quinta-feira, 31 de julho de 2008

as palavras nunca dizem o que somos.
o segredo da felicidade é não guardar segredos sobre nada.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A Genialidade por Salvador Dalí



What do you think you've contributed to Art?
Al Arte, absolutamente nada.
Nada?
Nada. (...) Como digo siempre, soy muy mal pintor por la razón de que soy demasiado inteligente para ser buen pintor. Para ser buen pintor hay que ser un poco burro. (...) a menos Velázquez, que es un genio que pasa de mucho el acto pictórico... y a la vida, pués le debo todo; porque el día que Dalí hiciera un cuadro bien hecho como Velázquez o como Vermeer, o como Raphael; o una música como Mozart, en la semana siguiente el se muere. Entonces, yo prefiero hacer cuadros malos y vivir más tiempo.


agradecemos a preciosa contribuição do linguista d. na revisão desta fixação da entrevista de Dalí.

Fascinam-me muito mais as pessoas mais novas. Há qualquer coisa no mundo que corrompe as pessoas à medida que vão crescendo. Possivelmente será o contacto com outras pessoas. Certamente será o contacto com pessoas mais velhas. Quando alguém pensa que já sabe tudo, torna-se velho. A maior parte das gentes que encontrei por aí são velhos dos pés à cabeça. Os mais perigosos são aqueles que se vestem com roupas de gente nova para esconderem a velhice que têm em cima. É preciso despir as pessoas para não ter surpresas desagradáveis.
Se algum dia me fizerem uma estátua será certamente sem o meu consentimento.
o amor é eterno, a relação é temporal.
até na cama, e especialmente aí, são as pessoas iguais a elas próprias.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Detesto a subserviência com que algumas pessoas se cobrem somente para poderem esconder de si aquilo que não querem dar aos outros. Detesto de igual modo a superior arrogância daqueles que tomam essa subserviência nas mãos como um dado adquirido e monopolizam para si toda a importância e validade lógica dos seus pretensos raciocínios lógicos. Mas o que mais detesto, e mais ainda que estes dois casos anteriores, é a miséria em que estão afundados aqueles que não sentem uma ponta de estranheza por isto ser tudo assim quando o é.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

o individualismo é uma extensão natural do desenvolvimento cultural da humanidade. O homem só pode ser plenamente o que é a sós, livre da influência que as ficções sociais exercem sobre ele no contexto social em que vive. O que é prejudicial é que só exista o individualismo. Mas o que nós temos que ver é que não há outra solução para que o potencial de cada um se cumpra senão passar pelo individualismo. Exactamente como defende Pessoa na sua obra O Banqueiro Anarquista, basta que o homem se situe num contexto colectivo para que se estabeleça uma subtil ditadura, mesmo que as intenções de cada um desses homens que formam o colectivo possam ser puras. Temos, portanto, que trabalhar incansavelmente para o avanço da humanidade a sós connosco, e procurando libertar-nos de toda e qualquer ficção social que possa atrasar o cumprimento da revolução anarquista.

Por outro lado, dadas as características da sociedade em que vivemos, os agrupamentos sociais poderiam ter muito mais força mobilizadora do que a força individual. Assim, propõe-se que as próximas revistas literárias que surjam no meio intelectual, ou qualquer outro mecanismo que tenha como ideal máximo a liberdade absoluta, sejam construídos pela única e exclusiva contribuição individual de cada um dos seus intervenientes. A união deve existir em espírito, não na prática. A única coisa que é realmente necessária para que a contribuição individual de cada um se possa fazer ouvir é que exista alguém honesto que colija, imprima e distribue os panfletos libertários. E quando nós falamos em congressos científicos já estamos a ter um vislumbre de uma situação que terá de ser mais bem cultivada no futuro.

sábado, 26 de julho de 2008

a competição é a maneira mais rápida de atingir a comunhão.



