sábado, 28 de fevereiro de 2009

human.

Parece-me importantíssimo reflectir naquilo que o título da nova canção dos The Killers desperta em mim. Há tanto tempo que as pessoas perguntam se o homem é naturalmente bom ou naturalmente mau, ou como é que nós - aquele nós que engloba a humanidade inteira - pudemos ser capazes de atrocidades como o holocausto, que já a pergunta me irrita profundamente por estar completamente desadaptada aos tempos de hoje. Nenhum homem é completamente bom - ou capaz de fazer o bem - , nem completamente mau - ou capaz de fazer o mal. Todo e qualquer ser humano tem a luz e a sombra dentro de si. Portanto, essa questão não interessa para nada. É uma perda de tempo. Nós deveríamos estar todos era a perguntar-nos se somos humans ou dancers! That's the thing that really matters. Será que somos apenas um agregado de átomos e partículas subatómicas que fazem as células que comandam o nosso corpo ou será que somos qualquer coisa maior e mais importante do que isso? Somos corpos que se movem, entes psíquicos que passam por diversos estádios psicológicos ou somos gente que quer é dançar a dança da vida na sua criação artística independente e original? Somos trabalhadores, operários, soldados nesta fábrica de produção humana em contínuo perpetuando elites de poucos e misérias de muitos ou somos entes culturais e espirituais com aspirações muito mais profundas e abrangentes do que essas? Queremos andar pela vida ou dançar por ela adentro? Ter a consciência desta questão - esta sim a verdadeira questão, a questão realmente importante, a questão do século XXI - é já andar um século para a frente, é já pertencer ao futuro. Viver não é nem será nunca sinónimo de trabalhar. Viver é criar, e só havendo o espaço para que as pessoas criem é que se pode realmente viver. A pobreza e a miséria em que tanta gente vive - sem tecto e sem comida, sem família, sem amigos - não é o que de mais terrível existe; o terror absoluto é essas pessoas não terem espaço para se desenvolverem intelectualmente, não terem à disposição os meios pelos quais se tornariam ímpares e se auto-realizariam. Negar isso é fazer algo ainda pior que qualquer holocausto: é obrigar alguém a viver uma tortura incomparável, morosa, subtil, refinada, e lenta, até que o corpo não tenha outra solução senão suicidar-se desta existência submissa que o devora. Não é o modo de vida burguês que se tem de destruir: o que se tem realmente de fazer é trazer esse modo de vida para toda a gente, e o resto é conversa.
I have always had a spontaneous characteristic - at times good and at times bad - of easily relate to other people, and that particular aspect of my nature has totally defined what I truely am.
i'm not against commercial music, i'm only against meaningless uninteresting purposeless things.
the mystery of life is not to be told: the mystery is to be felt
cultivar a contradição é a única maneira de se ser fiel a si mesmo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

ser cientista em Portugal continua a ser não uma profissão de muitos mas apenas um privilégio de poucos.
pior que a escola, só mesmo o mundo do trabalho.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

exercício para mia couto

No início,
já havia tudo.

Mas Deus era cego
e, perante tanto tudo,
o que ele viu foi o Nada.

Deus tocou a água
e acreditou ter criado o oceano.

Tocou o chão
e pensou que a terra nascia sob os seus pés.

E quando a si mesmo se tocou
ele se achou o centro do Universo.
E se julgou divino.

Estava criado o Homem.

Mia Couto



No fim,
já não havia nada.

Mas o Homem via
e, perante todo o nada,
ele finalmente viu o Todo.

O Homem tocou no oceano
e chegou ao ventre.

Tocou na terra debaixo dos pés
e chegou ao fundo.

E quando a si mesmo se tocou
ele achou o centro do Universo.
Tinha encontrado o divino.

Ele era Deus.
estou-me a cagar para viver. o que eu quero é sonhar
Depois de ter chegado à faculdade e ter tido alguma formação em ciências, debrucei-me um dia sobre alguns manuais que me obrigaram a ler na escola secundária. De um momento para outro, tudo o que li fez sentido como nunca antes tinha sido possível. Mas porque é que isso era assim? Rapidamente cheguei à conclusão fatal: os livros não tinham nem uma linguagem nem uma disposição de ideias que facilitassem o caminho que o aluno tinha de fazer para compreender todas aquelas matérias, e apenas arrumavam conceitos do ponto de vista de quem já conhece tudo o que neles se pode encontrar. Isto não é pedagogia. Isto é autismo. Não admira que haja tanta gente a aborrecer-se com a escola. O mais certo é que o motivo para tanto insucesso escolar esteja aqui perfeitamente justificado.

Para uma verdadeira pedagogia da ciência

Todas as resoluções começam com uma questão.

Qual é a melhor maneira de ensinar ciência?

