terça-feira, 13 de janeiro de 2009

para quem ainda tem dúvidas













La frontière de l'aube (Philippe Garrel, 2008)

Há desde tempos imemoriais, e tão acentuados por um racionalismo cartesiano, um desejo íntimo - diríamos até inconsciente se não fosse tão idiota - no pensamento francês de querer à viva força comandar os desígnios humanos que mais escapam à racionalidade pela racionalidade. Essas investidas que tantos tiveram o delírio de levar a cabo só podem ser comparadas à situação ridícula que é querer comer sopa de garfo e faca. Já depois de um Kant que critica a plenipotência da razão pura sobre tudo e todos; já depois de um Darwin a apresentar tantos argumentos acerca da proximidade entre o homem e todos os outros animais; já depois dos estudos sobre o hipnotismo de Charcot e Breuer; já depois do nascimento da psicanálise por Freud e da descoberta da importância do inconsciente para a vida psíquica do ser humano; já depois dos inúmeros e surpreendentes avanços em neurobiologia e da comprovação de que a vida emocional é pelo menos tão importante como a racional; já depois de tudo isto, quer Philippe Garrel fazer-nos crer que pode voluntariamente controlar idas e vindas ao inconsciente?! Até onde pode ir a ignorância que os humanos deste tempo têm da história?! Temos, em boa verdade, de dar razão a esse hediondo Sarkozy quando disse que queria apagar o Maio'68 da história da França: a sua profecia está a cumprir-se, e a estender-se para toda a história da humanidade numa constante e contínua estupidificação.

La frontière de l'aube, mais um filme de nome enigmático feito para atrair pseudo-intelectuais ao cinema, é tudo isso e mais ainda. É a prova de que também os franceses conseguem fazer qualquer coisa - até mesmo uma telenovela mexicana como esta - parecer um espectáculo sublime de sétima arte. Ao invés disso, ficamos com um filme de pelo menos sétima categoria. Tudo no filme é desconchavado: o preto e branco - que aliás poderia resultar muito bem - parece mais uma pseudo-intelectualice feita para atrair críticos revivalistas - tivesse o filme passado a cores e ninguém lhe pegaria, tais são as semelhanças dessa infeliz película com as felizes telenovelas da TVI. Exactamente como numa telenovela, lá estão os planos alargados da cara de cada uma das marionetas que por ali se passeiam. A particular obsessão em filmar a cara da amante do fotógrafo é tão grande (trata-se certamente de uma qualquer relação mal resolvida entre o Garrel-realizador e uma das suas 300 amantes no decurso da sua vida de boémio) que ainda o filme nem vai a meio e nós já desejamos que ela caia redonda no chão, morta de aborrecimento por não conseguir sequer sonhar com coisas minimamente interessantes. Mais uma vez, temos a prova de que os franceses só podem ser realmente muito estúpidos: dão-se uns planos bonitinhos de carinhas larocas, mete-se o preto e branco, e voilà! Toda a gente vai achar que se está perante a oitava maravilha do mundo. Claro que a operação de cosmética é necessária para esconder as fragilidades do filme - diríamos melhor, a fragilidade: é preciso ser muito estúpido ou muito ingénuo para achar que uma coisa daquelas teria substância suficiente para dar um filme. Mas o maior martírio não é esse, é o sermos obrigados a percorrer os mesmos lugares-comuns da rapariguinha burguesa que vive bem mas não sabe quem é, do fotógrafo que não tem onde cair morto até encontrar uma mulher rica, do amor proibido entre mulher casada e madura e badameco solteiro e adolescente (os franceses gostam destes dilemas existenciais: tirem-lhes isso e vão ver que eles ficam sem saber o que fazer, a verdade é que não sabem fazer mais nada), da morte que tudo separa, da impossibilidade de realização, do conformismo; e tudo isto durante 100 minutos que mais parecem 200: uma autêntica tortura medieval. Em suma, todas as ideias dos grandes romances de outrora, desta feita reduzidas ao puro enredo telenoveleiro e desinteressante. Mas também é verdade que o filme nos proporciona momentos áureos: quem será capaz de se conter no seu riso depois de ver uma frase pseudo-filosófica atirada para o ar no meio de uma conversa de surdos-mudos tirada de uma cena completamente à parte? Meus senhores, é a isto que se chama verdadeiro pseudo-intelectualismo. E podia ficar por aqui - mas não fica! Começámos por falar em Freud, e é claro que não pode haver tópico mais apropriado para compreender por que motivo tem um Garrel-pai interesse em fazer um filme com um Garrel-filho em que põe este em contacto amoroso e sexual com mulheres? Em que subtipo de neurose voyeurística se incluirá este Garrel-pai? E que dizer do Garrel-filho? Tem algum prazer obscuro e neurótico em expôr-se perante o próprio pai, ou é só uma prostituiçãozinha momentânea para poder depois dizer que até chegou a aparecer nos grandiosos filmes do Mestre Garrel? Pensávamos nós que depois d'Os Sonhadores já tínhamos visto tudo... Um conselho, Louis: deixa lá de alimentar desejos sexuais de entidades paternais e põe-te mas é a fazer alguma coisa de jeito com gente que tem mensagens para transmitir, como o Bertolucci. Deixa-te lá dessas francesices que isso só te faz é mal. Bom, mas a avaliar pela curta-metragem Mes copains, o Garrel-filho segue as pisadas do pai. Oxalá consiga abrir os olhos a tempo. Pelo menos tem um trunfo: não é snob como a maioria dos franceses, e chega mesmo a ser simpático - por esta apenas já merecia um óscar. Só é pena que a mera simpatia não seja suficiente para chegar ao céu.

