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terça-feira, 12 de agosto de 2008

Causas da decadência dos povos penínsulares nos últimos três séculos

por Antero de Quental



Meus Senhores:

A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força gloriosa e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo. Como peninsular, sinto profundamente ter de afirmar, numa assembleia de peninsulares, esta desalentadora evidência. Mas, se não reconhecermos e confessarmos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva? O pecador humilha-se diante do seu Deus, num sentido acto de contrição, e só assim é perdoado. Façamos nós também, diante do espírito de verdade, o acto de contrição pelos nossos pecados históricos, porque só assim nos poderemos emendar e regenerar.


(...) As ideias, porém, não são felizmente o único laço com que se ligam entre si os espíritos dos homens. Independente delas, se não acima delas, existe para todas as consciências rectas, sinceras, leais, no meio da maior divergência de opiniões, uma fraternidade moral, fundada na mútua tolerância e no mútuo respeito, que une todos os espíritos numa mesma comunhão - o amor e a procura desinteressada da verdade. (...) É para essa comunhão moral que eu apelo. E apelo para ela confiadamente, porque, sentindo-me dominado por esse sentimento de respeito e caridade universal, não posso crer que haja aqui alguém que duvide da minha boa-fé, e se recuse a acompanhar-me neste caminho de lealdade e tolerância.

(...) não pretendemos impor as nossas opiniões, mas simplesmente expô-las: não pedimos a adesão das pessoas que nos escutam; pedimos só a discussão: essa discussão, longe de nos assustar, é o que mais desejamos, porque; ainda que dela resultasse a condenação das nossas ideias, contanto que essa condenação fosse justa e inteligente, ficaríamos contentes, tendo contribuído, posto que indirectamente, para a publicação de algumas verdades.


Ora, isto é que é um homem. É como herdeiros desta tradição de consciências atentas e mentes brilhantes que batalhamos nesta nossa luta, a luta contra a ignorância. E disse dela Agostinho que era uma luta contra a carência, podendo nós facilmente concordar com tal alternativa sabendo que toda a ignorância, da mais profunda à mais ligeira, representa ela mesma uma carência de visão; mas nunca, e jamais, de inteligência. É por isso que o plano terá forçosamente de começar pela instrução. A instrução permitirá aos homens agilizar-lhes a visão, fazê-los descobrir, de entre as suas profundezas, a sua própria inteligência criadora. A reforma terá naturalmente que começar pelas universidades. É necessário que os professores das futuras gerações tenham consciências bem abertas para aquilo que significa o ensino, e para a pedagogia que é necessária para que os alunos descubram e relacionem os vários aspectos da cultura, e sobretudo da sua, sempre com um pensamento agudo e crítico. O objectivo será encerrar para sempre os exames nacionais em que é exigido aos alunos que decorem pormenores de somenos importância e os debitem a contra-relógio. Essas provas podem ser adequadas à maratona; não o serão certamente numa perspectiva instrutiva e criadora. Uma vez realizado um novo ensino universitário para os futuros professores das futuras gerações, é preciso reformar os conteúdos que esses mesmos professores vão transmitir aos alunos. O objectivo é, agora, de dar conteúdo verdadeiro, e não apenas forma, àquilo que se ensina; e o papel da história vai ser aí absolutamente fundamental. Todas as disciplinas, da mais artística à mais científica, vão ser unificadas por aquilo que todas têm em comum, que é a história. Esta situação prefigura a abolição das disciplinas do secundário que acontecerá no futuro (esperemos não distante), posto que tudo existe interligado e nada se pode separar. A interdisciplinaridade, a transdisciplinaridade, só vai ser possível quando todas as disciplinas secundárias seguirem o curso da história, tomando a perspectiva diacrónica, que constitui, de todas, a mais adequada para compreender a evolução da cultura e do pensamento humanos. A instrução será cultural, e falar-se-á, em cada um dos três anos do ensino secundário, numa determinada porção da cultura portuguesa e mundial das Ciências às Artes. Nada estará separado. As interligações serão tantas, incontáveis as conexões entre saberes e experiências, que será impossível decorar seja o que for. Cultivando a instrução e a comparação de diferentes perspectivas na evolução da cultura, seja ela artística ou científica, os testes serão provas temporárias da união cultural emergente. Será impossível copiar o que não se entendeu, e será dado o espaço para que cada aluno possa fazer a sua própria análise daquilo que ouviu e aprendeu, tudo no sentido de construir um melhor amanhã.

