segunda-feira, 19 de novembro de 2007

A Alameda

A Alameda estava despida de toda a claridade. Graves postes de iluminação baça distinguiam-se entre as fileiras de casas brancas e azuis. A sua metálica solidez impressionava os pássaros que por ali pousavam, não pelo reluzir de formas de zinco, mas pela sua figura de coisa morta, pelo seu silêncio de catedral ao vazio. As árvores, espantadas com a surpresa e a atenção que os pássaros davam aos arranha-céus cinzentos, cresciam ainda com mais vigor. Por um misto de saudade de coisas que já não voltam e por um pequeno e ténue, mas existente, sentimento de vingança, estendiam, ao crescer, os seus ramos para esses edifícios metálicos e exangues. Não se tratava de amor algum, somente uma tentativa para esconder a fealdade artificial que fora imposta à rua meio clara-meio escura. As suas folhas verdejantes tomavam conta do cinzento cadavérico e animavam-no, e a Alameda parecia menos morta com aquelas máscaras de carvalho maciço. A natureza procura sempre estender a sua mão para eliminar a porcaria que os homens fazem, e é por isso que nos campos mais feios crescem sempre as melhores ervas e os melhores arbustos. Esses resistentes estão lá para lembrar o homem de que, por mais que tente vergar a natureza à sua cabeça racional, ela acaba sempre por lhe fazer cheque-mate, mesmo quando a situação parece de todo condenada ao triunfo da máquina. As árvores entrelaçavam num abraço asfixiante a tecnologia, o fruto do labor de séculos, do homem. Acolhiam-na, tolerando a sua presença, mas diziam também que ela não poderá crescer tanto como elas, que nunca saberá verdejar, que nunca saberá florescer, e que também, dos filhos que alguma vez parir, eles lhe nascerão todos estéreis. A técnica, diziam as árvores, está condenada ao desaparecimento. Os pássaros estremeciam, fascinados. O ser vegetal foi dotado de uma inteligência muito grande: só cresce consoante pode, vive a contemplar a terra e estende-se sempre em direcção ao céu. Por isso são as plantas que mandam nos destinos dos animais, de acordo com o modo como são por eles tratadas. Por isso era aquela Alameda tão fria a mais quente da cidade inteira. As últimas árvores que tinham resistido tinham chamado os pássaros do Sul, lá muito ao longe, e disseram-lhes que anda havia uma réstia de vida por onde eles se podiam agarrar. Não era muito, mas os pássaros são bichos de promessa, confiam na palavra dsa árvores e seguem-nas, a saber-lhes o sentido. Um dia também voltarão para nós a cobrar a sua promessa. E oxalá que nesse dia estejamos na companhia de muitas árvores, para que a palavra dada não nos escape.

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