4 comentários:

Ursdens disse...

Eh pá, mesmo não tendo visto o filme, conheço a obra do garrel suficientemente para perceber o que dizes...

De qualquer forma, recomendo-te que vás a este blog: http://cocanha.blogspot.com/ e leias o post "esqueletos no armário". Vai de encontro ao que dizes. Vais gostar do post.

Esse antagonismo entre a cultura francesa e a inglesa, por exemplo, é evidente...
Gosto de todas, cada momento para cada qual...

Pergunto-te só uma coisa:

Concordas, ou não, que os temas essenciais estão esgotados e que o esforço de sistematização da cultura contemporânea, bibliotecária por excelência e massificada, os conduziu à mera abordagem de clichés?

E que temas achas tu que podem ser abordados que não os pragmáticos, fruto de modelos existenciais novos mas que, continuando a radicar naquilo que já conhecemos na natureza humana, derivam de axiomas previamente conhecidos?

É que Freud sistematizou aquilo que, me parece, já era conhecido, embora sempre com vergonha e mascarado sob a égide do pecado, desde tempos imemoriais...

A "guerrilha contemporânea" será dar todas essas ideias a conhecer ao maior número de pessoas possível, tão só? É que, se o for, o Garrel está no bom caminho...

E se não for, haverá por aí axiomas essenciais novos para descobrir? Daqueles que possam alterar radicalmente as premissas do pensamento humano e não apenas conduzí-lo ao caos?

São tudo perguntas pá, nada mais... Tás lá! :)

Daniel disse...