Para analisar qual o melhor método pedagógico a aplicar no ensino das ciências porque não passar em revista as várias maneiras como os restantes saberes são ensinados? Se falamos de música, estudamos a evolução histórica das correntes musicais e do fabrico de instrumentos musicais. Se falamos de literatura, estudamos a evolução histórica dos autores e das correntes literárias de que diversas obras fazem parte. Se falamos de arte pictórica, estudamos a evolução histórica dos criadores e das correntes estéticas nas quais diversas obras de arte se podem inserir. Se falamos de filosofia, estudamos a evolução histórica do significado de vários conceitos que diversos filósofos debateram ao longo do tempo. Se falamos de economia, estudamos a evolução histórica das teorias e práticas económicas que foram seguidas ao longo do tempo e quais as suas consequências na estruturação das sociedades. ASSIM, se partir de uma perspectiva diacrónica pela análise da evolução histórica de cada uma destas áreas é a melhor forma de conhecer realmente o que elas são, por que não aplicar este método também às ciências? O que têm as ciências de tão diferente para que se elimine a perspectiva histórica que lhes dá o seu fundamental contexto? Não há nada de mais artificial que julgar as ciências como um produto finito e acabado cujo mais alto e mais verdadeiro resultado está à vista e todos os homens da nossa época. Aliás, uma das razões - talvez mesmo a principal - que explicam o crescente desinteresse dos jovens pela escola está no método artificial que se segue para ensinar as ciências: a memorização de equações, métodos e factos sobre factos que não deixa qualquer espaço à atitude crítica que é necessária para que se faça um bom cientista. O que aqui defendemos é que

estudar a história das ciências é a melhor maneira de compreender a função e o funcionamento da ciência no nosso mundo

e é uma atitude amplamente benéfica para:

1 - Compreender o que a ciência é hoje - através do desenvolvimento de uma consciência histórica e contextualizada do contributo de cada cientista para a construção daquilo a que hoje chamamos ciência

2 - Compreender a área científica em que se escolheu especializar - através do desenvolvimento de uma capacidade contextualizadora das obras científicas dos cientistas que a fizeram suficientemente apurada para que essas obras (fontes primárias) possam ser lidas e interpretadas com autonomia

3 - Compreender a importância do pensamento crítico para o avanço da ciência - através do desenvolvimento de uma atitude crítica em relação a um trabalho científico
It is the theory which decides what we can observe.

Einstein

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

não é a compreensão de um conceito que é morosa e intrincada. Um conceito pode ser explicado e compreendido de uma forma clara em poucas palavras. O que é difícil é compreender o contexto histórico no qual um dado conceito surge e os diferentes usos que diferentes homens lhe deram, ao longo dos tempos.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Um exemplo de crítica anarquista

A pedido de várias famílias, e de acordo com as características da obra de criação anarquista, aqui vem a análise anarquista de duas obras de criação.

Filme La frontière de l'aube
Quando analisada de um ponto de vista anarquista, esta obra é claramente uma obra de criação anarquista inferior. Apesar do tratamento depuradíssimo com que trata as relações humanas, esta obra de criação apenas verifica a primeira característica da obra de criação anarquista. A apresentação das relações humanas entre dois amantes está depuradíssima e cinge-se apenas ao essencial. Por isso mesmo, e pela simplicidade e clareza com que apresenta toda a complexidade das emoções humanas, esta obra mostra que as ideias pré-concebidas que as pessoas podem ter da relação perfeita idealizada onde o amor é superior a todas as diferenças, e onde a relação entre duas pessoas que se amam só pode acabar com a moral "e viveram felizes para sempre..." não é mais do que uma grande ficção social. Porém, esta obra falha quanto às duas restantes características por não apresentar o que seria uma relação ideal (não confundir com relação perfeita, que essas não existem) e por não apresentar uma proposta para a superação do conflito que se desenrola pelo filme.

Filme Milk
Quando analisada de um ponto de vista anarquista, esta obra é claramente uma obra de criação anarquista superior. Não só se mostra que o amor homossexual tem tanto direito a existir como o amor heterossexual enquanto expressão da dimensão sexual humana (verificando-se a primeira característica da obra de criação anarquista), como também se mostra que a vida numa sociedade em que o amor homossexual é tão valorizado como o heterossexual é muito mais fácil do que a vida numa sociedade em que o amor homossexual é assunto tabu (verificando-se a segunda característica da obra de criação anarquista), e ainda se dão propostas práticas a vários níveis para que, cumprindo-se elas, possamos atingir uma sociedade livre e anarquista (verificando-se a terceira e mais importante característica da obra de criação anarquista). Assim, enquanto obra de criação anarquista, o filme Milk é um exemplo perfeito de uma obra de criação anarquista superior e completa.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Teoria da criação da obra anarquista

