois do grande Gil Vicente, renascia-se no gosto pela cultura grega que mostrava em Camões e em tantos outros o seu brilhantismo; passava-se, já no 11º, pelo Barroco desse gigante que é Vieira, pelo Neoclassicismo que transita das Arcádias para o nosso Bocage, caminhando inevitavelmente para a natureza do Romantismo que encontrou em Garrett sua expressão portuguesa, e sem esquecer o grande contributo de Herculano para a história nacional. Hercúleo também fora o nosso Eça com suas descrições realistas exímias, Ortigão com as suas Farpas bem cravadas na moral das consciências; e impressionando subjectivamente, o nosso Cesário que abria caminho a todo esse desenvolvimento cultural do século XX, palco de profundas transformações. Todo este passado glorioso e riquíssimo em cultura tem vindo a ser trucidado pelas políticas educativas - que tanto têm de educativo e tão pouco de instrutivo. Para ter uma noção do anacronismo que é o actual programa de português, pegue-se no 12º ano, e analise-se aquilo que é exigido decorar pelo Ministério de quem lá manda.
PROGRAMA DO 12º ANO
"Textos informativos diversos"
- WTF is this?? E o que é que isto faz aqui?!
"Textos líricos" - Fernando Pessoa ortónimo e heterónimos
poesia do século XX. modernismo. monarquia. república. ditadura
"Textos épicos e épico-literários" - Camões e Pessoa: Os Lusíadas e Mensagem
ah a Mensagem é um texto épico? Olha a grande novidade! ficava melhor se dissessem que era um texto mítico, porque é justamente isso que representa. Metemos então no mesmo saco a análise a uma obra sobre o passado, como o é a do Camões, e a análise a uma obra sobre o futuro, como o é a do Pessoa. Deve ser engraçado tentar comparar coisas que não podem ser comparadas. Dois contextos históricos completamente distintos, separados por cerca de 400 anos... Duas obras completamente diferentes.
"Textos de teatro" (de teatro ou dramáticos?) - Sttau Monteiro, Felizmente há luar!
portanto, uma peça de teatro épico no contexto de século XX; clima de oposição à ditadura salazarista que faz um paralelo com os episódios da ocupação inglesa do pós-napoleão no século XIX; tudo isto sem um fio condutor que o organize, sendo apenas uma sucessão descoordenada de momentos, personagens e ideias
"Textos narrativos" - Saramago, Memorial do Convento
que é uma narrativa também do século XX, mas contando uma história que se passa por volta da centúria de setecentos, numa linguagem completamente diferente daquilo a que estamos habituados; e mais uma vez totalmente descoordenada da contextualização histórica e de uma análise evolutiva que são a única maneira de compreender realmente uma obra...
Em jeito de balanço...
Temos, portanto:
- uma obra do século XVI inserida no Renascimento: Os Lusíadas
- uma obra do século XX que se reporta ao século XVII, Barroco: Memorial do Convento
- uma obra do século XX que se reporta ao século XIX, entre as invasões francesas e as guerras liberais: Felizmente há luar!
- uma obra do século XX entre monarquia, república e ditadura: Mensagem
e é então exigido que os professores ensinem num só ano o significado das estéticas renascentistas, que falem dos Descobrimentos, de D. João II, da estética do Barroco, de D. João V, da passarola (e inovações científicas), das invasões francesas de oitocentos, da ocupação inglesa, do absolutismo e da ditadura, da queda da monarquia, da instauração da república, da ditadura salazarista, do sebastianismo místico e do V Império, de Pessoa e dos heterónimos, do século XX e da actualidade do prémio Nobel da literatura?!?!?! O Ministério de coisa alguma deve pensar que os professores são sobre-humanos para conseguir explicar tudo isto num só ano; e que os alunos são sobre-dotados para conseguirem compreender tudo isto num só ano, e ainda por cima decorar o que irão vomitar no tão badalado Exame Nacional. Portugal é um portento, realmente! Claro que nenhum destes tópicos é explorado numa perspectiva evolutiva, apenas exposto acriticamente de um ponto de vista pseudoliterário e limitado. É isto que é a educação em Portugal, já nem sequer se toma atenção à evolução da cultura e do pensamento. Estamos enterrados em papas amorfas cada vez mais nebulosas que só podem levar ao desinteresse dos alunos por temas em que, de outro modo, poderiam tirar sublime prazer em disfrutar. Esta situação não é só estúpida, é vergonhosa; e mais vergonhosa ainda é a atitude daqueles que não fazem nada para gritar a sua indignação contra este atentado ao que resta da cultura portuguesa. Hoje tiram-nos o contexto histórico para que nos esqueçamos de tudo o que houve e de todos os erros que foram cometidos, amanhã tirar-nos-ão a liberdade de ser português em todos os múltiplos aspectos da nossa identidade única e universal.
MAS ENQUANTO HOUVER UMA VOZ A CUSPIR CONTRA AQUELES QUE QUEREM DESTRUIR A CULTURA PORTUGUESA A BATALHA TERÁ SIDO VENCIDA E A GUERRA ESTARÁ UM PASSO MAIS PRÓXIMA DA VITÓRIA
PROGRAMA DO 12º ANO
"Textos informativos diversos"
- WTF is this?? E o que é que isto faz aqui?!
"Textos líricos" - Fernando Pessoa ortónimo e heterónimos
poesia do século XX. modernismo. monarquia. república. ditadura
"Textos épicos e épico-literários" - Camões e Pessoa: Os Lusíadas e Mensagem
ah a Mensagem é um texto épico? Olha a grande novidade! ficava melhor se dissessem que era um texto mítico, porque é justamente isso que representa. Metemos então no mesmo saco a análise a uma obra sobre o passado, como o é a do Camões, e a análise a uma obra sobre o futuro, como o é a do Pessoa. Deve ser engraçado tentar comparar coisas que não podem ser comparadas. Dois contextos históricos completamente distintos, separados por cerca de 400 anos... Duas obras completamente diferentes.