Diferentes culturas - ou, neste caso, diferentes nações - dão ênfase a diferentes aspectos do pensamento humano. Os ingleses são conhecidos pelas suas filosofias empiristas, os franceses pelos racionalismos, os alemães pelos idealismos... Mas o que é importante é compreender que nenhuma dessas filosofias está completa: só na junção de todas elas é que chegamos à verdadeira filosofia. Portanto, enquanto não houver uma filosofia que englobe todas as outras andaremos sempre em conversas de surdos-mudos (cada um fala daquilo que entende e ninguém escuta o que cada um tem para dizer). Ora aqui está um bom programa filosófico que nos entretenha durante um bom bocado. Esta é uma prova de que nada está ainda esgotado; e, simultaneamente, de que tudo está ainda longe de se esgotar, se é que é possível que algo infinito se esgote... Portanto, aquilo que me parece é que esses temas essenciais de que falas não estão esgotados e dificilmente se esgotarão. Agora, é verdade que os temas são sempre os mesmos: a luta entre o bem e o mal, que é uma luta individual entre o que há de inferior e de superior em cada homem; a questão do amor e os amores impossíveis; a tensão entre o potencial e a expressão desse potencial... todos eles são temas universais - pelo menos para os seres humanos. Para haver tema tem de haver conflito, crise, um problema que precisa de ser resolvido; e os problemas, as questões, são sempre as mesmas. Temos agora mais recentemente a questão entre a tradição e a tecnologia, mas mesmo isso é apenas um refinamento de outra questão que existe desde sempre... A abordagem de clichés tem que ver com o nível a que se fazem as coisas. Todos os temas que são tratados nesse filme do Garrel podiam ter sido trabalhados de uma forma interessante; o que aconteceu é que não houve trabalho nenhum, apenas uma exposição de lugares-comuns a que já estamos fartos de assistir em todo o lado. Não me parece que o esforço de sistematização tenha alguma que ver com isto: o que se passa aqui é que se fazem coisas sem o mínimo sentido da história e da evolução da cultura. O esforço de sistematização levou foi à cristalização de tudo o que existe em leis disto ou daquilo, disciplinas assim ou assado, com fronteiras rígidas e impenetráveis, quando nada disso é real. É por isso que gosto tanto de história da ciência: ao estudá-la apercebemo-nos de que todas essas descobertas não resultaram de ideias luminosas que desceram das alturas até à cabeça de um génio, mas de discussões várias entre cientistas que falavam e debatiam coisas entre si - e não eram só cientistas, eram pessoas de toda a espécie de áreas e saberes. Aqui está outro tema muito mal explorado, e sobretudo maltratado, que precisa urgentemente de mais atenção. Em suma, aquilo que deve ser abordado é exactamente aquilo que o nosso mundo de hoje necessita para dar um passo em frente - e, na minha modesta opinião, parece-me que fazer telenovelas não é lá grande ajuda...

Quanto ao Freud... bem, ele não partiu do zero, como é evidente, a noção de inconsciente já estava presente antes - inconsciente, desejos sexuais mais assim ou mais assado, influência da educação, etc. Freud, em parte, sistematizou e definiu mais objectivamente aquilo que já se sabia. Mas ele também estudou muitos casos (e procurou arranjar formas de curar as pessoas de distúrbios psicológicos, coisa que era desconhecida e até menosprezada na altura), e foi por ter feito tantas observações que se apercebeu de determinados padrões que mais tarde inseriu e contextualizou nas teorias que criou. A guerrilha contemporânea passa, quanto a mim, sem sombra de dúvida, pela divulgação cultural. Não só acerca das ideias de Freud, mas de toda a história; não só a mera exposição de factos, mas a análise crítica dos acontecimentos. Isso é que é realmente interessante. A perspectiva histórica, que é tão presente no Romantismo, tem-se vindo a desvanecer com o passar do tempo e o desenvolvimento do capitalismo. O que interessa já não é o passado, são apenas o presente e o futuro próximo. E isso está completamente errado. A instrução está em completa erosão. É por isso que é tão importante pensar a pedagogia e a filosofia do ensino neste preciso momento. (Se fizeres a contabilização final descobres ao longo do texto muitos temas plenos de actualidade.)

Por outro lado, não nos podemos esquecer nunca de algo extremamente importante: de cada vez que se disse que tudo estava já descoberto e que não haveria muito mais para descobrir apareceu logo uma série de novos desenvolvimentos para enriquecer o mundo. Nós, seres humanos, sabemos pouco acerca do mundo - e menos ainda acerca do universo -, e portanto não devemos, em momento algum, achar que já nada tem segredos para nós. O mundo continua a ser um grande mistério aos nossos olhos. Basta leres qualquer coisa sobre ciência para perceberes que por cada coisa que se sabe se desconhecem 100 outras. E isto é válido para tudo: é válido para a arte e para as formas de expressão artística, é válido para as formas de ver a história, as filosofias que se criam... O mundo é infinitamente rico e complexo em toda a sua variedade.