Tratado da Instrução Futura

sexta-feira, 25 de julho de 2008

A imaginação é a memória que enlouqueceu.
(Mário Quintana)


a imaginação é memória porque não existe nada a que chamemos imaginação que não se encontre primeiro na nossa memória. A imaginação não tem nada de verdadeiramente original, trata-se apenas de uma reorganização dos elementos (das partes) com as quais já tivemos contacto, assim como a imagem de um pégaso resulta da combinação de dois elementos perfeitamente banais que já existiam na imaginação: um cavalo e umas asas. A combinação de diferentes partes é mais sublime quando a loucura se apodera de nós, ou quando a ela estamos mais receptivos. A desordem é a força motriz da imaginação. E a imaginação só não é memória quando de uma nova combinação surge uma propriedade completamente diferente, um princípio emergente.

domingo, 6 de julho de 2008

Um filme não é proporcionalmente grandioso à intensidade dramática dos actores, apenas à mensagem que representa.
O filme, ou a experiência cinematográfica, (que é a única coisa que podemos avaliar: é impossível anular a influência da nossa personalidade na observação de um acontecimento), vale enquanto símbolo ou representação de uma mensagem que transcende o que há no filme de físico e limitado. Portanto, a grandeza dum filme é tanto maior quanto maior é a sua mensagem e o desejo de se tornar mensagem inteligível e contribuir para o avanço da humanidade. A arte cuja função não ultrapassa uma simples contemplação estética da obra física (e não do símbolo) é pura masturbação intelectual e pode ser descartada a qualquer altura sem perigo de detrimento para o observador.

sábado, 5 de julho de 2008

Toda a filosofia que não tenha em conta os mais recentes desenvolvimento científicos é uma filosofia ultrapassada. Se é certo que a filosofia nada pode contra a verificação experimental científica, a verdade é que a ciência pode resolver e já resolveu várias controvérsias filosóficas que surgiram ao longo da história. Conseguimos apontar como exemplos o desenvolvimento da bomba de vácuo e a confirmação experimental de que o vácuo existe - que ele existe, já o sabemos; falta agora saber qual a sua natureza - , os estudos sobre histeria de Charcot e Breuer que mostram ser verdadeira a existência de uma dimensão psíquica que está para além do estado consciente humano, o desenvolvimento de uma termodinâmica assente na ideia de que a entropia do universo cresce sempre em qualquer reacção espontânea e, talvez a mais badalada e importante de todas, especialmente no contexto histórico em que vivemos; a ideia de que a competição entre indivíduos existe e é necessária para a evolução da espécie - que aliás está na base do desenvolvimento da economia capitalista, sobretudo, e que fez surgir outras formas de pensar a economia, como aquelas que ficaram conhecidas por comunismo. Da filosofia pode a ciência aprender a maneira como resolver os impasses racionais a que chega, tanto pela crítica às conclusões que podem ser elaboradas a partir de um resultado experimental como pela consciência dos processos dialécticos de inspiração marcadamente hegeliana que orientam e estruturam a sua evolução conceptual. Mas, de facto, se o filósofo pretende construir um sistema que lhe permita entender como funciona esse éter inominável que liga as diferentes partes de um mundo indiviso, tem forçosamente de olhar para a ciência como fonte das observações e premissas a partir das quais poderá ser reconstruída uma saída, um caminho a direito, para que a humanidade possa evoluir até ultrapassar as mais utópicas idealizações que nos possam discorrer pela mente.