Um dia, quando a Biologia, e especialmente a interessantíssima área da Sociobiologia, estiver mais desenvolvida, vamos chegar à conclusão de que todos os seres, em todos os momentos, tendem para a comunhão, e não para a competição. Como advoga a Professora Lynn Margulis, a sobrevalorização da competição em detrimento da comunhão deve-se essencialmente à tacanhez do espírito humano, pois encontra-se este no mundo em que hoje vivemos impregnado de terríveis conceitos e princípios económicos, na sua maioria capitalistas, e que minam todo o pensamento que se quer perfeitamente científico. Aliada a esta deturpação dos fenómenos que leva ao menosprezo dos processos simbiogénicos, está a pretensa atitude ateia, tantas vezes escorregando no antirreligiosismo, e que não deixa de ser mais uma forma de fanatismo religioso disfarçado com equações matemáticas. Curiosíssima é a constatação de que até o próprio Darwin, tantas vezes apontado como o sacerdote do "salve-se quem puder" social, deixou claro nos seus escritos, num prenúncio que até se poderia classificar como poético, que a divergência das espécies mais parece mostrar que elas são avessas a essa mesma competição: divergindo, isto é, modificando-se, podem passar a especializar-se de modos diferentes e ocupar diferentes nichos ecológicos dentro de um mesmo ecossistema, evitando a todo o custo esse peso que é ter de competir com o seu semelhante por alimento e espaço.

a vida é um trade-off

a vida é um trade-off, e é por isso que é importante ser um bom comerciante.
No Country for Old Man é um péssimo filme, e só deverá ser superado pelo livro que lhe serviu de suporte. Ou isso ou alguém conseguiu estragar um livro mediano. Na verdade, esse filme é um grande monumento à cultura light que hoje temos: espreme-se a laranja seca para ver se sai sumo, mas não corre nem uma pinga. Até os romances do Saramago são melhores que esse filme. Pelo menos têm, ainda que não seja transcendente, algum conteúdo.

o Artista

o Artista não escreve para ninguém, senão para ele próprio. Prova disso é que ele apenas usa a sua língua.

o Artista escreve para que todos o leiam. Prova disso é que ele arranja todos os meios para que as pessoas leiam aquilo que escreve.

o Artista, se é Artista, não pede permissão a ninguém. Nunca a imaginação pediu permissão para se expressar.

o videoclip: elemento de uma estética superior

porque será que conseguimos sentir no videoclip algo que escapa às restantes estéticas? Deve haver certamente algo mais no videoclip que faz com que ele seja um elemento estético superior. Debruçando-me um pouco sobre o assunto descobri por meio de um insight o que era esse algo. No videoclip, assim com o não acontece em nenhuma outra forma de expressão estética, três elementos completamente diferentes concorrem para o mesmo ponto: a letra, que é um texto construído a partir da linguagem escrita; a imagem, que é uma construção feita a partir dos estímulos visuais que podemos receber dos objectos do quotidiano; e a música, que é uma composição construída a partir de vibrações sonoras. Cada um destes elementos possui uma natureza diferente e não sobreponível, incomensurável. Mas o que é admirável é que, quando juntos, a interacção de uns com os outros transcende a sua própria condição singular, transforma essa condição singular em algo mais, revela propriedades emergentes únicas, e as redes semânticas e os jogos semânticos que se criam transcendem a própria semântica de cada um dos elementos isolados.


Experimental evidences (interacções):

- O texto escrito é musicado, e portanto o ritmo da música imprime no texto falado (notar que o facto do texto escrito passar a falado já faz com que este se transforme em música, e, portanto, em vibração) uma nova cadência, uma cadência que pode levar a que o original significado das palavras, ou o original significado que as palavras tinham no texto, seja dilatado ou contraído (estendendo a sua importância, ou escolhendo-a); a ênfase modifica-se - mas o que é importante notar é que esta nova ênfase não destrói a anterior, antes se constrói em cima da outra, e portanto o resultado final é um edifício com vários níveis semânticos, que dependem da capacidade do analista para compreender e para ver essas interacções, as subtilezas que transcendem a condição finita do texto. Como as palavras são, cada uma delas, um símbolo a sós, apoiamos este arrazoado nas análises de Eliade: os símbolos podem adquirir novos significados dependendo do contexto cultural, mas não perdem os seus significados mais ancestrais; são aliás esses que fundamentam os actuais. A matriz cultural, a mais ancestral, permanece.