Quanto ao resto, já o Professor Agostinho da Silva dizia que o melhor era olhar para a ideia que temos de futuro não como uma coisa irrealizável, mas sim como algo capaz de ser facilmente ultrapassado de uma maneira que nenhum de nós hoje tem capacidade para conceber. É, aliás, o que a história nos mostra: todo o progresso técnico, todo o progresso científico; e ainda todo o progresso social. O conhecimento científico evolui por revoluções, disse Kuhn. A história evolui por um processo dialéctico, disse Hegel. E agora estamos a começar a perceber que até o próprio caos pode ser criado a partir de leis abstractas e gerais - na matemática, e agora também na biologia... O mundo nunca pára de nos surpreender. O nosso objectivo é que nunca pode ser menor do que o desejo de atingir um dia esse estado da Cocanha. E, por falar nela, vou ler atentamente esse blogue, que me parece interessante. Entretanto, tens aqui muito por onde escolher. Há sempre algo mais para aprender, algo mais para fazer, um universo para descobrir.

Ursdens disse...

Sim senhor, esse blog é mesmo muito interessante... Pela análise historicista. Descobri-o há poucos dias e fiquei viciado! :)

De resto, deixa-me colocar-te ainda uma questão:

E o existencialismo?

É que me parece que, chegados à noção de filosofias da existência, esbarramos com o conceito de absurdo... Já viste o morangos silvestres do Bergman? O tal absurdo da existência que, de certa forma, impossibilita as análises ontológicas... Apenas se podem buscar pontes, formas de superação...

é que me parece que o existencialismo é já a tal fusão da escola racionalista com a escola idealista e a escola empirista... Aliás, a partir do momento em que surge a noção de subconsciente parece-me que a razão deixa de ser um "primus" e passa a ser um meio, uma técnica para chegar a...

E chegados aí, ao existencialismo, a filosofia morre e entra numa ampla decadência. É substituida pelas ciências sociais e humanas, pela psicologia, pela sociologia, pela antropologia, etc... O método indutivo quase que se esgota na compreensão, por via abstracta, da existência... Continuará a haver método indutivo na ciência, claro está, mas não nas letras como forma de compreender um total.

O que dizes, parece-me, e em parte está certo, é que a ciência continua e usa as mesmas armas que usava a antiga filosofia. Mas, enquanto que até aos anos 50 +-, ainda era possível e pertinente raciocinar sobre o total no abstracto, hj em dia já só faz sentido fazê-lo através do concreto.

Esse tal esforço de sistematização de que falo espelha-se, por exemplo, na internet e nos média e nas crescentes edições e reedições e tal. Apercebo-me, se calhar, que tudo o que é possível abstraccionar do nada já foi abstraccionado... Não sei se me entendes? Era esta a questão/ideia que te queria transmitir...

Ou seja, os axiomas supremos, que já estavam espelhados, inclusive, nas doutrinas religiosas, estão como que esgotados... O subconsciente é um reflexo da culpa inerente às inibições... Vá lá que o conceito de pecado desapareceu, mas isso é o que exactamente marca a diferença do homem antigo para o homem moderno. É como se fosse uma árvore cheia de frutos e ramos. O que me parece, nos dias que correm, é que já não há ramos nem frutos por descobrir, talvez só bagas, pequenas e enfezadas...

Agora, uma coisa é provável, podem-se descobrir ainda caroços junto ao chão, que porventura gerem outras plantas e ramos e frutos novos... Estou a meteforizar, claro... Nesse sentido, penso que os avanços da física poderão ser determinantes... A tal física teórica que já é conhecida há séculos mas que, metade dela, está por demonstrar...

E aí entro no teu outro post sobre a faculdade: É que, para se inovar nesses campos científicos e criar as tais plantas novas, é preciso estudar muito certos conceitos técnicos. Um físico depende da criatividade, mas se não dominar a disciplina não faz nada de jeito, leia-se novo... É preciso saber matemática, álgebra, etc... É como um músico, pode ter a melodia na cabeça, mas se não souber escrever música e não perceber solfejo ninguém o entende...

Continuam a ser só ideias e pontos de vista... Já não andava assim pelos caminhos da filosofia há muitos anos, já quase que tinha esquecido... eheh! Ultimamente ando mais numa de encontrar pontes para superar o absurdo..., vai-se impondo, vai sendo necessário...

