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sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Concepção estética
O objecto artístico cuja função não vá para além da mera contemplação estética é, enquanto objecto poético, menor. Só o objecto artístico que tem um Ideal por detrás (e que o sustente); isto é, que seja, para além de objecto de contemplação estética, uma representação de um Ideal superior à sua própria condição finita e limitada, pode ser considerado como uma criação. Isto significa que a verdadeira criação estética será aquela que não só é bela, ou digna de contemplação, mas que também se transcende ao espelhar uma mensagem abstracta, um conceito da inteligência, que remete para algo mais. A verdadeira criação não se fixa numa beleza física ou na simples harmonia das formas; ela tem ainda, e infinitamente superior à anterior, um valor semântico. Deste modo, o objecto poético verdadeiramente superior é aquele que, tal como na filosofia de Platão, se cumpre enquanto representação de uma realidade superior, a realidade conceptual, ou o Céu das Ideias.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
o individualismo é uma extensão natural do desenvolvimento cultural da humanidade. O homem só pode ser plenamente o que é a sós, livre da influência que as ficções sociais exercem sobre ele no contexto social em que vive. O que é prejudicial é que só exista o individualismo. Mas o que nós temos que ver é que não há outra solução para que o potencial de cada um se cumpra senão passar pelo individualismo. Exactamente como defende Pessoa na sua obra O Banqueiro Anarquista, basta que o homem se situe num contexto colectivo para que se estabeleça uma subtil ditadura, mesmo que as intenções de cada um desses homens que formam o colectivo possam ser puras. Temos, portanto, que trabalhar incansavelmente para o avanço da humanidade a sós connosco, e procurando libertar-nos de toda e qualquer ficção social que possa atrasar o cumprimento da revolução anarquista.
Por outro lado, dadas as características da sociedade em que vivemos, os agrupamentos sociais poderiam ter muito mais força mobilizadora do que a força individual. Assim, propõe-se que as próximas revistas literárias que surjam no meio intelectual, ou qualquer outro mecanismo que tenha como ideal máximo a liberdade absoluta, sejam construídos pela única e exclusiva contribuição individual de cada um dos seus intervenientes. A união deve existir em espírito, não na prática. A única coisa que é realmente necessária para que a contribuição individual de cada um se possa fazer ouvir é que exista alguém honesto que colija, imprima e distribue os panfletos libertários. E quando nós falamos em congressos científicos já estamos a ter um vislumbre de uma situação que terá de ser mais bem cultivada no futuro.
Por outro lado, dadas as características da sociedade em que vivemos, os agrupamentos sociais poderiam ter muito mais força mobilizadora do que a força individual. Assim, propõe-se que as próximas revistas literárias que surjam no meio intelectual, ou qualquer outro mecanismo que tenha como ideal máximo a liberdade absoluta, sejam construídos pela única e exclusiva contribuição individual de cada um dos seus intervenientes. A união deve existir em espírito, não na prática. A única coisa que é realmente necessária para que a contribuição individual de cada um se possa fazer ouvir é que exista alguém honesto que colija, imprima e distribue os panfletos libertários. E quando nós falamos em congressos científicos já estamos a ter um vislumbre de uma situação que terá de ser mais bem cultivada no futuro.
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sexta-feira, 25 de julho de 2008
A imaginação é a memória que enlouqueceu.
(Mário Quintana)
a imaginação é memória porque não existe nada a que chamemos imaginação que não se encontre primeiro na nossa memória. A imaginação não tem nada de verdadeiramente original, trata-se apenas de uma reorganização dos elementos (das partes) com as quais já tivemos contacto, assim como a imagem de um pégaso resulta da combinação de dois elementos perfeitamente banais que já existiam na imaginação: um cavalo e umas asas. A combinação de diferentes partes é mais sublime quando a loucura se apodera de nós, ou quando a ela estamos mais receptivos. A desordem é a força motriz da imaginação. E a imaginação só não é memória quando de uma nova combinação surge uma propriedade completamente diferente, um princípio emergente.