O método indirecto de instaurar a revolução mental em cada homem baseia-se numa das maiores capacidades humanas, que é a capacidade de criar obras. O primeiro passo que leva o anarquista prático até à sua obra é o seu ideal anarquista. Sem o ideal anarquista em mente, é impossível criar uma obra que potencie a revolução mental. É preciso clarificar por inteiro qual deve ser a função da obra. A revolução mental, dissemo-lo, é a tomada de consciência de que as ficções sociais têm uma natureza ilusória. Pelas próprias características da revolução mental, essa tomada de consciência é uma mudança individual. Assim como não existem dois corpos iguais, não existem duas consciências iguais; e portanto a revolução mental que é necessária para que um homem se liberte será necessariamente diferente da revolução mental necessária para que outro homem se liberte. Cada revolução mental consiste na tomada de consciência da natureza ilusória que as ficções sociais criadas pela mente de um homem têm. Como não existem dois homens cuja mente seja igual, então é impossível que uma revolução mental que liberte um homem possa, ao mesmo tempo, libertar outro homem.

Outro aspecto não menos importante, para além do carácter individual da revolução mental, é o seu carácter espontâneo. A revolução mental, dissemo-lo, é a tomada de consciência que um dado homem leva a cabo de que as ficções sociais têm uma natureza ilusória. A acção de tomada de consciência que caracteriza a revolução mental é uma acção que parte do homem no qual essa revolução mental se dá. Portanto, a dar-se uma revolução mental, ela é sempre voluntária. Se a revolução mental acontece, ela acontece porque, de uma forma espontânea, um dado homem toma consciência do carácter ilusório das ficções sociais. A compreensão do modo como se processam as revoluções mentais leva-nos até à conclusão de que não é possível a nenhuma obra de criação, e nem mesmo às obras de criação anarquistas, provocar a revolução mental em cada homem. Se a revolução mental é individual e espontânea, ela só poderá dar-se quando o homem que vive na ilusão de que as ficções sociais são reais tome consciência de que vive nessa ilusão. Assim, o objectivo máximo da obra de criação anarquista não é a revolução mental, mas sim, e apenas, a reunião das condições nas quais a probabilidade de que a revolução mental se dê seja maior. Sendo individual e espontânea, a revolução mental apenas depende do homem que vive na ilusão de que as ficções sociais são reais. Porém, a criação de um ambiente anarquista através de uma obra de criação anarquista predispõe a mente do homem que vive na ilusão de que as ficções sociais são reais para a tomada de consciência de que não existe mais verdade na sua natureza que o seu carácter ilusório.

Sendo o objectivo da obra de criação anarquista a criação de um ambiente no qual a probabilidade de que a revolução mental se dê seja maior, é preciso analisar quais são as características que é necessário que a obra de criação tenha para que possa criar um ambiente anarquista. Se o objectivo da obra de criação anarquista é potenciar a revolução mental, então o objectivo da obra de criação anarquista é potenciar a tomada de consciência - que em cada homem se pode dar de uma forma espontânea - de que as as ficções sociais têm uma natureza ilusória. Assim, a obra de criação anarquista tem de mostrar que as ficções sociais que tantos homens crêem ser verdadeiras não são mais que ilusões. Por exemplo, se a obra de criação anarquista tiver como objectivo a destruição da ficção social dinheiro, então ela tem de mostrar que a natureza da ficção social dinheiro é ilusória - isto é, ela tem de mostrar que a maior ou menor posse de dinheiro não faz de alguém uma pessoa melhor ou pior.

A obra de criação anarquista tem como objectivo a criação de um ambiente no qual a natureza ilusória de uma ficção social é inequivocamente demonstrada. É a permanência neste ambiente propício à revolução mental que aumenta a probabilidade de que esta revolução mental se dê no homem que vive na ilusão de que as ficções sociais são reais. Mas há ainda outro modo de criar um ambiente propício à revolução mental. A obra de criação anarquista que apenas demonstra a natureza ilusória das ficções sociais só cumpre metade daquilo que pode fazer - é que a demonstração daquilo que tem um carácter ilusório não conduz à instauração de uma sociedade livre - isto é, anarquista - senão por negação daquilo que nela não deve existir. Na verdade, a obra de criação anarquista que não vai para além da demonstração daquilo que não existe numa sociedade livre, não indica aquilo em que essa sociedade livre consiste. Assim, não basta à obra de criação anarquista demonstrar que as ficções sociais são ilusórias; a obra de criação anarquista tem ainda de mostrar como a vida é muito mais simples numa sociedade anarquista do que numa sociedade onde as ficções sociais são tomadas como verdadeiras. No exemplo mencionado, se a obra de criação anarquista pretende destruir a ficção social dinheiro, então, para além de mostrar que a maior ou menor posse de dinheiro não faz de alguém uma pessoa melhor ou pior, tem de mostrar como a vida é muito mais simples numa sociedade em que a importância que é dada ao dinheiro não é grande. (Numa sociedade deste tipo, emprestar dinheiro a quem precisa dele seria muito mais fácil do que numa sociedade em que a ficção social dinheiro é assumida como verdadeira.)