Se é verdade que me dizes que cada vez que se pensou que já não se andava para a frente no caminho rumo ao total, tal conteceu; tb é verdade que a net e os mass media já não são uma simples biblioteca de alexandria... Estamos mesmo numa nova era, incrivelmente caótica... e sem respostas à vista, pelo menos no capítulo das letras...

Por exemplo, a arte: A arte até ao modernismo era um caminho de conceitos novos, neste momento é um caminho de linguagem novas para espelhar conceitos já espelhados... E qd o mundo contemporâneo já só procura linguagens quer dizer que já só se pode buscar forma... A substância por descobrir é muito pouca, o que torna a vida uma grande chatice... E depois, a forma passa a ser substância? Farto disso... A linguagem da linguagem? bah...

Sei lá pá, não vejo maneira...

Leste a última edição do courrier international? Aquilo tava giro... Já se fala no fim das civilizações... eheh!

O problema é que, se calhar, o cataclismo é inevitável para que o paradigma mude e um cataclismo, neste momento, é capaz de nos pôr ao nível dos dinossauros nos últimos tempos em que existiram...

Enfim, são só ideias, e muito pessimistas...

De qq forma, tu és jovem, e os jovens são optimistas por excelência! De qq forma, um conselho, estuda, não cagues para a faculdade. Nc leves os academismos à letra, mas tb nc os menosprezes... Os academismos são as armas para criar o que queres... Arma-te! :)

Qt à cocanha, temo que nunca venha a existir... Reduz as necessidades se queres passar bem, já dizia o bêbedo do palma... eheh!

Um abraço pá!

Daniel disse...

Primeiro, tenho de criticar o blogue Cocanha: aquele artigo sobre os esqueletos no armário está divinal. Sempre quis - e nunca encontrei até agora - conhecer alguém que me soubesse explicar a arte - que aliás só pode ser verdadeiramente compreendida numa perspectiva diacrónica, como tudo o que existe. Finalmente encontrei! Um dos grandes males do mundo, e já aqui o disse, é o facto de se ter perdido uma consciência histórica que durante tanto tempo existiu e foi tão importante no mundo. E pior que isso são as estruturas sociais e culturais que perpetuam esse estado de alienação colectiva. É contra elas que temos de lutar. É preciso resgatar a memória, a consciência histórica e até, direi eu, a reminiscência platónica.

Quanto a existencialismos, a conversa é outra. Digo-te desde já que não gosto nada dessas filosofias francesas tapa-buracos. Também é mania francesa simplificar assuntos complexos e que não podem de modo algum ser simplificados, e essa ideia da supremacia da existência sobre a essência é mais uma grande treta francesa. Não é possível dissociar essência de existência. Tudo o que é, existe; e tudo o que existe, é. Portanto, não há aí espaço nenhum para absurdos ou náuseas. Quando nascemos, temos duas hipóteses: ou achamos que, por não nascermos com uma etiqueta a dizer quem somos e o que vamos fazer a vida não tem sentido; ou achamos que a vida poderá ou não ter algo que possamos chamar de sentido. Realmente absurdo é partir do pressuposto de que a vida não tem sentido nenhum sem saber se isso é verdade ou não. Além disso, várias coisas nos mostram o contrário. O Fernando Pessoa escreveu algo magnífico, e tremendamente lúcido e lógico, qualquer coisa como: ‘Então o que eu digo tem sentido e o universo não haverá de ter um também?! Em que sistema natural é que a parte excede o todo?’ Por outro lado, também não podemos pôr de parte a hipótese de que o sentido que o universo, ou a vida, têm é exactamente o de não ter sentido nenhum; isto é, de que tudo é como é e se desenvolve cumprindo-se segundo os seus ritmos. Esta conclusão já é mais budista e caeiriana. Portanto, parece-me um desperdício de tempo estagnar em filosofias de segunda como esses existencialismos baratos - é claro que o existencialismo teve a sua importância, sobretudo por enfatizar a necessidade de ter um projecto, uma missão, um objectivo para a nossa vida - que, preferencialmente, será sempre o de a melhorar e enriquecer de algum modo. Mas não nos devemos encostar a respostas fáceis como essas. E, depois, há a influência do subconsciente - que é onde reside a maior parte da nossa vivência psíquica. Ora, se a maior parte daquilo que sabemos está escondida, então vamos perder tempo com estas filosofias baratas? Claro que não! O objectivo maior tem de ser a expressão ou libertação desse potencial subconsciente, com a sublimação das tendências destrutivas.