(Mário Quintana)
a imaginação é memória porque não existe nada a que chamemos imaginação que não se encontre primeiro na nossa memória. A imaginação não tem nada de verdadeiramente original, trata-se apenas de uma reorganização dos elementos (das partes) com as quais já tivemos contacto, assim como a imagem de um pégaso resulta da combinação de dois elementos perfeitamente banais que já existiam na imaginação: um cavalo e umas asas. A combinação de diferentes partes é mais sublime quando a loucura se apodera de nós, ou quando a ela estamos mais receptivos. A desordem é a força motriz da imaginação. E a imaginação só não é memória quando de uma nova combinação surge uma propriedade completamente diferente, um princípio emergente.
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terça-feira, 22 de julho de 2008
Apologia ao surfista
o próximo ensaio a ser construído será a Apologia ao Surfista e nele irão constar todos os argumentos que existem, e que são cada vez mais válidos nos tempos que correm, em defesa dessa grande arte que é ser surfista. Segue aqui um pequeno excerto para abrir o apetite a quem quiser.
Se outrora foi Portugal reino de grande e abundante navegador que, apesar de analfabeto e sem saber declinações latinas ou diálogos gregos conseguiu cruzar os oceanos que separavam o mundo e unir as terras que havia separadas, hoje, diremos nós, é o nosso Portugal tão digno de reverência como esse das glórias passadas; e tudo se deve, ainda, à magnífica costa e às belíssimas praias que doiram a orla das suas vestes. Que esse minério precioso que tanto general espanhol cobiçou fosse valioso; que essa talha que orna o altar-mor da basílica de S. Pedro seja digna de admiração; que os tesouros de Versailles sejam de um luxo sumptuoso que pasmou príncipes e princesas; nada disso pomos nós em causa; mas a verdade é que nenhum desses tesouros, já de si tão grandes e elevados, se compara ao ouro verdadeiro das areias do nosso Portugal. Curiosa afirmação esta, poderá pensar o incauto leitor que deve reverência, assim como todos nós, aos ombros dos gigantes do passado nos quais nos sentamos ou alegremente nos empoleiramos para ver mais longe; curiosa afirmação que vota todas essas criações da natureza para um patamar inferior ao da vulgar areia de qualquer praia portuguesa; é esta, porém, afirmação ponderada e em tanto verdadeira como o leitor verá já de seguida.
Elogio ao Surfista (inédito)
Se outrora foi Portugal reino de grande e abundante navegador que, apesar de analfabeto e sem saber declinações latinas ou diálogos gregos conseguiu cruzar os oceanos que separavam o mundo e unir as terras que havia separadas, hoje, diremos nós, é o nosso Portugal tão digno de reverência como esse das glórias passadas; e tudo se deve, ainda, à magnífica costa e às belíssimas praias que doiram a orla das suas vestes. Que esse minério precioso que tanto general espanhol cobiçou fosse valioso; que essa talha que orna o altar-mor da basílica de S. Pedro seja digna de admiração; que os tesouros de Versailles sejam de um luxo sumptuoso que pasmou príncipes e princesas; nada disso pomos nós em causa; mas a verdade é que nenhum desses tesouros, já de si tão grandes e elevados, se compara ao ouro verdadeiro das areias do nosso Portugal. Curiosa afirmação esta, poderá pensar o incauto leitor que deve reverência, assim como todos nós, aos ombros dos gigantes do passado nos quais nos sentamos ou alegremente nos empoleiramos para ver mais longe; curiosa afirmação que vota todas essas criações da natureza para um patamar inferior ao da vulgar areia de qualquer praia portuguesa; é esta, porém, afirmação ponderada e em tanto verdadeira como o leitor verá já de seguida.