A obra de criação anarquista tem, portanto, dois grandes objectivos: a criação de um ambiente no qual a natureza ilusória das ficções sociais seja claramente demonstrada e a criação de um ambiente no qual seja demonstrada como a vida numa sociedade anarquista é muito melhor do que a vida numa sociedade onde as ficções sociais têm o peso de qualquer coisa real. No nosso mundo, porém, existem muitas pessoas que ainda acreditam na realidade das ficções sociais - na verdade, existem muitas mais pessoas que acreditam na realidade das ficções sociais do que pessoas que conhecem a natureza ilusória das ficções sociais. Apesar dos grandes avanços sociais que o nosso mundo tem conhecido, também é verdade que ainda estamos longe de uma sociedade anarquista inteiramente livre de ficções sociais. Assim, e porque esse é o caso, o objectivo da obra de criação anarquista não pode ficar pela demonstração da natureza ilusória das ficções sociais e pela demonstração da facilidade que é viver numa sociedade anarquista. A verdade é que nem um destes objectivos nem o outro conseguem construir o caminho que nos leva até à única e verdadeira sociedade livre que é a sociedade anarquista. A característica mais importante da obra de criação anarquista tem de ir para além da crítica ao real e da apologia ao ideal: a característica mais importante da criação anarquista é, acima de todas as outras, a proposta prática de elevação do real ao ideal, isto é, a proposta daquilo que tem de ser feito para que a nossa sociedade que ainda vive debaixo da ilusão das ficções sociais se possa libertar e, em libertando-se, tornar-se uma sociedade anarquista. No exemplo que seguíamos acima, se a obra de criação anarquista tem como objectivo destruir a ficção social dinheiro, então, para além de mostrar que a maior ou menor posse de dinheiro não faz de alguém uma pessoa melhor ou pior e para além de mostrar como a vida é muito mais simples numa sociedade em que a importância que é dada ao dinheiro não é grande, ela tem ainda de propor formas de concretizar medidas práticas para que a nossa sociedade capitalista se transforme numa sociedade em que a importância dada ao dinheiro não é grande (como criar e gerir instituições que conferem microcrédito, como tornar o acesso à instrução e à cultura gratuito, como criar programas de benefícios fiscais para entidades que promovam o mecenato, etc.).

A obra de criação anarquista verdadeiramente superior possui, assim, as seguintes características: a criação de um ambiente no qual a natureza ilusória das ficções sociais seja claramente demonstrada, a criação de um ambiente no qual seja demonstrada como a vida numa sociedade anarquista é muito melhor do que a vida numa sociedade onde as ficções sociais têm a importância de qualquer coisa real, e a apresentação de formas de concretização prática de propostas que procuram elevar a nossa sociedade à única e verdadeira sociedade livre. De todas as três características, a terceira é a mais importante. Mas a obra de criação anarquista verdadeiramente superior possui todas.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Tratado da descida do céu à terra


É preciso estabelecer um ideal. Este ideal tem de ser o maior ideal que nos é possível imaginar no nosso estádio evolutivo. O maior ideal que algum homem pode ter no nosso estádio evolutivo é o de se cumprir por inteiro. Por extensão, o maior ideal que a humanidade pode ter é o de se cumprir toda por inteiro. Cumprir o que se é significa concretizar na prática todo o seu potencial latente. Para nos referirmos a este ideal máximo com o desembaraço da linguagem, vamos usar o conceito de anarquismo.


Uma vez tendo um ideal, um objectivo a cumprir, é preciso analisar o que é preciso para que o ideal se cumpra na prática. Para isso, é preciso conhecer a fundo a situação actual em que vivemos e concluir o quanto afastada ela está da situação ideal - qualquer idealização, se existe, existe porque ainda não foi cumprida na prática - , isto é, em que pontos ela se aproxima do ideal e em que pontos ela se distancia do ideal. O plano será, para os pontos em que ela se aproxima do ideal, levá-la ainda mais perto dele; e para os pontos em que ela se distancia do ideal, eliminá-los dela.


Sabendo aquilo que é preciso melhorar para levar o anarquismo ao mundo, é preciso estabelecer qual o melhor sentido para dirigir os nossos esforços. Entre tudo aquilo que falta fazer para levar o anarquismo ao mundo, há coisas fáceis e coisas difíceis de conseguir, bem como coisas mais importantes e menos importantes de fazer. Se é certo que é preciso começar pelas coisas mais importantes, também será certo que as coisas mais importantes são as que mais nos escapam porque não temos, na maior parte dos casos, o poder (os meios) para as fazer. Como as coisas mais importantes são, na maior parte dos casos, as coisas mais difíceis de fazer, devemos voltar-nos antes para as coisas que são mais fáceis de fazer - isto é, para aquelas que mais nos estão próximas.