Por outro lado, temos de ter muito cuidado com essa coisa de método indutivo. Em biologia, por exemplo, o método indutivo é quase uma miragem: cada lei que se define tem, pelo menos, trezentas excepções. Só uma teoria biológica pode, com segurança, induzir: a teoria darwinista da evolução - e mesmo ela não chega para explicar todos os casos que observamos. Já nas ciências mais matemáticas, porque usam da matemática, o caso é ligeiramente diferente: é mais abstracto, mais exacto. Mas certo e sabido é que não existem teorias ou leis perfeitas, há sempre excepções e resultados novos a aparecerem. É grande a tentação dos cientistas de firmar dogmas - não os há só na igreja, não é verdade? - , postular leis gerais por indução... mas a tendência agora nas mentes mais esclarecidas é exactamente a inversa: devem-se manter as conclusões que elaborámos no mesmo nível em que fizemos as observações. E este argumento não é meramente filosófico: tem-se observado em ecologia que à medida que olhamos para níveis de organização mais complexos surgem propriedades novas que não poderiam ser deduzidas a partir da análise de cada uma das partes isoladas. São as propriedades emergentes, dando razão à tal máxima de que o todo é muito mais do que a soma das partes. Isto já não é filosofia nenhuma, é algo que se pode observar directamente e concluir. E esta é a grande diferença da ciência para a filosofia. É certo que a ciência tem as suas origens mais remotas na filosofia; mas a observação e a manipulação de variáveis em ambiente controlado por um experimentador é algo novo. Agora, podemos inclusivamente testar algumas filosofias (coisa mais admirável!) e dizer se elas tem algum significado real ou não - por exemplo, acerca da constituição da matéria (ganharam aqui Leucipo e Demócrito), posição do planeta em relação ao sol, etc. É por isso que toda a filosofia que se queira actual tem forçosamente de considerar os desenvolvimentos científicos que houve.

Mas também há outra coisa, e que não referiste. É que há várias maneiras de fazer ciência. O método experimental é uma delas, mas o estudo de casos é outra, e é precisamente um método em que não se procura a indução. Por exemplo, quando Freud analisava pacientes ele fazia um estudo de casos individuais. Aí, procura-se antes o que é único em cada indivíduo, a sua história de vida, de modo a compreender a situação presente desse indivíduo.

As letras são, sem dúvida, diferentes. As ciências sociais e humanas têm o seu quê de científico (podemos comparar redes de signo-significado a funções (correspondências) matemáticas, não é?), mas as letras podem ser tudo aquilo que imaginarmos. A história da literatura é, em grande parte, a história da evolução da imaginação humana - é por isso que gosto tanto dela. E podemos até comparar essa história das propriedades emergentes nos sistemas físicos com sistemas puramente abstractos, como a linguagem. Também aí as palavras, quando juntas, adquirem novas propriedades (significados), e à medida que se vai subindo na complexidade dos níveis - da frase para o parágrafo, do parágrafo para o texto, do texto para o tratado ou livro - , surgem novas redes de significação. Ora, parece-me que essas combinações são infinitas, não é? Exactamente como as combinações do nosso código genético. Um excelente exemplo disso é o nosso Umberto Eco e o seu magnífico O Nome da Rosa - nunca melhor interlocutor: professor e investigador em semiótica!

