sábado, 22 de março de 2008

o pintor que era poeta

De Tarde

Naquele pique-nique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!


Cesário Verde
c'est
l'impressioniste













Monet

4 comentários:

Nynuphar disse...

O pintor que era poeta ou o poeta que era pintor? =P bjinho

Daniel disse...

Cesário Verde é o pintor que era poeta. Basta ler uma poesia dele para ver isso: ele não fazia poesia, ele pintava quadros. Este poema é exemplar nesse aspecto, conseguimos visualizar com nitidez as matizes com que o pintor pinta o seu quadro impressionista. E olha que a fazer isso como ele não há muitos que o consigam.

Beijinho

tgv disse...

De facto, a escrita parece um desenho feito com mão certeira. Traçado perfeito.


t

Daniel disse...

um perfeito traço impressionista. O poema é uma merenda para a imaginação!

abraço