Se queremos cumprir o ideal anarquista naquilo que nos está mais próximo, então temos de cumpri-lo em dois planos diferentes. No plano material, é preciso que tudo esteja disponível para toda a gente. Esta tarefa não é menos que uma tarefa titânica para alguém que viva no nosso mundo. Existe muito trabalho a fazer neste plano, e portanto qualquer pessoa razoável poderá facilmente chegar à conclusão de que o seu contributo a este nível será sempre muito pouco face a tudo aquilo que há a fazer - isto é, em relação a tudo o que há que construir e a tudo o que há que destruir. Assim, uma pessoa razoável terá forçosamente de deixar esta tarefa para segundo lugar, e agir no plano oposto. No plano mental, é preciso destruir todo e qualquer resquício de ficção social que possa existir - as únicas diferenças que devem existir entre os homens são as diferenças naturais, que são aquelas que fazem com que uns homens nasçam mais altos que outros, ou mais inteligentes que outros, e não as diferenças artificiais à nossa natureza e que derivam do modo de funcionamento da nossa sociedade, como a quantidade de dinheiro que se tem ou ganha, ou o cargo que se ocupa. Destruir qualquer registo de ficção social consiste em tomar consciência de que as diferenças sociais são diferenças artificiais - e portanto ilusórias. Vamos chamar essa acção de destruição das ficções social, por comodidade de linguagem, revolução mental. Uma vez que cumprir algo no plano material apresenta muitos e variados obstáculos ao comum dos homens, é preferível começar pela revolução mental.


Se realizar a revolução mental é o primeiro objectivo do anarquista prático, é preciso decidir sobre a forma pela qual pode o anarquista prático cumprir essa revolução mental no mundo. Primeiro, ele deverá começar por aquilo que lhe está mais próximo, que é a sua própria mente. Enquanto a revolução mental não se der na sua cabeça, será impossível passar essa influência aos outros. Uma vez que ela se tenha dado na sua cabeça, isto é, uma vez que a sua mente não se encontre mais poluída pelas ilusões das ficções sociais, o anarquista prático deve concentrar os seus esforços em limpar as mentes dos outros.


Para livrar as mentes dos outros das ficções sociais é preciso que eles tomem consciência de que a existência das ficções sociais é meramente ilusória e não possui nenhum fundo de verdade. Aquilo que o anarquista prático procura, então, é libertar, pela revolução mental, as mentes dos outros. Para que seja possível libertar as mentes dos outros, é preciso ter um método para o fazer. O melhor método para libertar as mentes dos outros será aquele que consiga fazer com que o maior número de pessoas tome consciência da não-realidade das ficções sociais. Existem dois métodos pelos quais os anarquistas práticos podem fazer a revolução mental: o método directo e o método indirecto. O método directo consiste no contacto directo com cada pessoa na sua prática quotidiana. Este método tem a grande vantagem de ser mais directo e poder ser rapidamente adaptado pelo anarquista prático no desenrolar do contacto com a pessoa. Na verdade, ele requer a adaptação do anarquista prático à estrutura mental da pessoa com quem ele contacta. O método indirecto consiste na promoção do contacto de cada pessoa com uma obra de criação anarquista. Neste caso, o contacto com o anarquista já não é directo, e requer portanto a adaptação da pessoa (o espectador) à estrutura mental da obra de criação anarquista. Dos dois métodos, o melhor será sempre aquele que for mais directo, pois é aquele pelo qual as ficções sociais podem ser arrancadas da mente dos outros de uma forma mais controlada e eficaz.


Apesar do método directo ser o mais eficaz, é humanamente impossível ao anarquista prático que viva neste mundo chegar a todas as pessoas que existe neste mundo, que é o objectivo do verdadeiro anarquista. Assim, e para além de se aplicar na destruição das ficções sociais pelo método directo, o anarquista prático, para chegar ao maior número de pessoas, tem de seguir também o método indirecto.

quem me dera ser onda

domingo, 15 de fevereiro de 2009

ponho tudo aquilo que sei em causa, inclusivamente a validade da minha própria capacidade de pôr tudo em causa.

o objectivo máximo

o objectivo máximo da realização de uma obra de arte não é desenvolver e cumprir o potencial conceptual e abstracto do artista; o objectivo máximo da verdadeira obra é libertar tudo e todos em toda a parte.

História da Terra e da Vida

o grande erro dos livros de geologia e biologia que existem é serem livros de ciência, e não de história.

prémio "Mas onde é que eu já ouvi isto?"