"Textos de teatro" (de teatro ou dramáticos?) - Sttau Monteiro, Felizmente há luar!
portanto, uma peça de teatro épico no contexto de século XX; clima de oposição à ditadura salazarista que faz um paralelo com os episódios da ocupação inglesa do pós-napoleão no século XIX; tudo isto sem um fio condutor que o organize, sendo apenas uma sucessão descoordenada de momentos, personagens e ideias
"Textos narrativos" - Saramago, Memorial do Convento
que é uma narrativa também do século XX, mas contando uma história que se passa por volta da centúria de setecentos, numa linguagem completamente diferente daquilo a que estamos habituados; e mais uma vez totalmente descoordenada da contextualização histórica e de uma análise evolutiva que são a única maneira de compreender realmente uma obra...
Em jeito de balanço...
Temos, portanto:
- uma obra do século XVI inserida no Renascimento: Os Lusíadas
- uma obra do século XX que se reporta ao século XVII, Barroco: Memorial do Convento
- uma obra do século XX que se reporta ao século XIX, entre as invasões francesas e as guerras liberais: Felizmente há luar!
- uma obra do século XX entre monarquia, república e ditadura: Mensagem
e é então exigido que os professores ensinem num só ano o significado das estéticas renascentistas, que falem dos Descobrimentos, de D. João II, da estética do Barroco, de D. João V, da passarola (e inovações científicas), das invasões francesas de oitocentos, da ocupação inglesa, do absolutismo e da ditadura, da queda da monarquia, da instauração da república, da ditadura salazarista, do sebastianismo místico e do V Império, de Pessoa e dos heterónimos, do século XX e da actualidade do prémio Nobel da literatura?!?!?! O Ministério de coisa alguma deve pensar que os professores são sobre-humanos para conseguir explicar tudo isto num só ano; e que os alunos são sobre-dotados para conseguirem compreender tudo isto num só ano, e ainda por cima decorar o que irão vomitar no tão badalado Exame Nacional. Portugal é um portento, realmente! Claro que nenhum destes tópicos é explorado numa perspectiva evolutiva, apenas exposto acriticamente de um ponto de vista pseudoliterário e limitado. É isto que é a educação em Portugal, já nem sequer se toma atenção à evolução da cultura e do pensamento. Estamos enterrados em papas amorfas cada vez mais nebulosas que só podem levar ao desinteresse dos alunos por temas em que, de outro modo, poderiam tirar sublime prazer em disfrutar. Esta situação não é só estúpida, é vergonhosa; e mais vergonhosa ainda é a atitude daqueles que não fazem nada para gritar a sua indignação contra este atentado ao que resta da cultura portuguesa. Hoje tiram-nos o contexto histórico para que nos esqueçamos de tudo o que houve e de todos os erros que foram cometidos, amanhã tirar-nos-ão a liberdade de ser português em todos os múltiplos aspectos da nossa identidade única e universal.
MAS ENQUANTO HOUVER UMA VOZ A CUSPIR CONTRA AQUELES QUE QUEREM DESTRUIR A CULTURA PORTUGUESA A BATALHA TERÁ SIDO VENCIDA E A GUERRA ESTARÁ UM PASSO MAIS PRÓXIMA DA VITÓRIA
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terça-feira, 15 de julho de 2008
A favor do acordo ortográfico
Se bem que não seja uma prioridade face a tanto outro domínio que necessita tão mais urgentemente de ajuda, a implantação de um acordo ortográfico entre os países da comunidade lusófona seria algo muito interessante para os destinos do mundo. Não faz sentido que o português seja a língua oficial de tanto país e os seus habitantes não se consigam entender porque as grafias não batem certo umas com as outras. Não encontrei ainda nenhum argumento válido que justificasse a manutenção da actual grafia. Se formos ao princípio do século XX, ainda em Portugal se escrevia pharmácia ou bello. A função da língua é facilitar a comunicação, não dificultá-la. A utilização desta ou daquela grafia é apenas uma questão de hábito. A língua evolui como qualquer ser vivo, de acordo com o uso que os poetas lhe dão e também de acordo com o uso que as pessoas lhe dão todos os dias. A língua escrita deve ser intuitiva e facilitar a transcrição daquilo que se diz para aquilo que se escreve. E como já vários o defenderam, e ainda defendem, a grafia brasileira é muito mais prática que a portuguesa - vamos até substituir aqui o prático, que pode ser entendido apenas numa perspectiva capitalista, por outra palavra: diremos que a mudança de grafia torna muito mais intuitivo o modo de escrever. Se o cê de exacto não se lê, para quê escrevê-lo? Exatamente. Se o cê de facto se lê, então mantém-se o facto. Portugal e todas as comunidades lusófonas só têm a ganhar com o facto de se uniformizar a língua para a simplificar: este pode ser o primeiro passo para uma maior aproximação de culturas lusas que do tanto que têm em comum apenas muito pouco têm acarinhado. Além do mais, as grafias das palavras só desaparecem quando as pessoas não as quiserem escrever, não é assim? Elas podem manter-se comodamente como estão num tom mais literário ou erudito; mas para o quotidiano não fazem sentido. E a tendência segue naturalmente a simplificação, não num sentido económico, embora também o exista; mas sobretudo num sentido lógico. Deixemos o exacto para os literatos e filólogos: exatamente escreve-se tão bem como quando lhe púnhamos o cê, e percebe-se melhor. Então para quê complicar? Segue em frente como se diz e já está!
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