- A conexão entre imagem e música pode não ser tão óbvia, mas se dissermos que a imagem apresenta movimento então aí já é possível haver uma conexão, e bem vincada, com a música. O movimento, a alteração de posição de determinados objectos, pode ocorrer a vários ritmos, do mais rápido ao mais lento. De igual modo, a música também pode correr a um ritmo mais rápido ou mais lento, dependendo do compasso que se segue. Portanto, assim como na interacção entre letra e música, a imagem (ou imagem em movimento) e a música podem interligar-se de tal forma que as duas se tornam interdependentes, não fazendo sentido quando isoladas - como argumento veja-se o excelente videoclip Star Guitar dos Chemical Brothers.

- A conexão entre imagem e letra pode parecer mais difícil dada a sua substancial e diferente natureza, mas é possível compreender de que forma é que as duas se interligam se analisarmos alguns aspectos que têm em comum. Ambas são símbolos físicos, a letra escrita e o objecto que serve de suporte à imagem; ambas servem como representação de alguma semântica; ambas são partes integrantes do nosso dia-a-dia. Na verdade, a imagem pode apoiar a palavra reforçando o seu significado, estendendo ou encurtando a sua ênfase, ou mesmo acrescentando outros efeitos de sentido, assim como na interacção entre música e letra. A imagem pode tornar-se no símbolo físico tornado abstracto de uma realidade concreta descrita pela palavra. De qualquer modo, transcende-se uma vez mais a condição de ambas. Sobre este jogo semântico poder-se-á ver, a título de exemplo, e sobretudo enquanto sólido argumento, a interacção entre palavra e imagem no filme Os Sonhadores de Bertolucci.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Dear Prudence, won't you open up your eyes?

A imaginação é a memória que enlouqueceu.
(Mário Quintana)


a imaginação é memória porque não existe nada a que chamemos imaginação que não se encontre primeiro na nossa memória. A imaginação não tem nada de verdadeiramente original, trata-se apenas de uma reorganização dos elementos (das partes) com as quais já tivemos contacto, assim como a imagem de um pégaso resulta da combinação de dois elementos perfeitamente banais que já existiam na imaginação: um cavalo e umas asas. A combinação de diferentes partes é mais sublime quando a loucura se apodera de nós, ou quando a ela estamos mais receptivos. A desordem é a força motriz da imaginação. E a imaginação só não é memória quando de uma nova combinação surge uma propriedade completamente diferente, um princípio emergente.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Tudo o que fazemos é pequeno demais para tudo aquilo que sonhamos.

because love is all, love is new



a provar que ainda há quem faça autênticas obras de arte, está este magnífico Across The Universe inexoravelmente marcado na minha cabeça. E em tudo aquilo que a cabeça transcende.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Apologia ao surfista

o próximo ensaio a ser construído será a Apologia ao Surfista e nele irão constar todos os argumentos que existem, e que são cada vez mais válidos nos tempos que correm, em defesa dessa grande arte que é ser surfista. Segue aqui um pequeno excerto para abrir o apetite a quem quiser.


Se outrora foi Portugal reino de grande e abundante navegador que, apesar de analfabeto e sem saber declinações latinas ou diálogos gregos conseguiu cruzar os oceanos que separavam o mundo e unir as terras que havia separadas, hoje, diremos nós, é o nosso Portugal tão digno de reverência como esse das glórias passadas; e tudo se deve, ainda, à magnífica costa e às belíssimas praias que doiram a orla das suas vestes. Que esse minério precioso que tanto general espanhol cobiçou fosse valioso; que essa talha que orna o altar-mor da basílica de S. Pedro seja digna de admiração; que os tesouros de Versailles sejam de um luxo sumptuoso que pasmou príncipes e princesas; nada disso pomos nós em causa; mas a verdade é que nenhum desses tesouros, já de si tão grandes e elevados, se compara ao ouro verdadeiro das areias do nosso Portugal. Curiosa afirmação esta, poderá pensar o incauto leitor que deve reverência, assim como todos nós, aos ombros dos gigantes do passado nos quais nos sentamos ou alegremente nos empoleiramos para ver mais longe; curiosa afirmação que vota todas essas criações da natureza para um patamar inferior ao da vulgar areia de qualquer praia portuguesa; é esta, porém, afirmação ponderada e em tanto verdadeira como o leitor verá já de seguida.

Elogio ao Surfista (inédito)
a vida é o poço onde todas as contradições são reais.

strawberry fields forever