Nada poderia ter sido pior para o desenvolvimento da minha mente do que o liceu do Dr. Butler, dado que era estritamente clássico, não ensinando mais nada além de alguma geografia e história da antiguidade. O liceu como meio de educação foi para mim simplesmente um zero. Durante toda a minha vida fui completamente incapaz de dominar qualquer língua. Dava-se grande atenção à composição de versos, uma coisa que nunca consegui fazer bem. (...) Decorar as lições do dia anterior era algo a que era dedicada muita atenção; podia fazer isso com facilidade, aprendendo 40 ou 50 versos de Virgílio ou Homero quando estava na capela de manhã; mas este exercício era completamente inútil, visto que tudo era esquecido em 48 horas. (...)

Quando acabei o liceu não era, para a minha idade, nem o melhor nem o pior; e creio que todos os professores e o meu Pai me consideravam um rapaz medíocre, bastante abaixo da média do ponto de vista intelectual. Para grande mortificação minha, o meu pai disse-me uma vez, «Não pensas em nada a não ser em cães, andar aos tiros, e caçar ratos, e hás-de ser uma vergonha para ti e para toda a tua família.» Mas o meu pai, que era o homem mais bondoso que eu alguma vez conheci, e cuja memória amo de todo o coração, devia estar zangado e foi algo injusto quando usou tais palavras. (...)

Como eu não estava a ter sucesso no liceu, o meu pai tirou-me de lá mais cedo do que o costume e mandou-me (em Outubro de 1825) para a Universidade de Edimburgo com o meu irmão e lá fiquei dois anos. O meu irmão estava a acabar os seus estudos em medicina, embora pense que nunca teve a intenção de exercer, e eu fui enviado para os iniciar. Mas pouco depois convenci-me, a partir de várias pequenas circunstâncias, de que o meu pai me deixaria posses suficientes para que vivesse com algum conforto (...); mas esta convicção foi suficiente para impedir qualquer esforço tenaz para aprender medicina.

O ensino em Edimburgo era exclusivamente por meio de Aulas Teóricas, e estas eram intoleravelmente maçadoras, exceptuando as de química por Hope; mas para mim as aulas teóricas não têm vantagens, antes várias desvantagens, quando comparadas com a leitura. As aulas do Dr. Duncan sobre Matéria Médica às 8 horas numa manhã de Inverno são uma lembrança assustadora. As aulas do Dr. Munro sobre anatomia humana eram tão maçadoras como ele próprio, e o assunto causou-me repugnância. (...)

Durante o meu segundo ano em Edimburgo frequentei as aulas de Jameson sobre Geologia e Zoologia, mas estas eram inacreditavelmente maçadoras. O único efeito que produziram em mim foi a determinação de nunca, enquanto vivesse, ler qualquer livro de Geologia ou estudar de algum modo esta ciência. (...)

Depois de ter estado dois anos lectivos em Edimburgo, o meu pai deu-se conta, ou soube pelas minhas irmãs, que eu não gostava da ideia de ser médico, e assim sugeriu que eu me tornasse um padre anglicano. Ele opunha-se, com razão e veementemente, a que eu viesse a ser um desportista ocioso, o que parecia ser o meu destino mais provável. (...)

Na Universidade [de Cambridge] havia aulas abertas ao público sobre vários assuntos, e a frequência era totalmente voluntária; mas eu estava tão enjoado de aulas em Edimburgo que nem fui às aulas eloquentes e interessantes de Sedgwick. Se o tivesse feito ter-me-ia certamente tornado geólogo mais cedo. No entanto, frequentei as aulas de Henslow sobre Botânica, e gostei imenso delas devido à sua grande clareza e às admiráveis ilustrações; mas não estudei botânica. Henslow costumava levar os alunos, incluindo vários membros mais antigos da Universidade, a saídas de campo, a pé ou de carruagem se fosse a sítios distantes, ou num barco pelo rio abaixo, e leccionava sobre os animais ou plantas raros que se observavam. Essas excursões eram encantadoras.

Embora, como veremos em breve, houvesse alguns factores atenuantes na minha vida em Cambridge, perdi tristemente o meu tempo, ou mesmo pior. Devido à minha paixão por caçar ou, se isso falhasse, por andar a cavalo a corta-mato, juntei-me a um grupo de desportistas folgazões, incluindo alguns jovens estróinas e de pouca confiança. Muitas vezes passávamos os serões juntos, embora esses jantares incluíssem frequentemente pessoas de maior calibre, e às vezes bebíamos demais, com cantorias alegres e jogos de cartas a seguir. Sei que me deveria sentir envergonhado de dias e serões passados assim, mas como alguns dos meus amigos eram muito agradáveis e estávamos todos muito animados, não posso deixar de me lembrar desses tempo com prazer. (...)