Um resultado muito interessante é o de que o pensamento abstracto vai sempre à frente da concretização prática desse pensamento. Por exemplo, há hoje coisas de matemática descobertas - resultados matemáticos - que escapam à nossa compreensão. Por outro lado, a física de hoje, ou pelo menos a quântica, vive tempos conturbados porque se torna tão dependente da matemática e de funções tão complexas que ninguém ainda conseguiu desencantar uma teoria que possa de uma maneira lógica e coerente explicar os resultados que se obtêm. Mas a ciência do século XXI vai ser mesmo - e já está a ser - a biologia. Eu sou um pouco suspeito nestes assuntos porque sou biólogo, mas é verdade que o desenvolvimento da genética e todas as suas ramificações permitiu o aparecimento de uma data de técnicas sofisticadíssimas para perscrutar o que se passa num ser vivo. É absolutamente fascinante, e neste novo século que só agora principiou vamos ver grandes desenvolvimentos - e, talvez, digo-o eu, a suplantação da teoria darwinista. Vamos a ver…

Quanto ao saber, há duas coisas que não podemos confundir: uma delas é aquilo que nós sabemos porque aprendemos realmente, outra é aquilo que nos obrigam a aprender na faculdade para termos um curso. Um físico, por exemplo, só é bom físico se conhece a história e evolução da sua disciplina (se conhece o caminho que levou a que hoje se soubesse o que hoje se sabe); mas um físico que saia da faculdade hoje não tem de saber nada disso – apenas tirar boas notas para ter um diploma bonitinho e já está. Ora, não é preciso pensar muito para chegar à conclusão de que isso está completamente errado… é isso que me chateia profundamente em toda esta lógica de produtividade capitalista das faculdades. Bem sei que tenho de passar por estas torturas todas se quero que me deixem fazer alguma coisa de jeito, mas isso não quer dizer que tenha de concordar com estas porcarias e permanecer impávido e sereno perante a destruição do pensamento original. Aliás, é por o ensino estar como está que canalizo tanta energia a pensar no que é que se podia fazer para o melhorar. Só assim é que o mundo avança.

No mundo das letras, por outro lado, as coisas estão bem mais caóticas, é verdade. Mas na ciência também, com todas as suas novas ramificações e fusões de diferentes áreas. A Internet permite aceder rapidamente a muita informação, e isso é admirável, mas é verdade que torna tudo muito mais caótico. O que falta aqui, defendo eu, é um processo de depuração da informação verdadeira ou que tem conteúdo da desinformação ou do rubbish. Mas também temos de ver que as coisas evoluem sequencialmente, e só se pode alcançar o degrau mais alto depois de se ter subido os primeiros degraus, não é?

E onde é que fica a arte no meio disto tudo? Tens toda a razão naquilo que dizes: já não existem paradigmas novos em arte, apenas novas formas de expressão artística. Quando se diz que tudo pode ser arte, então atirar uma lata de tinta para cima de uma parede também é arte… O equívoco aqui, parece-me, está, mais uma vez, na semântica da coisa. Isto é uma ideia que já o Fernando Pessoa discutia na sua altura: a arte deixou de ser um fenómeno de criação artística para passar a ser muito mais um fenómeno de expressão de emoções. É que expressar emoções toda a gente expressa, mas criar realmente algo ímpar, único, já é algo completamente diferente. É preciso que haja um significado, uma mensagem por detrás daquilo a que se chama arte (o objecto). Não me parece que já não seja possível criar obras artísticas ímpares (ou, como dizia o nosso Pessoa, fingir, outrar). Exemplo disso é uma nova corrente artística muitíssimo interessante que para aí anda, a bio-arte. Trata-se da fusão entre arte, tecnologia e biologia! (Essa ideia é realmente original e brilhante – e mostra que ainda é possível criar e desenvolver conceitos novos. Aconselho-te vivamente a procurar coisas sobre isso, é muito interessante.) Portanto, todas essas coisas de fim das civilizações e etc. só me dão é vontade de rir… O potencial humano não pode ser subestimado com base em crenças mal fundadas. Aliás, é por causa disso que não temos aí a cocanha para toda a gente. E não concordo nada com o senhor Palma: ele devia dizer antes ‘reduz os vícios/dependências se queres passar bem’. Quanto às necessidades (aquelas que são mesmo necessárias…), só vejo dois caminhos: ou são satisfeitas, e passamos ao nível seguinte; ou então, se são impulsos destrutivos, devem ser sublimados (para evitar que nos destruamos a nós próprios). Mas parece-me bom não esquecer que as fronteiras do que é possível só existem onde sempre existiram: na nossa cabeça.

Fica bem!