sábado, 15 de março de 2008

Obra poética de António Gedeão



António Gedeão tem muita porcaria nos poemas que escreveu. Às vezes são poemas inteiros, em que se discorre sem se dizer nada, ou apenas repisando o já repisado; e por vezes certos versos, certas passagens de um encanto miraculoso surgem a afastar as sombras tenebrosas da razão que teimosamente aflora a sua imaginação poética. Os poemas que são todos lixos à excepção destes pequenos e precisos rasgos de génio não podem ser considerados os seus melhores poemas, apenas podem ser considerados os poemas que têm os melhores versos, os melhores rasgos ou as melhores centelhas de génio. Os melhores poemas de António Gedeão são aqueles em que a força da crítica brota com mais à-vontade, ou em que uma razão organizadora e intelectualizante torna claríssima, por vezes mesmo científica - como a dos dicionários - e cientificamente esclarecedora, a realidade, como em "Hora H". O ritmo assume um papel preponderante na sua Poética. António Gedeão não seria António Gedeão se não tivesse o ritmo magnífico que o poeta lhe imprime nas doses compassadas de uma "Calçada de Carriche" ou de um "Poema de pedra lioz". Fortemente vincados são os seus assomos periódicos de uma descrença no progresso e esclarecimento da humanidade como um todo, que desemboca por vezes até na descrença de um futuro para a humanidade. Estes sentimentos disfóricos são, em alguns casos, transmutados na linguagem poética - ora com mais raiva, ora com mais sentimento - para uma pulsação vibrante que eleva a sua condição e mesmo a transcende, como no "Poema do poste com flores amarelas". A amargura, porém, ressalta em fortes impressões disfóricas e marca uma presença constante - apenas por vezes superada por meio dessa transcensão - em toda a obra: "Poema da mulher dos cabelos brancos", "Poema do gato", "Poema do autocarro", "Poema do homem só", etc. O sentido crítico apurado de António Gedeão escolhe por vezes brincar com o lado cómico dos episódios que constituem o teatro da humanidade, e a sua mestria em exortar e engrandecer ilustres figuras para depois os ridicularizar no cerne da sua própria condição é uma das suas características mais vincadas, e bem presentes nos prazenteiros "Poema do fecho éclair", "Dia de Natal" e "Estatística". Mais importante do que o seu cepticismo face à religião (com referências cristãs, como em "Dia de Natal") e a sistemas esotéricos (e.g. alquimia, em "Poema do alquimista"), é a sua capacidade especulativa acerca do modo como cada ser percepciona o mundo e estabelece o que é e não é real para si (ver "Impressão digital"), a impossibilidade de atingir uma compreensão e um conhecimento verdadeiros acerca daquilo que existe e a que chamamos mundo (ver "Forma de inocência"), a importância do sonho como fonte, causa e fundamento da existência humana (ver "Pedra Filosofal"), a importância de manter em si a criança rebelde e indisciplinada que é a mãe da imaginação criadora e a sua relação com um mundo que lhe é exterior e que procura contê-la e discipliná-la, num jogo de tensões entre contrários inconciliáveis (ver "Autobiografia"), outro jogo de forças que existe entre a esperança do poeta na evolução da humanidade e a realidade esmagadora e opressora de toda a liberdade (ver "Poema do autocarro"), a procura de uma comunhão com outros homens e o questionamento acerca da validade que poderá ter ousar levar a cabo essa árdua tarefa (ver "Poema dos homens distantes") e, finalmente, mas não menos importante, uma sempre constante tentativa de imaginar o mundo como será num futuro em que o poeta não o poderá viver enquanto homem que resulta, muitas vezes, numa visão de um futuro sem esperança (ver "Poema da buganvília", "Poema do alegre desespero") ou onde, por outro lado, apenas uma pequena e ténue esperança raia num horizonte incerto e difuso (ver "Poema do eterno retorno"). Ainda assim, a maior mestria de António Gedeão talvez seja mesmo o dom que tem de fundir ciência e arte, ou mesmo ciência e história, com um cuidado que pode mesmo ser considerado pedagógico. Grande virtude esta, e tão actual e necessária nos dias que correm, de fundir e conciliar os princípios que à primeira vista parecem mais contraditórios que complementares. António Gedeão consegue fazer a síntese deste conhecimento e brilhar como nenhum poeta nos seus magníficos "Pedra filosofal", "Lágrima de preta" e "Lição sobre a água". É impossível ficar indiferente à profunda força que anima o seu discurso poético, especialmente quando o ritmo tão vincado e tão importante neste contexto demarca a sua poesia em todo o seu fulgor, beleza e irradiância. António Gedeão tornou-se o poeta científico mais importante do nosso tempo e seduziu-nos nos seus ritmos musicais com tal intensidade que conquistou para sempre um lugar no coração de todos os homens. Urge conhecer a vida e obra deste cientista feito poeta para que com ele possamos aprender como casar arte e ciência e dar à luz o século XXI de que o nosso mundo precisa. Haja vontade.

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