Ainda não mencionei uma circunstância que influenciou a minha carreira mais do que qualquer outra: a minha amizade com o Prof. Henslow. Antes de ir para Cambridge ouvira falar dele pelo meu irmão, como um homem que conhecia todos os ramos da ciência, e estava por consequência disposto a venerá-lo. Uma vez por semana recebia todos os que quisessem ir a sua casa, e todos os estudantes e vários membros mais velhos da Universidade que se dedicavam à ciência costumavam passar aí o serão. Cedo recebi um convite, através de Fox, e comecei a lá ir regularmente. Depressa me tornei íntimo de Henslow, e durante a segunda metade da minha estada em Cambridge dei longos passeios a pé com ele quase todos os dias; de modo que alguns dos professores me chamavam «o homem que passeia com Henslow»; e ao serão era muitas vezes convidado para o jantar em família. Os seus conhecimentos em botânica, entomologia, química, mineralogia, e geologia eram extensos. O seu gosto mais forte era tirar conclusões a partir de observações prolongadas e minuciosas. O seu discernimento era excelente e toda a sua mente era equilibrada; mas não creio que alguém possa dizer que tivesse um talento muito original. Era profundamente religioso (...). As suas qualidades morais eram admiráveis sob todos os pontos de vista. Não tinha o mais leve laivo de vaidade ou qualquer sentimento mesquinho; e nunca vi um homem que se preocupasse tão pouco com ele próprio ou com os seus problemas. Estava sempre sereno, e os seus modos eram afáveis e cheios de cortesia; e no entanto, como testemunhei, podia chegar à mais viva indignação e rápida tomada de acção se presenciasse alguma vileza.

(Darwin fala sobre a sua vida na sua autobiografia)



Como pôde Darwin chegar a ser o Darwin autor da teoria evolutiva que hoje tão bem conhecemos? Segundo o próprio, a sua educação apenas o ajudou muito pouco ou nada; devemos até ir mais longe e dizer que a sua educação contribuiu muito mais para o afastar do estudo científico do que para o aproximar à ciência. A figura do professor enquanto modelo e orientador é fundamental, já todos os sabemos. Não é coisa que precise de confirmação por meio de documentos. A mestria de Darwin reside, por um lado, no seu gosto e na sua curiosidade incansável pelo mundo que o rodeia, o mundo geológico e natural (serão estas características inatas? É bem possível que assim o seja.); por outro lado, a presença de um grande mestre orientador como Henslow - certamente a vários níveis, e nem sempre ao nível académico - foi completamente fundamental para o desenvolvimento na prática de todos os dias da jovem mente de Darwin. Não só o seu professor o guiou desta forma, como também foi o principal responsável pela aventura de Darwin a bordo do navio Beagle ao sugeri-lo como a pessoa indicada a ocupar o cargo entretanto vago de naturalista oficial da embarcação ao capitão FitzRoy. Ainda durante a viagem, foi Henslow que recebeu os espécimes geológicos, animais e vegetais enviados por Darwin, reencaminhando-os para os especialistas em cada uma das áreas. Quando Darwin chegou à sua Inglaterra depois dos cinco anos que durou a sua grande viagem à volta do globo, já era conhecido nos círculos científicos e gozava de uma honrosa reputação. Tudo graças a Henslow. Aqui se prova a importância da figura do mentor, orientador essencial no desenvolvimento do potencial do jovem neófito. A responsabilidade do professor ultrapassa as paredes da academia: vai para além das aulas e das instituições; o verdadeiro professor é um inspirador das jovens mentes, um ponto de apoio das pontes que vão do presente ao futuro. O verdadeiro professor tem forçosamente de ser um excelente visionário - visionário porque tem de ser capaz de ver, para lá das fronteiras do tempo e do espaço, qual o valor do seu aluno ainda antes de ele se ter cumprido. Esta é uma das muitas lições que a história nos conta, e a razão pela qual tantos erros do passado se continuam a repetir só pode estar no desconhecimento da história da humanidade. A nossa missão é garantir que os erros não se repetem.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

parabéns, Darwin!



...não será por fazeres 200 anos, mas sim pelo enorme legado que deixaste à ciência.











(Vamos falar abertamente, independentemente dos devaneios interpretativos que alguns fizeram em nome da sobrevivência do mais apto.)

Conseguiste mostrar o que é a evolução e fazer o mundo andar para a frente.

Foste a pedrada no charco estagnado da moral vitoriana.

Transmitiste o teu amor pela natureza na força que puseste em estudar vários assuntos da geologia e da história natural.

Atraíste para ti, e na verdade sem te dares a grandes devaneios, pessoas ilustres que muito lutaram pelo melhoramento da sociedade. É inegável a grandeza da alma de um Henslow ou de um Huxley.

Contigo, o mundo deixou de ser estático e passou a poder evoluir no sentido que, a cada momento, é mais favorável.

E, finalmente, no que toca à Biologia de hoje, conseguiste com a tua teoria criar um modelo que unifica toda a história da vida e que mostra que, num sentido bem cristão, todos os seres são parentes entre si.

mas o que é que está a acontecer?!









agora desatou tudo a fazer filmes interessantes? Será que finalmente as pessoas se começam a cansar do vazio insuportável em que vivemos?