Elogio ao Surfista (inédito)
quarta-feira, 16 de julho de 2008
por um qualquer processo místico que desconheço, a verdade aparece-me enquanto falo com alguém. Talvez seja porque quem fala, quando me perguntam algo, não seja eu, mas uma outra realidade (talvez ela a única real) que não se pode privar de se expressar livremente e da melhor maneira que lhe convier.
terça-feira, 15 de julho de 2008
Quando escrevo, escrevo para contrapor àquilo que já foi escrito. Uma das maiores missões é a de encontrar nos outros os erros que, segundo nós, nos parecem saltar para o centro e minar o perfeito cumprimento da centelha do divino que em nós vive. As lisonjas nunca ajudaram ninguém. Só a crítica pode mostrar aos outros o que falta ainda conquistar, a aresta que urge limar. É pela crítica que nos vamos aperfeiçoando.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Já estive com muitas pessoas. Já estive com pessoas que tinham muita educação, e já estive com pessoas que tinham muito pouca. Mas de todas as vezes sempre ressaltou a mesma característica que uns e outros tinham bastante presente e demasiadamente vincada: a tacanhez do seu espírito. Seja entre aqueles que pensam que sabem muito, ou entre aqueles que pensam que sabem pouco, parece existir sempre uma barreira, que é sempre uma barreira mental, e que vive impedindo as suas mentes de se abrirem à contemplação daquilo que é realmente grande. Tanto nuns como noutros encontrei a formatação precisa daquilo que a si próprios impuseram: os seus amigos falavam como eles, pensavam como eles, sentiam como eles. Todos eram os mesmos robôs caminhando por um mesmo passo ao sair de uma e a mesma fábrica. Quem não fosse como eles, só podia sobreviver de uma maneira: ou se tornava igual a eles, vivendo o mesmo estilo de formatação para o resto da vida e vendendo o resquício de liberdade que soçobrasse ao claustro das frases feitas; ou então tornava-se diferente deles, e para sempre tão diferente que era impossível granjear-lhes a amizade, já para não falar da confiança, estando eternamente condenado, qual Sísifo errante, a errar também, sozinho, pelas planícies do desconhecido. Agora que me dou conta, noto que sempre escolhi o segundo caminho, e que outro caminho não haveria para mim se quisesse ser aquilo que realmente sou. Se lamento tê-lo feito, isso nunca, porque está escrito que o caminho da liberdade se caminha a sós consigo, e não há outra maneira de nos tornarmos conscientemente, e pelo desenvolvimento das nossas próprias capacidades inatas, a chama celeste que um dia escolheu como morada, ainda que provisória, esta terra que por agora ainda pisamos.
sábado, 5 de julho de 2008
Toda a filosofia que não tenha em conta os mais recentes desenvolvimento científicos é uma filosofia ultrapassada. Se é certo que a filosofia nada pode contra a verificação experimental científica, a verdade é que a ciência pode resolver e já resolveu várias controvérsias filosóficas que surgiram ao longo da história. Conseguimos apontar como exemplos o desenvolvimento da bomba de vácuo e a confirmação experimental de que o vácuo existe - que ele existe, já o sabemos; falta agora saber qual a sua natureza - , os estudos sobre histeria de Charcot e Breuer que mostram ser verdadeira a existência de uma dimensão psíquica que está para além do estado consciente humano, o desenvolvimento de uma termodinâmica assente na ideia de que a entropia do universo cresce sempre em qualquer reacção espontânea e, talvez a mais badalada e importante de todas, especialmente no contexto histórico em que vivemos; a ideia de que a competição entre indivíduos existe e é necessária para a evolução da espécie - que aliás está na base do desenvolvimento da economia capitalista, sobretudo, e que fez surgir outras formas de pensar a economia, como aquelas que ficaram conhecidas por comunismo. Da filosofia pode a ciência aprender a maneira como resolver os impasses racionais a que chega, tanto pela crítica às conclusões que podem ser elaboradas a partir de um resultado experimental como pela consciência dos processos dialécticos de inspiração marcadamente hegeliana que orientam e estruturam a sua evolução conceptual. Mas, de facto, se o filósofo pretende construir um sistema que lhe permita entender como funciona esse éter inominável que liga as diferentes partes de um mundo indiviso, tem forçosamente de olhar para a ciência como fonte das observações e premissas a partir das quais poderá ser reconstruída uma saída, um caminho a direito, para que a humanidade possa evoluir até ultrapassar as mais utópicas idealizações que nos possam discorrer pela mente.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
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