(Na verdade, sinto-me tentado a dizer que o vazio sartriano trazido à boca de cena pelo existencialismo francês era a materialização francófona de um contínuo e profundo descontentamento premonitório da instalação insidiosa de um modo de vida artificialmente fabricado nos estados unidos do pós-guerra, e não uma consideração racionalizada da falta de sentido que a vida aparenta ter. Mas não vou dizê-lo - é que pode ser apenas mais um dos devaneios da minha mente.)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

nenhuma forma de ciência é acrónica.
most science books make lots of sense once you know already what's in them.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

contar a história



and the winner is...









Milk (Gus van Sant, 2009)

E assim se prova que o cinema nunca irá morrer. Não é possível que o cinema, a literatura, ou qualquer outra arte possam extinguir-se. Há sempre algo mais a relembrar, há sempre um universo para descobrir. O nosso pequeno e limitado mundo está cheio de pessoas especiais que arriscaram a sua própria vida para dar vida a outros. Há sempre mais uma história para contar, há sempre mais uma história à espera de ser contada. Há sempre algo que desconhecemos, heróis que ficam esquecidos, imagens que se diluem na voracidade capitalista do progresso. Enquanto houver uma só pessoa à face da terra que não saiba quem é Freud, enquanto houver uma só pessoa que não saiba quem é Darwin, enquanto não nos lembrarmos do processo infernal que Galileu passou, enquanto não nos lembrarmos das fogueiras onde Joana D'Arc e Giordano Bruno arderam, enquanto não nos ensinarem os exemplos de Pasteur e de Da Vinci, de Fleming e de Rodin, de Fernando Pessoa e António Vieira, de Bertolucci e do Professor Agostinho da Silva; enquanto estes nomes forem manchados em conferências abjectas dentro e fora da escola, enquanto as ideias destes homens forem deturpadas e simplificadas, enquanto continuarmos a deixar que a memória daqueles que realmente fizeram e fazem mover o mundo seja apagada impunemente teremos sempre e repetidamente o maior pretexto que é possível conceber para lutar contra a ignorância. Só a ignorância é suficiente para causar todos os males que existem no mundo. Só a difusão da cultura pode conseguir extrair pela raiz a ignorância do mundo. E aqui está, simultaneamente, aquilo que faz uma obra de arte ser artística e poeticamente superior: a presença e a grandeza da mensagem que representa. O objectivo da arte é elevar a humanidade. O objectivo da arte não é, nem poderá nunca ser, a perpetuação de uma qualquer elite intelectual. É preciso procurar a poesia de uma BD como American Splendor. É preciso encontrar a força de um V for Vendetta no nosso mundo. É preciso perceber porque são tão actuais os estudos do professor Kinsey. É preciso continuar a reflectir na importância da trajectória de uma vida humana como a de Benjamin Button. É preciso continuar a reflectir sobre o papel da ciência em Frankenstein. É preciso manter a chama da memória acesa.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

a literatura sempre foi a melhor maneira que encontrei de fugir à realidade abjecta que nos devora.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

os clássicos

o problema que separa os clássicos do ordinary common man of everyday é a distância histórica que separa esse homem do contexto no qual o clássico foi concebido. Se a eternidade fosse entre nós só uma, e os acidentes do espaço não fossem tão prementes, facilmente conseguiria qualquer homem chegar até à época em que o clássico se situa. O problema desta nossa realidade temporal e espacialmente finita é o da sucessão inexorável do tempo e do consequente esquecimento daquilo que houve de real no tempo que passou. Se cada homem visse a história como um todo, se cada homem se apercebesse da continuidade histórica que existe e que sempre existiu entre todos os momentos da história do mundo - aí seria impossível considerar os clássicos como algo abstruso e inalcançável, seria impossível não se sentir um igual entre eles. Todo este erro enorme da percepção da história e da passagem do tempo é consequência do desenvolvimento capitalista da sociedade científica que temos. O esquecimento só pode acontecer quando a memória do passado não é preservada, e só é possível que se sinta uma desidentificação com outros contextos históricos quando se olha para o passado como algo menos evoluído e sem relação nenhuma com o presente.

Assim, como será possível transpor o fosso que hoje há entre os clássicos e cada um de nós? Só uma resposta pode ser válida: é preciso reconhecer os fios da continuidade histórica que nos ligam a todos. É preciso reconhecer a continuidade histórica na história e na filosofia; é preciso reconhecer a continuidade histórica na arte e na ciência; é preciso compreender que nada neste mundo faz, fez, ou fará sentido, sem compreender o modo como a história se desenrola desde o início da cultura.

Assim, só há uma tarefa realmente importante a cumprir neste momento: desenvolver e cultivar a consciência histórica de tudo quanto existe no mundo. Tudo é história.